Reportagem

A magia de Potter não tem idade nem país, mas tem casa no Porto

Harry Potter? A Livraria Lello já viu muitos, mas talvez nunca tão ansiosos como na noite de sábado para domingo em que foi lançado o livro Harry Potter and the Cursed Child - Parts I & II.

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Fernando Veludo/NFactos
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Nas Galerias de Paris, este é um sábado à noite como tantos outros. As conversas e a música abafam a “gritaria” que vem da rua principal e há quem nem note porque é que milhares de pessoas moveram mundos e fundos para esta noite estarem em frente à Livraria Lello, no Porto.

Patrícia Jones tinha oito anos quando foi colocado nas prateleiras Harry Potter e os talismãs da morte, o último livro da saga de J. K. Rowling. Último, muitos achavam, mas outros tantos, tal como ela, acreditavam que a relação apaixonada entre os fãs e a saga não acabava ali. Nessa altura “não tinha idade” para estas coisas. Este sábado, com 17 anos, foi ela a primeira a ter nas mãos o mais novo capítulo das histórias da feitiçaria de Hogwarts, Harry Potter and the Cursed Child - Parts I & II, num lançamento inédito em Portugal.

Já a tínhamos encontrado de manhã, na fila junto à livraria – que acordou de cara lavada – , onde esteve desde as 11h de sexta-feira. Contava o quão ansiosa estava por receber e ler o livro – afinal esperou nove anos para uma nova história com o apelido Potter à cabeça. Nem lhe custou a noite em que (não) dormiu ao relento, nem os quilómetros que fez de Lisboa para a Invicta. 35 horas de espera depois, “valeu muito a pena”.

Ainda está Patrícia agarrada ao livro, com os olhos brilhantes de lágrimas e a recompor-se da chuva de disparos das máquinas fotográficas que caíram sobre ela, na escadaria da livraria, quando as portas se abrem. A meia-noite soa no sino da Igreja dos Clérigos e à contagem até três rasgam-se os papéis que cobrem as janelas da livraria. Há uma montra cheia de livros. À mesma hora, o livro era lançado em Londres, na data mais simbólica para os fãs. JK Rowling faz anos e com ela, a personagem principal e que dá nome à saga.

O livro Harry Potter and the Cursed Child - Parts I & II é o guião de uma peça de teatro, escrito por JK Rowling, Jack Thorne e John Tiffany. O resto deste parágrafo inclui um spoiler sobre a intriga da peça. Com ele, estão de volta as personagens preferidas de Patrícia e de milhares de leitores por todo o mundo. Desta vez o protagonismo recai sobre o filho mais novo de Harry Potter, Albus Severus Potter, numa viagem no tempo para tentar evitar a morte de Cedric Diggory, interpretado por Robert Pattinson no cinema.

Um inédito, finalmente

Potter é neste livro um homem de 37 anos e com três filhos, mas nas ruas do Porto ainda resta a lembrança de um rapaz de 11 anos, com óculos redondos e uma cicatriz na testa.

E com a meia-noite entregam-se os livros. Como Patrícia, muitos sabiam que desde que foi anunciado o lançamento, não o podiam perder. Entram os primeiros dez leitores que esperaram por este momento, “também eles uns heróis”, para receber, juntamente com o livro mais esperado da noite, a obra ilustrada de Harry Potter e a Pedra Filosofal, o primeiro título da saga que é uma oferta da Lello.

De seguida, o rodopio de fãs passa da rua para dentro da livraria. Muitas máquinas de filmar, entre as televisões e as pessoais, muitos flashes, muita ansiedade e muitos sorrisos. Os leitores circulam pela livraria e recolhem o seu exemplar à saída. Não sem antes admirarem as prateleiras repletas de livros da saga, dos ilustrados às edições especiais. Muitos “quero” e “já tenho”, pronunciados em várias línguas e por várias idades. Há portugueses, espanhóis e ingleses; pais a acompanhar os filhos, pais sozinhos e jovens dos dez aos 30 anos.

“Ao fim de nove anos podemos ler novamente algo inédito do Harry Potter”, exclama Ana Luísa Silva, de 28 anos, ainda em êxtase à saída da livraria. “Esperamos que a JK Rowling tenha sido fiel àquilo que é a história, tenha mantido muitas ideias antigas e traga coisas novas”, uma esperança que é partilhada pelas amigas, que prometem ler o livro ainda esta noite. Ana Beatriz Figueiredo, de 27 anos, também acha que pouco pode correr mal, não fosse “a autora tão rigorosa como é. A peça é excelente, com certeza.”

Harry Potters a Lello já viu muitos, mas talvez nunca tão ansiosos. Os livros continuariam a ser vendidos até às 2h. Horas antes, a fila de pré-venda em frente ao Armazém Castelo serpenteava o passeio ao largo da Reitoria da Universidade do Porto, preenchida pelos últimos que ainda procuravam garantir que não sairiam de mãos a abanar. Era lá que se fazia o pagamento que mais tarde garantiria a entrada na Lello para receber o tão desejado livro.

Catarina Oliveira tem aos ombros a capa preta do traje académico, essa tão parecida com a dos feiticeiros de Hogwarts, quem sabe inspirada nos estudantes do Porto – recorde-se que a autora viveu nesta cidade. Cruzam-se duas dimensões que são familiares num dia em que todos querem vestir a rigor: nos ombros, a capa com a qual frequentou o ensino superior e na mente a nostalgia de uma história que a acompanhou durante toda a infância. “Cresci muito ao lado desta história”, recorda a jovem de 27 anos.

A jovem nem ousou espreitar as teorias dos internautas sobre o livro, porque quer saber a história em primeira mão, por si própria, quando o ler. Hoje, já são perto de seis mil os que o podem fazer, caso tenham sido vendidos todos os exemplares que a livraria disponibilizou para o lançamento.

A partir daqui, a caminhada é feita aos soluços, qual pára-arranca em hora de ponta. “Com licença, com licença.” Lá se chega junto do jardim sobre o Passeio dos Clérigos, dando de caras com a fila que dá voltas e voltas até estarem lado a lado três filas de pessoas que esperam pela entrada na livraria. A fila já dá a volta ao fundo da rua Dr. Ferreira da Silva e volta para o largo da livraria. 

Batalhas suspensas e uma tese a caminho

Às 22h, começam as animações de uma noite que já se adivinhava bem longa. As surpresas vão das aparições da professora Trelawney com os pés assentes no chão aos duelos de varinhas suspensos ao longo da fachada da livraria, habilidades parecidas com as que no sábado de manhã fizeram descer o pano branco que tapava as obras de restauro da Lello. Dumbledore surge no meio do público, a distribuir poções e selfies com os fãs.

Chamam-se pelos apoiantes das quatro casas em que se divide o universo de Hogwarts e os “ooohs” por Gryffindor levam a melhor sobre as restantes. O apoio à casa a que pertencem as personagens principais Potter, Ron Weasley e Hermione Granger já era bem visível nos uniformes vermelhos e cor-de-laranja que se cruzam nas ruas do Porto.

Carolina e Clara Gonçalves não tiveram de procurar muito no armário, porque o uniforme que vestem para ir à escola é muito semelhante ao de Hogwarts. E com um pouco de imaginação, todos os cenários se constroem: “Às vezes eu e as minhas amigas gostamos de fingir que estamos mesmo lá”, conta Clara, de 9 anos, sobre a sua escola, onde também há equipas, mascotes, brasões e uniformes. Voltam as suspeitas: até onde Hogwarts é inspirada no Porto?

A irmã mais velha, Carolina, de 13 anos, começou a ler Harry Potter aos nove anos até devorar todos os que encontrou na biblioteca. A irmã seguiu-lhe as pisadas. Mas foi a mãe, Maria Antónia Gonçalves, que contagiou o clã. “Comecei a ler quando saiu, ainda elas não tinham nascido. Li os dois primeiros em português e os outros em inglês para não ter que esperar pela tradução”, conta. Apesar de não gostar muito de fantasia, as “particularidades da escrita de JK Rowling” fizeram-na ficar agarrada às páginas, esperando sempre pelo próximo livro. “Tenho a certeza que este será muito bom, porque tem a mão desta escritora. E uma ajuda de outros autores não fará com certeza mal”, acredita.

Neste mar de gente, há também muitos de verde e cinzento à Slytherin, outros de amarelo e preto de Hufflepuff e ainda várias gravatas azuis e castanhas de Ravenclaw. Muitos pequenos Potters e, pelo menos, uma Bellatrix. Junto à porta da Lello há mesmo uma plataforma 9 ¾ de onde parte o Hogwarts Express.

Mas a cada passo alguém pergunta onde estão os actores da saga. E a autora, ninguém a viu? A livraria sempre esclareceu que não estaria presente nenhum dos intervenientes dos livros ou dos filmes, apesar dos rumores e de algumas confirmações na comunicação social. “Em 24 anos nunca nada me partiu tanto o coração”, admite Marta Pinha. Tinha sete anos quando leu o primeiro livro de Harry Potter e desde então o número de vezes que leu cada obra de JK Rowling já chega às 15. “Nunca quis que saísse outro livro com medo que estragasse a história”, mas hoje não resiste em juntar-se à fila. “Agora que o livro existe, não podia perdê-lo”, mas o receio de que este não seja surpreendente como os outros está lá, comum a muitos fãs.

Marta está desde as 16h de sábado à espera e enquanto isso, à volta da livraria, os cafés enchem-se de gente. Há mesmo uma roulote no meio da confusão. Marta reconhece que a febre, que ela própria vive em volta da saga, é um forte impulsionador do turismo no Porto. Afinal, é com base nessa ideia que está a terminar a tese de mestrado em Turismo, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estudando os argumentos para a criação de um parque temático, semelhante ao de Londres, na cidade, dedicada a Harry Potter.

Texto editado por Bárbara Wong

Notícia corrigida às 18h09 com introdução de alerta de spoiler