Alberto I da Bélgica: teorias da conspiração sobre a sua morte não resistiram à genética

Em 1934, quando o rei Alberto I morreu num acidente de alpinismo, a Bélgica ficou de luto. Várias teorias surgiram sobre a sua morte. Análises genéticas a folhas de árvore manchadas com sangue do rei acabam agora com parte das especulações.

Fotogaleria
Folhas de faia-europeia e hera ajudaram a confirmar o local onde Alberto I foi encontrado morto Maarten Larmuseau/Universidade Católica de Lovaina
Fotogaleria
Local onde o rei foi encontrado morto em Fevereiro de 1934 assinalado com uma cruz Wikicommons

O papel do rei Alberto I da Bélgica durante a I Guerra Mundial tornou-o famoso. Além de ter negado à Alemanha o pedido de entrada do exército alemão na Bélgica para invadir o território francês, Alberto I ficou ao lado dos seus soldados durante o resto do conflito, assumindo-se como líder do exército belga. Quando o seu corpo foi encontrado sem vida perto da aldeia de Marche-les-Dames, perto da cidade Namur, no Norte da Valónia, em Fevereiro de 1934, a nação chorou a morte do herói de 58 anos.

Segundo o que se sabe, o corpo foi encontrado numa zona florestal, na base de uma rocha, na noite de 17 para 18 de Fevereiro. A explicação oficial para a sua morte foi um acidente de alpinismo. Mas o corpo foi retirado rapidamente para ser enviado para Bruxelas. Muita gente não viu o cadáver e foram surgindo dúvidas sobre aquela versão oficial. Será que Alberto I foi assassinado e não foi um acidente? Será que foi assassinado noutro local e o seu corpo foi colocado ali? Será que o seu corpo alguma vez esteve, de todo, na base daquela rocha?

As teorias da conspiração nunca desapareceram, quase sobrepondo-se à história de Alberto I e da importância que teve durante o seu reinado (1909-1934). Mas passadas mais de oito décadas, o que aconteceu naquela noite de Fevereiro ficou agora um pouco mais claro. Há relatos da época de que várias pessoas retiraram do local da morte folhas de árvores que estavam no chão com manchas de sangue de Alberto I para ficarem como recordação. Algumas delas foram parar recentemente às mãos de uma equipa de investigadores da Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica.

Usando técnicas de biologia molecular, a equipa analisou o ADN no sangue e comparou-o com o ADN de parentes do rei que ainda estão vivos. Os resultados mostraram que o sangue era de facto a Alberto I, provando que, muito provavelmente, o rei morreu onde o corpo foi encontrado, perto de Marche-les-Dames, segundo um artigo publicado recentemente na revista Forensic Science International: Genetics.

PÚBLICO -
Foto
Rei Alberto I Wikicommons

Os resultados contradizem parte das teorias da conspiração que existem sobre aquele acontecimento. “Oitenta anos depois do acontecimento, todas as pessoas que estiveram envolvidas morreram, e a maioria do material desapareceu. Provavelmente nunca iremos afastar todas as especulações em relação ao caso”, diz Maarten Larmuseau, um dos autores do estudo, especialista na análise de ADN para o estudo de genealogias, citado num comunicado da universidade.

“Este estudo foi uma das últimas possibilidades de juntar mais dados. A autenticidade dos vestígios do sangue confirma a explicação oficial da morte de Alberto I. As histórias de que o corpo morto do rei nunca esteve em Marche-les-Dames ou que só foi colocado lá à noite tornaram-se agora muito improváveis. Além disso, estes resultados mostram que, na altura, teria sido impossível logo desde o início realizar uma investigação forense perfeita, já que os caçadores de recordações tinham perturbado o local”, conta o investigador.

A investigação só pôde ser feita porque o jornalista televisivo Reinout Goddyn (especialista em assunto da monarquia) comprou algumas folhas de faia-europeia (Fagus sylvatica) e de hera (Hedera helix) com manchas de sangue que teriam sido obtidas no local da morte do rei. Dieter Deforce, investigador da Universidade de Gante, na Bélgica, que participou no trabalho actual, tinha confirmado em 2014 que aquele sangue era humano. O passo seguinte foi verificar se os vestígios pertenciam mesmo a Alberto I.

Antes de mais, Maarten Larmuseau e os seus colegas tentaram comprovar a autenticidade das folhas de faia-europeia e de hera. Para isso, confirmaram que aquelas duas espécies vegetais realmente existiam perto de Marche-les-Dames. Depois, foram atrás das pessoas que tinham estado na posse das folhas na altura da morte do rei. Um certificado com três assinaturas acompanhava as páginas de papel onde estavam as folhas. A equipa conseguiu identificar a autora de uma das assinaturas: Marthe de Thier, que pertencia às famílias nobres de Namur, vivia a cerca de sete quilómetros de Marche-les-Dames em 1934 e conhecia um dos técnicos que fez a investigação judicial do caso. Era possível que tivesse obtido folhas daquele local.

A ética da genética

Depois, veio finalmente a parte da genética e também a da ética. “A importância deste estudo deve-se em primeiro lugar ao seu valor histórico, mas também às questões éticas. Queria realmente discutir os problemas éticos que surgem com este tipo de relíquias [como folhas com sangue que têm ADN humano] e como é que podemos lidar com isso”, explica Maarten Larmuseau ao PÚBLICO.

A análise do material genético é o estudo do ADN, a molécula que passa de pais para filhos ao longo das gerações e que guarda a informação genética, que define a cor dos cabelos e dos olhos, mas que também pode tornar uma pessoa vulnerável a certas doenças. Há uma série de trabalhos científicos e médicos que analisa a informação genética. No contexto do estudo de genealogias, a informação genética serve, muitas vezes, para confirmar parentescos.

No entanto, esta informação é privada. Alguém morto em 1934 nem sequer sabia o que era a molécula de ADN, cuja estrutura só foi descoberta duas décadas depois. Por isso, nunca poderia ter dado consentimento para se analisar o seu ADN. E no caso de uma família real a questão é ainda mais delicada. Com a informação genética, é possível despistar doenças genéticas graves, que podem existir nos actuais monarcas. Além disso, é possível confirmar se a linha real é verdadeira. Ou seja, se os filhos dos reis são realmente filhos dos reis. Descobrir acidentalmente que há uma quebra nesta linha traria complicações à família real.

Para contornar estes problemas, a equipa foi à procura de parentes vivos de Alberto I fora da Bélgica. “Não queríamos usar parentes próximos, para o caso de descobrirmos uma discordância entre a genealogia legal e a genealogia biológica”, explicou-nos o investigador. “Isto traria dificuldades à família real.”

Assim, os cientistas foram buscar a informação genética de dois parentes longínquos de Alberto I que estão vivos. A equipa obteve ADN do último rei da Bulgária (1943-1946) e depois também primeiro-ministro daquele país entre 2001 e 2005, Simeão II. O pai de Alberto I é avô do bisavô do monarca búlgaro, numa linhagem 100% paterna. Por outro lado, a avó da mãe de Alberto I é também avó da bisavó de Ana Maria Freifrau von Haxthausen, uma baronesa da Alemanha, numa linhagem sempre materna. A baronesa também deu permissão para analisar o seu ADN para este estudo.

Deste modo, a equipa usou técnicas de biologia molecular para analisar nos vestígios do sangue das folhas vegetais apenas o ADN mitocondrial – que está contido nas mitocôndrias, as baterias das células, presentes nos ovócitos durante a fecundação e que passam só da mãe para os filhos – e o ADN do cromossoma Y – um dos 46 cromossomas humanos contidos nos núcleos das células, mas que tem um papel relevante porque define o sexo masculino, e por isso só passa dos pais para os filhos homens.

Depois, os cientistas compararam a sequência genética do ADN mitocondrial do sangue nas folhas com o ADN mitocondrial da baronesa da Alemanha, por um lado, e por outro compararam a sequência genética do cromossoma Y do sangue nas folhas com a do cromossoma Y do monarca búlgaro. Como as sequências batiam certo, a equipa confirmou que os vestígios do sangue nas folhas eram mesmo de Alberto I. Estes resultados foram ainda confirmados por outros dois laboratórios independentes para que, no fim do trabalho, a informação genética pudesse ser destruída. Deste modo, não poderia ser usada para outros fins.

“Concentrámo-nos apenas na identificação das pistas deixadas pelo sangue e evitámos deliberadamente deduzir aspectos inesperados que poderiam vir nos resultados do ADN”, explica Maarten Larmuseau no comunicado. “Evitar isso foi o mais difícil neste estudo. Queríamos também proteger a privacidade de toda a gente envolvida e dos parentes vivos, e evitar a comercialização desta informação genética.”

As folhas de faia-europeia e de hera vão agora ser confiadas a uma instituição que preserve este património. Quanto ao rei belga, Maarten Larmuseau espera que a descoberta dê mais relevância à sua vida e ajude a deixar para trás os contornos da sua morte. “Alberto I fez imenso pelo nosso país, incluindo na área da ciência”, diz-nos. “Não me parece certo que hoje seja quase só conhecido devido às conspirações existentes à volta da sua morte.”