Torne-se perito

A vida de Michael Phelps começa agora

O Estádio Aquático Olímpico do Rio de Janeiro foi o último cenário onde o norte-americano nadou competitivamente. Despediu-se das piscinas como o atleta mais medalhado da história dos Jogos Olímpicos, com um total de 28 medalhas (das quais 23 de ouro) obtidas num trajecto de 16 anos.

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Pouco antes de uma prova nos Jogos de Sydney, quando ainda se ouviam CD's em Discman. Phelps não ganhou medalhas, mas melhorou as suas marcas individuais DR
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Durante os 400 metros estilos, nos Jogos de Atenas, em 14 de Agosto de 2004 David Gray/Reuters
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Depois dos 200m mariposa, nos Jogos de Atenas Jerry Lampen/Reuters
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Estafeta de 4X200m livres, nos Jogos de Atenas Jerry Lampen/Reuters
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Medalha de ouro nos 200m estilos, nos Jogos de Atenas David Gray/Reuters
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Estafeta de 4x100m estilos, nos Jogos de Atenas Yves Herman/Reuters
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Depois da final dos 100m mariposa, nos Jogos de Atenas Jerry Lampen/Reuters
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Medalha de ouro nos 400m estilos, nos Jogos de Pequim, em Agosto de 2008 David Gray/Reuters
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Vitória nos 4x100 livres, nos Jogos de Pequim David Gray/Reuters
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Início da final dos 200m livres, nos Jogos de Pequim Adrees Latif/Reuters
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Cerimónia da vitória nos 4x200 livres, nos Jogos de Pequim David Gray/Reuters
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Final dos 200m mariposa, nos Jogos de Pequim Kai Pfaffenbach/Reuters
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Final dos 200 metros livres, nos Jogos de Pequim David Gray/Reuters
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Final dos 100m mariposa, nos Jogos de Pequim Jason Reed/Reuters
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Final dos 4x100 estilos, nos Jogos de Pequim Wolfgang Rattay/Reuters
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Vitória nos 4x200 livres, nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012 Jorge Silva/Reuters
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Final dos 200m estilos, nos Jogos de Londres David Gray/Reuters
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Vitória nos 100m mariposa, nos Jogos de LOndres Gary Hershorn/Reuters
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Medalha de ouro nos 4x100m estilos, nos Jogos de Londres Jorge Silva/Reuters
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Vitória nos 4x100 livres, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016 Marcos Brindicci/Reuters
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Medalha de ouro nos 4x200 livres, nos Jogos do Rio Dominic Ebenbichler/Reuters
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Depois da vitória nos 200m mariposa, nos Jogos do Rio Stefan Wermuth/Reuters
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Vitória nos 200m estilos, nos Jogos do Rio Stefan Wermuth/Reuters
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Vitória nos 4x100m estilos, nos Jogos do Rio Dominic Ebenbichler/Reuters

Os 100m mariposa, a última prova individual que nadou na piscina do Estádio Aquático Olímpico do Rio de Janeiro e na sua carreira competitiva, funcionaram para Michael Phelps como uma passagem de testemunho. O facto de ter cedido o lugar mais alto do pódio ao jovem Joseph Schooling, de 21 anos, que cresceu a tê-lo como ídolo, contribuiu para essa leitura. E as palavras do norte-americano dissiparam as dúvidas: “Devia estar muito chateado por ter perdido uma prova, porque ninguém gosta de perder, mas estou orgulhoso do Joe. Ele foi melhor. Estou pronto para me retirar”, admitiu Phelps, com a tranquilidade de quem sente o dever cumprido. Foi como se um peso lhe tivesse saído dos ombros – agora pode começar a viver.

Em quatro participações (também esteve em Sydney 2000, mas não conquistou medalhas) o nadador tornou-se num colosso dos Jogos Olímpicos, um nome incontornável na história da sua modalidade e da maior competição desportiva mundial. No seu medalheiro particular ostenta 23 ouros, três pratas e dois bronzes. “Quando era miúdo queria ser como ele”, confessou Schooling. O nadador de Singapura, o primeiro a bater Phelps no Rio 2016, cresceu a ver um herói no norte-americano. E rapidamente começou a circular uma fotografia dos dois, em 2008, quando a equipa olímpica dos EUA passou pela cidade-Estado na preparação para os Jogos de Pequim. “É uma loucura pensar no que aconteceu em oito anos. Muito disto deve-se ao Michael. Ele é a razão que me levou a querer ser um nadador melhor”, acrescentou. Dificilmente poderia haver impressão mais forte do que ver o homem com quem tinha sido fotografado arrebatar oito medalhas de ouro na capital chinesa.

“Mais quatro anos? Não. Não. Acabou-se. Fiz tudo o que me propus fazer na natação e, depois de 24 anos nesta modalidade, estou feliz pela forma como as coisas vão acabar. Foi por isso que regressei, em 2012. Não queria sentir nenhum arrependimento daqui a 20 anos. Agora posso fechar a porta nos meus termos, é por isso que estou feliz agora”, garantiu Phelps na noite de sexta-feira. O ouro na prova da estafeta 4x100m estilos, na jornada nocturna deste sábado no Rio 2016, consumou o descer do pano para a carreira do melhor nadador de todos os tempos – antes, já se tinha tornado no primeiro de sempre a vencer a mesma prova em quatro edições dos Jogos Olímpicos, com o triunfo nos 200m estilos. A partir de agora, a prioridade vai passar a ser outra: “Estou pronto para passar tempo com o Boomer e a Nicole, e ver o pequenito crescer.”

Phelps iniciou um novo ciclo de ouro para o Team USA

A companhia do filho e da sua noiva, a quem Phelps procurava quando terminava uma final ou descia do pódio, foi uma constante no Rio de Janeiro. E marcará a nova etapa da vida dele. Mas o caminho para chegar onde está agora foi longo e tortuoso para o nadador, que demorou a conseguir encontrar-se com a sua essência para além da figura pública e supercampeão das piscinas idolatrado pelo mundo inteiro. “Estou num estado de espírito melhor do que estava há quatro anos”, confessou. O homem a quem chamam “Bala de Baltimore” chegara aos Jogos Olímpicos de Londres num mau momento a nível pessoal e competitivo, mas isso não o impediu de ter conquistado quatro medalhas de ouro e duas de prata. A retirada após Londres 2012 apanhou o mundo de surpresa, mas não durou mais do que um ano. Depois, Phelps teve de reconciliar-se com a piscina, com a natação e consigo próprio.

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Durante a final da estafeta 4x100 estilos, a sua última prova olímpica Marcos Brindicci/Reuters

Foi preciso bater no fundo para empreender essa jornada pessoal. Tudo começou no final de Setembro de 2014, quando o nadador foi detido por condução sob o efeito de álcool. Michael Phelps fechou-se em casa durante dias, recusando-se a ver ou falar com quem quer que fosse. Nem a mãe conseguia chegar até ele. A determinada altura, enviou uma mensagem ao seu agente: “Não quero continuar a viver”. No seu círculo mais próximo, os alarmes soaram. E, por isso, aconselharam-no a cumprir um período num centro de tratamento. “Tinha muito medo. Não estava preparado para mostrar-me vulnerável”, confessou Phelps ao The New York Times, semanas antes de partir para o Rio de Janeiro.

As seis semanas que passou na clínica The Meadows operaram uma transformação em Michael Phelps. O treinador Bob Bowman era contra a ida para o centro de tratamento, mas teve de render-se: “Nunca pensei que ele viesse a mudar. Durante 12 anos escondeu tudo o que o tornava humano. A reabilitação ajudou-o a abrir-se”, reconheceu.

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O nadador que estava tão embrenhado na sua actuação que nem chegou a memorizar os nomes de todos os seus companheiros de equipa da natação nos Jogos Olímpicos de 2004 e 2008 estava, subitamente, a socializar e a interessar-se pelos outros pacientes da clínica. A detenção foi o fundo do poço, mas teve um efeito positivo: “De certa forma, foi uma bênção ter acontecido. Sem isso, não sei se estaria onde estou hoje, mentalmente, fisicamente, emocionalmente, em tudo”, confessou Phelps à agência AP. Foi como se o obrigasse a acordar de um longo período de dormência. “Os anos que devia ter passado a formar e desenvolver a sua personalidade foram devotados a formar e desenvolver as suas capacidades na natação”, escreveu Karen Crouse no NYT.

A detecção precoce do talento de Phelps levou a que, desde muito cedo, passasse a ter uma rotina muito diferente da dos jovens da sua idade. Bowman viu potencial olímpico naquele nadador de 11 anos e disse aos pais que ele era “especial”. Daí aos treinos bi-diários, sete dias por semana, foi um passo. O pai, agente da polícia estadual do Maryland, tinha reservas quanto ao regime: “Nunca teve a hipótese de ser adolescente. Por vezes encorajava-o a fazer pausas, dizia-lhe para irmos uns dias à praia. Mas era desautorizado”, afirmou Fred Phelps, que foi uma presença intermitente na vida do nadador, com os dois a afastarem-se após o divórcio dos pais.

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O adeus no Rio de Janeiro Dominic Ebenbichler/Reuters

Esse episódio marcou profundamente Michael e levou-o a centrar-se ainda mais na natação. “Usava-o como motivação na piscina”, disse ao NYT. A ascensão fulgurante na modalidade, como nadador polivalente que tanto brilhava na mariposa, como no estilo livre ou nos estilos, reforçou esse ciclo – até ao ponto de começar a afastá-lo daquilo que o rodeava. Em 2000, aos 15 anos, era o nadador mais jovem da equipa olímpica dos EUA. Três anos depois, nos Mundiais de Barcelona, tornou-se no primeiro a bater cinco recordes mundiais numa competição. A admiração dos seus pares não demorou a transformar-se em inveja, com Bowman a contar que ao início Phelps era aplaudido pelos companheiros quando chegava ao refeitório, mas que com a sucessão de recordes a reacção mudou, contou Bowman: “Lembro-me claramente. Era como se os outros nadadores estivessem a pensar ‘Será que ele vai roubar-me o lugar nos próximos Jogos Olímpicos?’”

Odiar nadar

Atenas 2004 anunciou com estrondo a chegada de Phelps à ribalta, com oito medalhas (seis de ouro e duas de bronze). Esse desempenho foi sublimado quatro anos depois, em Pequim, com ouro em todas as provas em que participou. Por vezes a nadar finais e meias-finais com intervalo de minutos, e com cerimónias de pódio pelo meio. À distância, talvez devesse ter-se retirado após isso, reconheceu o treinador. Mas havia demasiado em jogo. “Tínhamos criado um monstro que, depois de Pequim, era demasiado grande para falhar. Era preciso fazer o que fosse preciso para continuar em actividade. Foi assim que fomos a Londres 2012. A relação com o pai, a gestão da fama, esse tipo de coisas... pensei: lidamos com isso mais tarde”, confessou ao NYT.

Depois detenção por álcool, como Phelps testou os limites

Era como se fosse tudo irreal. “Parecia que estávamos a sonhar o maior sonho possível e o tínhamos alcançado. E agora, o que fazer depois disso?”, disse Phelps sobre o período pós-Londres. A passagem pela clínica The Meadows mudou o nadador. Reaproximou-o do pai e da namorada (agora noiva) Nicole. E também da piscina. Não falha um treino, ao contrário do que acontecia antes. “Voltou a adorar nadar, o que não acontecia antes dos Jogos Olímpicos de Londres. Na verdade, tinha começado a odiar”, reconheceu o treinador Bowman. E por isso decidiu-se a deixar a melhor imagem possível na sua despedida, ao contrário do que acontecera antes de Londres 2012. “Desta vez, trata-se de entrega total. Não quero viver o resto da minha vida com arrependimentos”, vincou Phelps.

A preparação para o Rio de Janeiro foi levada a sério. O nadador mudou-se para Phoenix, de forma a estar mais perto de Bowman, que começara a trabalhar com a natação da Universidade do Arizona. O plano inicial, contou a agência AP, era que fosse algo temporário, com prazo de validade até aos Jogos Olímpicos, e que Phelps regressaria a Baltimore – onde tem a família e a maioria dos amigos – logo que possível. Mas parece que não será assim. O cenário para a sua nova vida estava encontrado e as maiores dúvidas eram, por exemplo, de que cor pintar o quarto do filho.

“Depois de 63 provas olímpicas numa distância total de 11.800 metros, distribuídas por cinco Jogos Olímpicos, Michael Phelps está preparado para declarar a carreira encerrada”, resumiu a jornalista do NYT. Em breve, as medalhas serão apenas recordações para Phelps: “A vida é absolutamente brilhante. Parece que vivo num mundo de sonhos”. A nova vida está a começar.

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As 23 medalhas de ouro de Phelps em Jogos Olímpicos Reuters

Phelps a sair, Ledecky e Biles a chegar

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