Rui Bragança não quer mais aventuras low cost

Português, bicampeão europeu da sua categoria, perdeu nos quartos-de-final e não foi repescado para os combates pelo bronze. “Só o ouro não teria desencanto”, lamentou, pedindo condições para continuar na modalidade.

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Rui Bragança (de vermelho) tem de torcer para que o dominicano chegue à final REUTERS/Issei Kato

Sorridente à chegada e sereno à saída, o português Rui Bragança despediu-se da competição olímpica de taekwondo com um nono lugar na categoria -58kg. O atleta de 24 anos, bicampeão europeu do seu escalão, perdeu o combate dos quartos-de-final com Luisito Pie e não foi repescado devido à derrota do dominicano nas meias-finais. “Só o ouro não teria desencanto. Estou feliz pelo primeiro combate que fiz e orgulhoso por toda a caminhada até cá”, vincou Bragança no final.

A primeira participação de Rui Bragança em Jogos Olímpicos teve um desfecho inglório, até porque ainda antes de fazer o primeiro combate, o português já antes tinha assistido à queda dos dois primeiros do ranking olímpico: o iraniano Farzan Ashourzadeh e o sul-coreano Kim Tae-Hun foram afastados da competição logo na primeira ronda. Bragança iniciou a competição diante do colombiano Óscar Muñoz Oviedo, bronze em Londres 2012, e os sinais foram prometedores, com um triunfo confortável por 14-2, num combate que o português teve sempre sob controlo.

Bragança entrou sorridente, acenou para o numeroso grupo de portugueses na bancada, e subiu ao tatami da Arena Carioca 3 cheio de confiança. Aplicou um golpe na cabeça do adversário que inicialmente não foi pontuado pelos juízes, mas o pedido de revisão do lance no vídeo feito pelo seu técnico levou à atribuição dos três pontos ao português. Com um desempenho autoritário, Bragança continuou a pontuar e no terceiro e último round fez o 14-2, garantindo a diferença de 12 pontos que vale o triunfo imediato.

A competição foi retomada à tarde e no caminho entre Rui Bragança e as meias-finais estava Luisito Pie, da República Dominicana. O adversário do português tivera a vida facilitada na primeira ronda: não teve de combater porque o seu oponente, o alemão Levent Tuncat, faltou à pesagem e foi desqualificado.

O combate foi diferente daquele que Bragança tivera frente ao colombiano. Pie teve maior ascendente e o português debateu-se com dificuldades para contrariá-lo. Mesmo assim, aos 30 segundos do segundo round, ensaiou um pontapé rotativo que ficou a milímetros da cabeça do adversário. “Quase, quase”, lamentou o treinador Hugo Serrão, encorajando o atleta. Porém, tudo se precipitou no terceirou round. O dominicano atingiu Bragança na cabeça quando faltavam 45 segundos, adiantando-se a 3-0. O tempo corria contra o português, que em desespero de causa tentou recuperar. Mas confirmou-se a derrota por 4-1.

“O primeiro a errar perdia, e fui eu. Estávamos os dois muito fechados, se calhar podia ter tentado antecipar-me mais vezes, mas não estava a sentir-me muito confortável com isso. Tentei ir mais para o contra-ataque, estive perto de conseguir. Ele passou perto da minha cabeça, eu passei perto da dele. As coisas estavam muito equilibradas e foi aquele toque que decidiu tudo. De azar ou sorte, foi um toque. Já sabia que neste palco não dá para errar. Tentei recuperar com tudo o que tinha, tentei tudo e mais alguma coisa, mas simplesmente não deu”, lamentou Bragança após confirmar-se o afastamento da competição.

O atleta português teve a infelicidade de nem ser repescado para os combates pelas medalhas de bronze porque o dominicano Luisito Pie foi derrotado nas meias-finais pelo tailandês Tawin Hanprab (11-7). “Foi o meu último combate na categoria -58kg. Agora é recuperar o corpo, que esta estrada foi muito longa. Os últimos dois anos, para a qualificação, foram incrivelmente duros”, sublinhou Rui Bragança. Quanto a uma eventual presença nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020, o atleta não deixou certezas: “Só se houver condições. Se não houver condições é impossível chegar a algum lado. Podia voltar a pedir aos meus pais, mas não quero isso. Devo aos meus pais estar aqui, todo o apoio emocional e financeiro. Isto foi um esforço pessoal e do meu treinador, dos meus colegas de treinos. Sem todos eles, isto era impossível.”

“Claro que ficava mais feliz com o ouro, mas não estou triste com o nono lugar. Foi uma sensação única ter os meus pais, a minha namorada e os meus amigos, saber que atravessaram o Atlântico para estar aqui. É a melhor coisa que levo daqui”, acrescentou Rui Bragança, que há quatro anos viu fugir a presença em Londres 2012 no combate com o sueco Uno Sanli, no torneio europeu de apuramento: “Foi contra um atleta contra quem tinha ganho sempre. Naquele dia, passei o combate todo a ganhar, mas, nos últimos segundos, escapou-se”, lamentara ao PÚBLICO antes de viajar para o Rio de Janeiro.

Concluída a participação no Rio 2016, as perspectivas de Rui Bragança dividem-se entre o taekwondo e o curso de Medicina. “Continuar no taekwondo não está em questão, depende é a que nível faço a próxima época. Isto é aquilo que eu mais gosto, é a melhor coisa do mundo. No próximo ano tenho de estudar para o Harrison (exame de acesso à especialidade). Enquanto toda a gente no sexto ano está no hospital e a estudar para o Harrison, eu vou ter os treinos e vou estar a estudar para o Harrison. Até aí, tudo bem. Depois vamos ver o que acontece”, sublinhou.

Mas, para continuar ao mais alto nível, alguma coisa terá de mudar: “Se a situação da Federação Portuguesa de Taekwondo é má, que apostem os clubes. Talento não falta em Portugal. Não precisamos de muito. Os atletas já fazem tudo o que podem. Nós só somos atletas. Já faço de médico, de fisioterapeuta, tudo e mais alguma coisa. Não posso fazer também de dirigente”.

E, lúcido, concluiu: “Por acaso tive a sorte de os meus pais conseguirem ajudar-me, e tive a mega-sorte de ser vice-campeão do mundo. O dinheiro que recebi de ser vice-campeão do mundo aguentou-me, depois fui campeão da Europa, e voltou a dar. Mas andámos a viajar em low cost, a ficar em hostels. A ser fisioterapeuta do meu companheiro e ele meu, quando íamos só os dois. Já temos muitas aventuras, podemos escrever um livro. Mas isso não dá para repetir: foi muito divertido, mas também foi muito duro.”