Na terra onde os cereais são as pistas de descolagem, os grous vão à vinha matar a sede

Quando os eucaliptos ameaçaram a avifauna de Castro Verde, no início dos anos 90, a autarquia, os ambientalistas e os agricultores resistiram às empresas de celulose, mas a luta prossegue na defesa de um ecossistema humanizado. A candidatura a Reserva da Biosfera da UNESCO é o passo seguinte.

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Pedro Cunha
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Diogo Perdigão veio do Bombarral, há 18 anos, para se instalar como viticultor em Castro Verde. Ficou preso ao fascínio da terra plana, rica em biodiversidade. Adquiriu a Herdade das Fontes Bárbaras, com 162 hectares, inserida na Zona de Protecção Especial (ZPE) de Castro Verde, onde prevalece a estepe cerealífera mais significativa de Portugal e uma das mais importantes da Europa. Um caso de sucesso exemplar de compatibilização entre o homem e a natureza com três décadas de histórias.

Diogo rapidamente se apercebeu da importância e do valor do ecossistema que se transmuta nas mais diversas tonalidades consoante as estações do ano. O território do chamado Campo Branco, que se estende por cerca de 85 mil hectares nos concelhos de Castro Verde, Mértola, Ourique, Aljustrel e Beja, realça, na Primavera, uma profusão de cores em que predomina o branco, o amarelo, o vermelho e o roxo, dispersas por um enorme manto de verde. No Verão os campos cobrem-se de amarelo-palha ou de cor cinza que transmitem uma sensação de enorme aridez. “Nenhum lugar pode ser mais serenamente belo, nenhum o será com meios mais comuns, terra larga, árvores, silêncio”. Assim falava José Saramago quando em 1998 revelava o seu encantamento pelo território transtagano.

Foi nesta ambiência que se deixou envolver Diogo Perdigão quando se instalou em Fontes Bárbaras. “Não havia ali um único grou. Agora temos centenas deles”, recorda ao PÚBLICO. As aves apareciam nos 15 hectares de vinha que acabara de plantar para “beber da água do sistema de rega gota-a-gota”. Agora, são várias as espécies que frequentam, sem medo da presença humana, a pequena barragem que entretanto construiu para suportar a rega da vinha.

Para se ter uma ideia da importância da avifauna identificada na ZPE de Castro Verde, das cerca de 160 espécies de aves identificadas, 84 são nidificantes e destas 22 têm estatuto de conservação desfavorável, tanto a nível nacional como comunitário. Pela sua importância, as mais emblemáticas são a abetarda (Otis tarda), o peneireiro-das-torres (Falco naumanni), o grou (Grus grus), o sisão (Tetrax tetrax), o cortiçol-de-barriga-negra (Pterocles orientalis) e o tartaranhão-caçador (Circus pygargus).

O contacto com as particularidades e as fragilidades do ecossistema alertaram os ambientalistas para as condições do solo no Campo Branco. Ainda estão presentes na memória dos mais velhos as consequências da campanha de trigo que Salazar incentivou nos anos 20, 30 e 40 do século passado. Sucessivas e intensas culturas cerealíferas esgotaram a terra arável e aceleraram um processo de erosivo que culminou na situação actual: solos delgados, com muitos afloramentos rochosos e extremamente debilitados.  

Hoje, e com a finalidade de melhorar a situação, a terra é explorada em rotação, “continuando-se a fazer o cereal mas intervalado com pousios, aproveitados pelo gado ovino, facto importante em termos de retorno de fertilização orgânica”, assinala a Liga para a Protecção da Natureza (LPN).

O viticultor reconhece, por sua vez, que sem a presença humana “as aves não ficam”. É necessário semear para que elas possam ter alimento. “Até instalámos plataformas para as cegonhas puderem fazer os seus ninhos”, refere Diogo Perdigão orgulhoso por poder apresentar as medidas que preconizou para garantir a presença das aves estepárias nos terrenos da sua exploração e assim valorizar a unidade de enoturismo que lá instalou.

Três décadas de luta

A simbiose entre a preservação do ecossistema da ZPE de Castro Verde e as actividades humanas são o resultado de três décadas de lutas. Francisco Duarte, presidente da Câmara de Castro Verde relembra ao PÚBLICO o que se passou no início dos anos 90. “Tentaram cobrir este território com uma floresta de eucaliptos, mas a autarquia resistiu à pressão e às mensagens de ganhos vultuosos e imediatos com o negócio da madeira de eucalipto”. Se os planos de florestação que estavam programados naquela época fossem consumados, “matavam a nossa biodiversidade”, observa o autarca.

No final dos anos 80, os terrenos do concelho de Castro Verde mais importantes para as aves estepárias tinham sido adquiridos por empresas de pasta de papel que pretendiam florestá-los com espécies de crescimento rápido, como o eucalipto.

As alterações na ocupação do solo iriam levar a um abandono da actividade agrícola e ao desaparecimento da avifauna estepária que é estritamente dependente da manutenção de práticas agrícolas cerealíferas extensivas. Na altura, a Liga para a Protecção da Natureza (LPN), o Serviço Nacional de Parques e Reservas Naturais (antecessor do Instituto da Conservação da Natureza), a Direcção Geral das Florestas e a Câmara de Castro Verde “decidiram actuar de forma conjunta para a salvaguarda deste habitat”, recorda o autarca.

O que nem sempre foi fácil, havia um longo caminho de sensibilização a percorrer. Como ilustra um episódio em 1995, quando a então ministra do Ambiente e dos Recursos Naturais no XI Governo Constitucional, Teresa Gouveia, se deslocou à zona do Campo Branco. Bem no interior da ZPE, a governante é confrontada com os perigos ambientais resultantes da florestação sobretudo para as espécies de aves que necessitavam de grandes espaços para voar como é o caso da abetarda, um agricultor e dirigente político e associativo defendeu o eucalipto com um argumento: A abetarda quando voa sabe desviar-se dos eucaliptos.  

O presidente da Câmara de Castro Verde de então, Fernando Caeiros, abanou a cabeça em sinal de reprovação e assertivo deixou claro: “Eucaliptos aqui? Não”.

Não bastariam as palavras para travar o passo às empresas de celulose que punham em risco o território dos voos únicos para as abetardas que necessitam de grandes espaços.

O município interditou, no Plano Director Municipal, cerca de 85% da área do Concelho à florestação com o objectivo de preservar as áreas pseudo-estepárias. Em paralelo decorreram conversações entre várias entidades e a União Europeia, tendo-se decidido que a LPN se candidataria a financiamentos comunitários para a aquisição dos principais terrenos para a preservação desta espécie.

A organização ambientalista realizou um estudo preliminar que serviu de base a uma candidatura efectuada pela Associação dos Agricultores do Campo Branco para a criação do Programa Zonal de Castro Verde, uma medida agro-ambiental que se tornou o principal instrumento de conservação da natureza na região. "E hoje, somos uma referência na Europa na protecção da avifauna”, com destaque para a abetarda, que Francisco Duarte compara a um “perú grande”. É a maior ave voadora da Europa que precisa de terreno aberto para voar. Chega a pesar 16 quilos e a envergadura das asas pode chegar aos 260 centímetros.

O testemunho que o dirigente do LPN, Eugénio Sequeira prestou ao PÚBLICO é revelador da ameaça que pairou naquele contexto sobre o território de Castro Verde. A florestação com eucaliptos “era uma burrice do ponto de vista económico e ambiental”, referindo que tanto a escassez de água como os solos esqueléticos acabariam por se reflectir numa baixa produção vegetal à custa da destruição da avifauna.

A Portucel recuou no seu propósito de florestar uma área com cerca de 800 hectares. O património da LPN em plena ZPE de Castro Verde é, presentemente, de 1700 hectares, totalmente alienados à protecção do ecossistema estepário, que procura compatibilizar as práticas agrícolas com a preservação do habitat e a conservação da avifauna.   

Depois dos eucaliptos, a A2

Vencida a batalha contra a florestação com eucaliptos, surge um novo adversário; o traçado da A2, a autoestrada para o Sul, que atravessa parcialmente o limite poente daquela ZPE, constituindo mais uma fonte de perturbação para o ecossistema estepário.  

Legalmente, a auto-estrada só poderia passar por sítios afectos à Rede Natura 2000 caso não houvesse alternativa, mas no âmbito do processo de Avaliação de Impacte Ambiental, relativo à A2, foram projectadas três alternativas em termos do traçado da auto-estrada, que foram preteridas. O Governo foi acusado por várias organizações ambientalistas de ter infringido a legislação comunitária para a protecção de habitats de espécies selvagens e Portugal foi então alvo de uma queixa comunitária contra a passagem da A2 por um território preservado. Contudo, a decisão tomada para a construção da auto-estrada tornara-se irreversível.

Como medida compensatória dos impactes ambientais resultantes da construção da auto-estrada do Sul, a área abrangida pela ZPE de Castro Verde foi alargada em 2008.

Actualment,e o território tem de conviver, para além do traçado rodoviário e outro tipo de intervenções humanas, com a instalação de linhas de alta tensão e vedações que delimitam as explorações. As consequências revelam-se na morte de aves por electrocução ou por embate nos aramados.

O desafio do futuro tem de continuar a assentar na sensibilização dos agricultores para que sejam “mantidas as práticas culturais que promovam a conservação e o aumento da fertilidade do solo”, advoga Eugénio Sequeira, que defende a prática da sementeira directa que evita a mobilização das terras.

O dirigente da LPN considera que deveria haver uma maior comparticipação do sector turístico para a protecção ambiental, lembrando que aquele “tem ganho” com a recuperação efectuada no meio natural que tem levado um número crescente de turistas que vêm contemplar a paisagem de Castro Verde.

Chegados a 2016, as ameaças à ZPE de Castro Verde residem agora na redução de apoios às agro-ambientais, o que põe em causa a sustentabilidade de muitas explorações agrícolas e pecuárias.

Numa entrevista que deu ao jornal regional Correio do Alentejo, José da Luz, presidente da Associação de Agricultores do Campo Branco (AACB), admite que o futuro do Plano Zonal de Castro Verde (PZCV) no Programa Portugal 2020 “está complicado”. E explica: “Era uma medida agro-ambiental separada de todas as outras. Agora foi tudo metido no mesmo saco”. Consequências: até aqui “nunca houve falta de dinheiro mas, muitas vezes, não havia candidaturas. Neste momento, temos candidaturas mas não temos dinheiro”. Para José da Luz, o PZCV, que “nunca teve problemas de contenção financeira, regista agora um retrocesso. Foi andar para trás” numa altura em que se verifica um “certo rejuvenescimento” no sector agrícola do Campo Branco que se reflectiu no “aumento do efectivo pecuário”, assinala José da Luz.

Os esforços no sentido da salvaguarda do modelo de um projecto agro-ambiental que tem sido a "bandeira" de Portugal no contexto europeu levaram a Câmara de Castro Verde a candidatar o concelho a Reserva da Biosfera da UNESCO, no âmbito do Programa MAB, encontrando-se, neste momento, a concluir o dossier de elaboração de candidatura, processo que se iniciou em 2013

Esta classificação tem por base o facto de Castro Verde ser um “Ecossistema Humanizado de Alto Valor Natural”, resultado de um trabalho contínuo de há várias décadas que está patente nos resultados alcançados ao nível da preservação da biodiversidade e dos valores naturais, culturais e paisagísticos. “O nosso território tem pergaminhos na conservação da natureza e a quase generalidade dos agricultores deste concelho aderiu a esta causa”, acentua Francisco Duarte.

O autarca assinala que Castro Verde “é um concelho eminentemente rural e assim deve continuar, apesar de ter no seu território a maior mina de cobre da Europa” que “está sujeita às flutuações nos preços” do mercado de metais não ferrosos. “É uma riqueza finita que não deve parar a agricultura”, sentencia Francisco Duarte, lembrando ainda que a água de Alqueva não vai chegar ao seu concelho com 500 quilómetros quadrados e 8 mil habitantes, reconhecendo, desta forma, a importância da biodiversidade e da agricultura na produção de riqueza para a comunidade a que preside.