Ofensiva turca na Síria está para durar com aval da Rússia

Ancara e Moscovo cada vez mais juntas na luta contra o "terrorismo" na fronteira com a Síria, uma expressão que inclui o Estado Islâmico e os separatistas curdos. Erdogan e Putin querem também acelerar envio de ajuda humanitária a Alepo.

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Os Presidentes da Turquia e da Rússia vão reunir-se na cimeira do G20 Sergei Karpukhin/Reuters (Arquivo)

Os sinais de reaproximação entre a Turquia e a Rússia já eram evidentes, mas esta sexta-feira os dois países deram um passo decisivo para combaterem em conjunto as forças que estão na mira de cada um ao longo da fronteira com a Síria – os rebeldes curdos e o extremistas do autoproclamado Estado Islâmico.

Num dia recheado de avanços diplomáticos e importantes decisões políticas, o Presidente russo, Vladimir Putin, falou ao telefone com o Presidente turco, Recep Tayyp Erdogan, numa conversa que serviu para discutir a situação na Síria. De acordo com o Kremlin, os dois líderes salientaram a importância de um combate conjunto contra "o terrorismo", no mesmo dia em que um carro armadilhado explodiu na cidade de Cizre, na Turquia, junto às fronteiras com a Síria e o Iraque.

Neste ataque, cuja autoria já foi reivindicada pelo Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), morreram 11 polícias e outras 78 pessoas ficaram feridas, incluindo três civis. O engenho foi activado num posto de controlo e destruiu o edifício onde funcionava a esquadra da polícia local.

O conflito armado entre as autoridades da Turquia e os vários grupos separatistas curdos começou em finais da década de 1970, teve uma trégua de dois anos e foi retomado este Verão – o objectivo dos separatistas é a criação de um Estado curdo independente, que inclui uma área actualmente integrada na Turquia, na Síria e no Iraque.

Na mesma zona (principalmente na fronteira entre a Turquia e a Síria) actua também o autoproclamado Estado Islâmico, que é um alvo de todos – dos curdos, mas também do Governo sírio de Bashar al-Assad, da Turquia (que defende o afastamento de Assad) e da Rússia (que defende o actual regime sírio).

Esta teia de conflitos e interesses tem aumentado a instabilidade na região, e culminou com o abate de um caça russo por um avião turco em Novembro do ano passado. Mas nas últimas semanas os governos da Turquia e da Rússia reaproximaram-se em nome dos seus principais objectivos – para Ancara, o principal objectivo é reprimir os combatentes curdos, e também manter ao largo os extremistas do Estado Islâmico; para Moscovo, o objectivo é devolver o controlo da região às forças de Bashar al-Assad, que considera estarem a ser atacadas apenas por forças "terroristas" – seja o Estado Islâmico, outros grupos fundamentalistas ou combatentes da oposição política a Bashar al-Assad.

Segundo o acordo divulgado esta sexta-feira, as forças turcas vão continuar na Síria durante o tempo que for preciso para "limpar a fronteira de extremistas do Estado Islâmico e outros militantes", disse o primeiro-ministro turco, Binali Yildrim. Este anúncio surge dois dias depois de a Turquia ter lançado a sua primeira grande operação em território sírio, para afastar o Estado Islâmico e impedir os avanços dos curdos.

"Temos defendido sempre a integridade territorial da Turquia. Também temos defendido a integridade territorial da Síria. O objectivo destas organizações terroristas é criar um Estado nestes países. Mas nunca terão sucesso", disse o chefe do Governo turco após o ataque desta sexta-feira em Cizre.

"Vamos manter as nossas operações na Síria até conseguirmos garantir a segurança da vida e da propriedade dos nossos cidadãos e a segurança da nossa fronteira. Vamos continuar até que o Daesh [outro nome para designar o Estado Islâmico] e outros elementos terroristas sejam eliminados", disse ainda Binali Yildrim, numa referência aos combatentes separatistas curdos ligados ao PKK – uma organização terrorista para a Turquia, e ainda para Estados Unidos e União Europeia.

O acordo entre a Turquia e a Rússia é importante porque o Governo de Bashar al-Assad considera a operação turca no seu território uma violação da sua soberania – esta operação conta com o apoio de grupos anti-Assad nos combates contra o Estado Islâmico. A operação turca foi também condenada por uma coligação de 23 grupos curdos, que acusam a Turquia de querer ocupar território sírio e estancar possíveis avanços curdos sob o pretexto da luta contra o terrorismo.

O desejo da Turquia é implementar uma zona-tampão na Síria, que serviria dois propósitos – travar o movimento separatista curdo e empurrar para longe os extremistas do Estado Islâmico. Ancara tem pressionado a União Europeia e os Estados Unidos com o argumento da luta contra os fundamentalistas, mas Bruxelas e Washington querem separar o combate mais global contra o Estado Islâmico do combate entre a Turquia e os curdos.

"Estamos a limpar os elementos do Estado Islâmico e outros elementos terroristas do Norte da Síria, para que as pessoas que lá vivem não sejam forçadas a abandonar as suas casas. Mas o problema tem de ser gerido ao nível da União Europeia. É preciso apresentar soluções urgentemente", disse o primeiro-ministro turco, lembrando os europeus do fluxo de refugiados sírios que tem criado divisões na União Europeia.

Também esta sexta-feira foi anunciado que os sinais exteriores de reaproximação entre Ancara e Moscovo têm data marcada: Recep Tayyip Erdogan e Vladimir Putin vão reunir-se à margem da cimeira do G20, na cidade chinesa de Hangzhou, nos dias 4 e 5 de Setembro. Na mesma conversa telefónica, os dois líderes comprometeram-se a acelerar o envio de ajuda humanitária para a cidade síria de Alepo.

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