“O combate tem que ser de natureza cultural, de mudança de mentalidade”

Três perguntas a Miguel Cardina.

Miguel Cardina, investigador do Centro de Estudos Sociais
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Miguel Cardina, investigador do Centro de Estudos Sociais Sergio Azenha

O investigador do Centro de Estudos Sociais estudou a praxe numa perspectiva histórica, com trabalhos no contexto da crise académica de 1969.

Qual o papel das instituições do ensino superior na prevenção dos abusos na praxe?
A praxe é um fenómeno que ocorre no âmbito da actividade estudantil e faz todo o sentido as instituições de ensino superior terem uma palavra a dizer. Neste início do ano lectivo houve uma série de instituições que tomou uma posição no sentido de dizer que não toleram atentados à dignidade dos estudantes e que os abusos praticados no âmbito das praxes são uma coisa intolerável e incompatível com aquilo que deve ser a função de uma instituição de ES. Parece-me bem que isso aconteça e cabe nas competências das instituições ter este papel de salvaguarda da dignidade dos novos estudantes e da própria imagem.

O presidente do CRUP disse que as praxes só acabam quando os estudantes acharem que não faz sentido. Estes eventos de acolhimento dos estudantes podem ajudar a caminhar nessa direcção?
São níveis diferentes. Há uma mudança em termos de mentalidade que é importante trabalhar, que passa por não ter tolerância para com os abusos e com os actos de violência a coberto da ideia de integração dos novos alunos. E isso é uma mudança cultural de longo fôlego que não é um decreto que elimina. Ao mesmo tempo, as instituições, ao contrário daquilo que tinha sido a prática nos últimos anos, têm vindo a tomar consciência que não podem tapar os olhos sobre essa questão.

Proibir a praxe é a solução?
Depende do que entendemos por proibição. Os actos de abuso e de violência sobre outrem já são proibidos legalmente. Há um trabalho de valorização que deve ser feito daquilo que são alternativas à chamada integração dos novos alunos, quer da parte dos estudantes, quer das instituições. O caminho é sobretudo esse. Quer iniciativas alternativas que em Coimbra se realizam, quer a responsabilização que algumas instituições chamaram a si para organizar, parecem-me ir no bom sentido. O combate tem que ser de natureza cultural, de mudança de mentalidades e tornar obsoleto aquilo que, já de si, é obsoleto.