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Quintino Aires e os ciganos: a questão da verdade

Comunicar também é uma questão de atitude, de compassividade. Na verdade, a "verdade" é sobrestimada, e, frequentes vezes, é o preconceito que faz a realidade e não o contrário

A relação da Opinião Pública com a "verdade" continua a surpreender-me e o recente caso envolvendo as afirmações de Quintino Aires acerca dos ciganos vem renovar a minha consternação, aliás, a minha vergonha relativamente à escusa do rigor que por aí grassa.

Sabemos que uma das bases da epistemologia científica radica no facto de que não dispomos de um acesso directo (imediato) à verdade; subsiste, no entanto, a "cientificidade", a verosimilhança, mas nem esta é apanágio do "rigor" com que se cerceia a maioria dos comentaristas. Em rigor, não sei sequer se Quintino Aires proferiu seus comentários enquanto mero comentarista ou como psicólogo, se é que isto interessa, visto parecer a temática "etnológica" mais fortemente referente à sociologia e à antropologia, ciências já por si "moles", cujos estudos se revestem muitas vezes de um conteúdo subjectivo, pessoalista, se bem que encoberto de idiográfica "fenomenologia"; os estudos de carácter "estatístico" (nomotéticos), esses também não possuem a valia requerida, e não são irmãmente livres de uma influência do investigador, do que Popper (o filósofo da "sociedade aberta") denominava de "efeito Édipo". Sim, a investigação tem que se lhe diga, e a "verdade" (humana) é mormente uma questão de disposição sócio-moral, e, pelos vistos, Quintino Aires deve ter levado em linha de conta estas questões "subjectivistas", visto que comenta dando como factos asserções despidas de dados comensuráveis.

Vamos, agora, pressupor "ingenuamente" que Quintino Aires se limitou a dizer... a verdade das coisas, e que tal deve ser feito, custe a quem custar. Ora, há outra questão a ter em conta nestes temas da relação da "verdade" com o "ser humano". Trata-se da responsabilidade ("moral" e/ou "algorítmica") de quem "afirma", ainda mais se ativermos o denominador "pós-moderno", segundo o qual, a "realidade" é, em grande medida, construída pelo investigador. Que consequências poderão trazer as afirmações em jogo? Será que elas não concorrem para conservar um processo que possui sua âncora numa estrutura/dinâmica social nem sempre facilmente escalpelizável? Não ajudam tais comentários a fazer com que uma etnia se comporte de acordo com as representações e pre-conceitos que lhe são atribuídos? Assumindo que deverão existir ciganos que constituem a "excepção à regra", será justo submetê-los a um julgamento "generalizador", impondo o risco de os "normativizar", que, neste caso, significaria "patologizá-los" socialmente? Em suma, de que serviria conhecer, apontar, a verdade, como se estivéssemos a tratar de "objectos"? Pretende-se resolver uma situação "social" — asse-se a arrogância da coisa — apontando, delimitando, estigmatizando, perseguindo? Mais me parece que isso ajuda a perpetuar o que já existe. Mas, note-se, tal como não me cabe a mim arrogar a afirmação de uma "verdade", também não me cabe desejar, sequer, que algo "mude", que uma coisa "desapareça" ou que, pelo contrário, seja contraída à "normalidade". Talvez porque, por vezes, o arrogo egóico de quem busca a verdade - que até costuma em mim subsistir - é (/deve ser) revezado pela atitude compassiva, pela tolerância (que é, a bem ver, a "atitude" menos intrusiva, não vá um preconceito ético preciso e categórico minar a "re-solução" moral do investigador).

Comunicar também é uma questão de atitude, de compassividade. Na verdade, a "verdade" é sobrestimada, e, frequentes vezes, é o preconceito que faz a realidade e não o contrário. A tentação de "real-izar" os nossos maiores preconceitos é grande, achamos, bastas vezes, que existe um perigo "objectal" que deve ser delido, quando, se calhar, o melhor acontece quando nos limitamos a "ser", no fundo da intersubjectividade (que é, aliás, uma verdade, bem para além da linguagem/cultura). Mesmo, e necessariamente, colocando imperativos éticos (tradicionais) de lado, é provável que a inclusão continue a compor a solução menos desastrosa para a supostamente desejável homogeneização (igualdade? justiça?) social.