Torne-se perito

Água turva correu nas torneiras do Alandroal e a autarquia não sabia o que se passava

Os níveis freáticos baixaram nas captações a partir das quais é abastecida a população da vila alentejana, um dos poucos concelhos que não registava problemas de escassez de água.

Factura da água subiu 8% em 2012
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Factura da água subiu 8% em 2012 Eva Carasol

Os primeiros sinais que das torneiras começava a sair água turva “surgiram há cerca de 15 dias”, revelou ao PÚBLICO, José Oliveira Codices, residente próximo de um dos pontos de captação de água que serve a vila raiana do Alandroal. Nos dias que se seguiram, a situação foi-se agravando e os protestos e as queixas da população salientavam o mau aspecto da água que chegava às suas casas. A presidente da Câmara de Alandroal, Mariana Chilra, disse que desconhecia a causa do problema.

Num comunicado da autarquia tornado público no dia 2 de Agosto, a que o PÚBLICO teve acesso, a autarca garante que a câmara “não foi previamente informada de qualquer intervenção por parte da Águas de Lisboa e Vale do Tejo (AdLVT)”, entidade que fornece água em alta ao concelho alentejano.  

A autarca afirma que instou várias vezes a AdLVT, para que fosse esclarecida das causas que estavam a condicionar o abastecimento da rede pública mas só no dia 2 de Agosto, “e após insistência, obteve resposta”, sublinha Mariana Chilra. A informação prestada pelos serviços operacionais da empresa confirma “o aumento súbito do parâmetro turvação na madrugada de 1 de Agosto” na nova captação que a empresa passou a utilizar, denominada Poço das Morenas, que acabara de ser reabilitada.

A anómala situação levou a que “sensivelmente entre as 7h00 e as 16h00, existisse alguma dificuldade no normal abastecimento do sistema devido à necessidade de proceder a alterações no sistema de tratamento de água”, refere a AdLVT. Esta entidade garantiu ao PÚBLICO que “nunca esteve em causa” a potabilidade da água fornecida ao município do Alandroal e que a situação “já foi ultrapassada com os meios próprios”. A empresa foi forçada a recorrer a outros de sistemas de produção e tratamento de água instalados na barragem da Vigia localizada entre as freguesias de Redondo e Montoito para atestar os reservatórios do município do Alandroal.

A presidente da câmara garante que “não foi informada” desta transferência de água, operação que exigiu a utilização de viaturas autotanques de corporações de bombeiros voluntários, sediadas em concelhos limítrofes, e acrescenta que a empresa lhe garantiu a qualidade da água “está assegurada apesar da turvação que apresenta”.

Uma funcionária do café “Casa da Mala”, no Alandroal, adiantou ao PÚBLICO que a água da rede “está mais clarinha” que nos dias anteriores. Outra moradora, Lucrécia Cardoso, continua a não confiar na água da torneira. “Continuo a preferir água engarrafada para beber”, disse, explicando que a da rede pública “ainda não está bem”, constatação que é corroborada por Oliveira Codices, que frisa que os sinais estão patentes no depósito de areia que deixa nos sanitários.

A AdLVT, nos esclarecimentos que prestou à Câmara de Alandroal, adianta que está a desenvolver esforços para “rapidamente” regularizar a situação, “lamentando o sucedido que não era possível prever”.

No comunicado de quarta-feira divulgado pela autarquia, refere que o consumo de água por parte da população “dispara nos meses de Verão, chegando em muitos casos a triplicar em relação aos consumos de Inverno”. Este facto impôs a necessidade de obter água em maior profundidade nos furos artesianos que se situam-se nos Algares das Morenas e Santo António, que captam directamente do sistema aquífero Estremoz-Cano.

Oliveira Codices observou nesta quinta-feira que os trabalhos continuam a decorrer numa das captações que abastecem o Alandroal, explicando que um seu vizinho que também tem um furo teve necessidade de o aprofundar para ter acesso à água. Este morador refere que o concelho “era dos poucos no Alentejo” que não registava situações de escassez.

O sistema aquifero Estremoz-Cano, com uma área total de 202 quilómetros quadrados, situa-se no nordeste alentejano, nas bacias hidrográficas do Tejo e do Guadiana e tem grande importância regional, uma vez que é responsável pelo abastecimento público de cinco concelhos: Sousel, Estremoz, Borba, Vila Viçosa e Alandroal, para além das actividades agrícola e indústria extractiva fortemente implantadas na região.

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