Na rua, no mar, na lavoura ou na galeria existe só uma arte no Walk&Talk

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Do Brasil vieram os VJ Suave, dupla perita em projecção em movimento, com desenhos expostos sobre as árvores e lagoas da ilha de São Miguel e no concerto dos Peixe: Avião
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Exposição Black Dolphin
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Peça do espanhol Javier de Riba para o hotel em ruínas Monte Palace
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Festa no Quarteirão com música dos Line Of Two
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A peça Vernie concebida pelos Moradavaga
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Criação do colectivo italiano Orizzontale para O Quarteirão
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A alemã Sara Mohr a criar o seu mural
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Exposição de Susana Mendes Silva
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Mural do argentino Elian Chali

Nos primeiros anos o festival Walk&Talk distinguiu-se pelos murais criados por artistas que transformaram a zona de Ponta de Delgada, e áreas adjacentes da ilha de São Miguel nos Açores, numa galeria a céu aberto.

Nessa altura a percepção pública é que estávamos perante um festival de arte urbana. Em parte porque os seus fundadores idealizaram que se comunidade local não tinha curiosidade por arte contemporânea havia que levá-la directamente para a rua. Hoje essa ligação com o território mantem-se mas os murais deixaram de ser a senha identitária do evento.

E nunca, como na 6ª edição, isso foi tão evidente. “Ficarmo-nos por aí era redutor, até porque a arte mural não é uma expressão ou um movimento artístico. É simplesmente uma forma artística e da mesma maneira que se pode pintar uma tela pode-se fazer o mesmo num mural”, afirma o director do evento Jesse James. O que não significa que não subsistam hierarquizações ou preconceitos. “Sim, eles existem, e nós tentamos diluí-los. Este ano tivemos, por exemplo, a alemã Sara Mohr, uma artista mais ligada ao circuito das galerias a fazer aqui um mural. Da mesma forma interessa-nos misturar disciplinas, daí termos apostado no design e na arquitectura, mas isso não tem que se traduzir em cruzamentos. Não é esse o nosso foco. Interessa-nos sim que essas disciplinas possam coexistir. É isso que nos faz sentido. É esse tipo de pluralidade que nos move.”

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Na Galeria Miolo, uma mostra de disciplinas gráficas, comissariada por Pedro Moura

Essa multiplicidade foi bem visível este ano com a ilha de São Miguel transformada num laboratório de criação contemporânea, com inúmeros agentes internacionais e nacionais a proporcionarem exposições de artes visuais, intervenções de arte pública, performances, dança e teatro, artesanato e design, concertos, residências artísticas, conferências ou projectos especiais, sempre numa lógica que encoraja a concepção em diálogo com o território e a comunidade. Essa relação pode ser evidente ou subtil e isso foi manifesto, por exemplo, no circuito de exposições.

Na exposição Lua Cão, comissariada por Natxo Checa, patente na Galeria Walk&Talk, essa relação com o local estava lá – nem que seja porque o artista Alexandre Estrela filmou num túnel na Lagoa da Sete Cidades – mas não era elementar. É um ensaio abstracto, um trajecto sensorial sem narrativa, aquele que se pode experimentar num espaço semiescuro onde vão sendo projectados 11 filmes criados por Alexandre Estrela e pela dupla João Maria Gusmão e Pedro Paiva, sem que seja perceptível de forma evidente o que pertence a quem. Tanto somos confrontados com uma peça de Estrela feito no referido túnel, “um trabalho estrutural que cruza o filme como matéria e a imagem vídeo como representação”, aborda Natxo, como deparamos com um ritual de transe filmado por Gusmão e Paiva em São Tomé, onde vivos e mortos, mulheres e homens, se confundem, num cerimonial vigoroso que é como a própria exposição, uma sessão hipnótica que tem tanto de grotesco como de transcendência.  

Sem deixar de lado as questões de género que deste sempre marcaram o seu trabalho a artista Susana Mendes Silva, também acaba por aludir aos Açores em Aviatrix, com uma instalação patente na galeria Fonseca Macedo, que se baseia na aventura aeronáutica da americana Ruth Elder, que em 1927 tentou ser a primeira mulher a atravessar o Atlântico, de Nova Iorque a Paris, acabando nos Açores por causa de uma fuga de óleo.

Quem concebeu uma peça a pensar especificamente nas águas de Ponta Delgada foi o arquitecto Nuno de Castro Paiva. Portal, assim se chama o seu trabalho, foi concebido o ano passado, a partir de espelho acrílico e madeira de criptoméria, com o objectivo de flutuar. “A minha ideia desde o início foi conceber uma peça para o mar porque me parecia que o plano da água não havia sido muito trabalhado ao longo dos anos no festival e queria relacionar a cidade com a água”, diz-nos. O ano passado a sua estrutura espelhada acabou por ser colocada na baía da cidade, brilhando com a ondulação que intensificava os reflexos de luz como se fosse um raio que emanava do fundo do mar, mas acabou apreendida pelas autoridades, por burocracias alheias ao artista, estando agora exposta na Galeria Arco8, sendo aí possível vislumbrar todo o processo de feitura.  

Já os artistas Tiago Alexandre e Horácio Frutuoso foram convidados a ocupar o primeiro andar do Louvre Michaelense, para aí exporem Black Dolphin, com desenhos do primeiro devolvendo-nos o golfinho como entidade indefinida, longe da imagem romantizada habitual, ao mesmo tempo que o segundo propõe textos que têm tanto de adolescente como de desarmante, como se apenas nos restasse a poesia para nos curar das feridas de uma existência onde tudo acaba por ter leituras indefinidas.

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A peça Portal de Nuno de Castro Paiva quando lançada ao mar

A Galeria Miolo, onde foi possível ver uma mostra de disciplinas gráficas, comissariada por Pedro Moura (Oficina do Cego), com serigrafias, gravuras, ilustração ou banda desenhada de artistas contemporâneos, situa-se no perímetro da zona histórica de Ponta Delgada, onde vários agentes culturais e do comércio local têm imaginado um pequeno bairro cultural. Neste caso um Quarteirão, para o qual o Walk&Talk também tem contribuído, acabando por formalizar um espaço durante o festival.

Os arquitectos Giacomo Mezzadri e Joana Oliveira, do Mezzo Atelier, acabaram por ter um papel central durante o processo, imaginando o que poderia ser feito de forma a ser criado um projecto que envolvesse a comunidade. “O nosso trabalho foi mais de concertação”, diz-nos Joana, daí surgindo o convite ao colectivo italiano de arquitectura Orizzontale cujo interesse são os processos de reactivação envolvendo a malha urbana em actos colaborativos públicos. “Estão habituados à autoconstrução e a trabalhar com comunidades, percebendo o que é benéfico para todos de forma horizontal, daí termos pensado de imediato neles”, justifica.

“Ao mesmo tempo achámos interessante envolver um designer e foi aí que surgiu o italiano Francesco Zorzi que consegue criar uma identidade não muito literal, com complexidade narrativa, mas transformando isso numa linguagem gráfica acessível.” Arquitectos e designer acabaram por trabalhar em paralelo, resultando daí uma grelha flexível e aberta à colectividade, um ecossistema de construções em madeira e espelhos.

Quem também viu a sua peça – Vernie – ser apropriada por miúdos e graúdos foram o colectivo luso-italiano de arquitectos Moradavaga, que inspirados pela presença do mar conceberam uma tentacular lula gigante, que ficou exposta num dos parques da avenida junto à baía da cidade.

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Exposição Lua Cão, curadoria de Natxo Checa, uma hipnose com algo de grotesco e transcendente

Mas no campo da arte pública as peças que suscitaram mais curiosidade foram as concebidas pelo catalão Javier de Riba para o hotel em ruínas Monte Palace, situado na estrada que dá acesso à Lagoa das Sete Cidades, ou a forma geométrica de grandes dimensões do argentino Elian Chali para um bairro social colocado entre uma via rápida e a praia de São Roque, como se a sua obra quisesse tornar inclusiva ou dialogar com uma população que vive perto do mar mas numa espécie de não-lugar.

Do Brasil vieram os VJ Suave, dupla perita em projecção em movimento, mistura de tecnologia e arte, sendo os desenhos que concebem feitos à mão e projectados de acordo com a arquitectura do espaço, iluminando nos Açores as árvores mas também lagoas ou o concerto dos Peixe: Avião. Criadores do movimento Mais Amor Por Favor utilizam também as paredes da cidade para comunicar as suas ideias, induzindo por mais educação e respeito em metrópoles de grandes desigualdades sociais.

“O festival acontece durante duas semanas mas este ano pela primeira vez foram acontecendo projectos ao longo do ano porque queremos que isto perdure e que fique rasto”, diz Jesse James. “Desejamos contaminação de ideias, de métodos e de formas de operar. A dupla Musa Paradisíaca, por exemplo, esteve a filmar na lavoura, com um lavrador, por acaso meu pai, e foi interessante para todas as partes. O meu pai, que não tem qualquer tipo de relação com a arte, vi-os filmar em película e a sentiu que havia interesse sobre a sua actividade e todos eles se foram interrogando sobre o que é isso de ter uma lavoura ou o que é isso de cuidar dos animais e transformar o leite num produto, resultando daí um projecto que interroga a animalidade dos homens e a humanidade dos animais.”

Ao festival interessa-lhe que esses exemplos se multipliquem. “Este é um trabalho contínuo. Não tenho ilusões. Leva tempo. Mas acredito que daqui a dez anos vamos estar uns degraus acima nesse envolvimento e questionamento de todos, seja da comunidade, seja dos artistas, que são também comunidade. O festival é para as pessoas de cá, mas não nos interessa um festival que esteja encerrado na ilha. E a arte tem isso, quando existe centralidade nas ideias, os limites esbatem-se.” Não há arte urbana, de rua, de mar, de lavoura, de periferia ou de galeria. “Há apenas arte capaz de nos interpelar, provocar, fazer reflectir sobre nós e as pessoas e a realidade à nossa volta. E é essa a arte que nos interessa.”