Foram assim os últimos meses de vida da minha avó

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A avó da fotógrafa italiana Gaia Squarci descobriu, aos 85 anos, sofrer de "uma doença do fígado" da qual não recuperaria. A palavra "cancro" nunca foi mencionada, apesar de ser esse o mal em questão. Sofrera de cancro da mama anos antes e a família achou por bem poupá-la dessa informação. "A minha avó não sabia quão doente estava realmente. A minha mãe e tia sabiam que não aguentaria a ideia de uma nova luta contra o cancro. E até ao dia em que morreu, uma dúvida permaneceu: teríamos nós o direito de saber a verdade sobre o seu estado e omiti-la?" Nonna, como a fotógrafa carinhosamente a tratava, foi, ao longo do tempo, perdendo faculdades; o tamanho do seu mundo foi diminuindo de algumas ruas a algumas paredes; então todos os detalhes se tornaram importantes. "Percebi que a minha mãe estava a perder a sua mãe", disse à Reuters a fotógrafa. "Testemunhei toda a gama de emoções que viveu e a energia que dedicou ao tempo que lhes restava juntas." Nunca aceitou que estranhos cuidassem dela e uma das actividades mais estimava era dar-lhe banho. "Não hesitava tocar no seu corpo e não permitia que mais ninguém o fizesse. Quando acompanhei a minha mãe e avó, na casa de banho, observei em silêncio, com a minha câmara. Enquanto vivia esses momentos preciosos, imaginei-me a mim numa idade avançada e pensei em como o tempo altera a percepção do que significa ser mulher. Enquanto a minha avó encarava a minha objectiva, completamente nua, revelando o seu corpo cheio de marcas de doenças passadas e presentes, ela não demonstrou o mais pequeno embaraço — apenas confiança e orgulho." Nonna passou os últimos meses em casa, rodeada pela sua família. "Ela 'fez as pazes' com a ideia de morrer e dizia senti-la chegar, lentamente." No dia 11 de Outubro de 2015, Nonna partiu. As suas cinzas foram espalhadas no seu local favorito do parque que frequentava. "[As cinzas] Pesavam nas minhas mãos. Atirei-as o mais alto possível no ar e elas caíram sobre a relva e sobre mim. A minha mãe, irmão e tia fizeram o mesmo. No final, estavamos todos cobertos das cinzas de Nonna, assim como o espaço à nossa volta. Meses mais tarde, a minha mãe enviou-me uma fotografia do local. Estava totalmente coberto de flores."

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