Michael Phelps: um novo recorde numa vida de altos e baixos

O norte-americano tornou-se no primeiro nadador do país a assegurar a quinta presença nos Jogos Olímpicos. É o início de um novo capítulo, o último, de um superatleta que se reconciliou com a vida.

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Phelps no final da prova, sinalizando os cinco apuramentos para os Jogos Tom Pennington/AFP
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Michael Phelps apurou-se na quarta-feira para os Jogos Olímpicos (JO) no Rio de Janeiro, tornando-se no nadador masculino com mais participações nas Olimpíadas na história dos EUA. Para um atleta tão habituado a bater recordes, este seria apenas mais um, mas a verdade é que surge num momento especial da vida de Phelps, depois de alguns obstáculos lhe terem ameaçado a carreira.

Em Omaha, nos trials dos Estados Unidos, o nadador de Baltimore venceu os 200m mariposa em 1m54,84s — a sexta melhor marca do ano, atrás das do húngaro Laszlo Cseh e do sul-africano Chad Le Clos — ficando à frente de Tom Shields e Jack Conger, que fecharam o pódio. Com este resultado, tornou-se no primeiro homem a participar em cinco Olimpíadas, igualando o recorde de Dana Torres, também norte-americana, com nove medalhas conquistadas nos Jogos de 1984, 1988, 1992, 2000 e 2008.

“Esta foi, provavelmente, a prova mais difícil que disputei na minha vida”, confessou. Depois de sair da piscina, Phelps foi ter com Nicole Johnson, a noiva, e o filho Boomer — nascido em Maio —para partilhar a satisfação pela conquista, não escondendo sorrisos e algumas lágrimas. “É óptimo ter a família aqui. Tê-los aqui a apoiar-me juntos é incrível. Queria partilhar isto com eles”.

No fundo, esta qualificação já era esperada, até porque este foi o seu quinto melhor tempo neste ano, a dois segundos do seu recorde de 2015. O importante era assegurar um lugar na equipa olímpica norte-americana. Dos nove medalhados em Londres, quatro falharam no apuramento.

Michael Phelps chega aos Jogos Olímpicos pela quinta vez, com a ambição de bater mais recordes, algo que não consegue desde os Mundiais de 2009, antes da sua retirada. “Já passou muito tempo desde que bati o meu recorde pessoal”, vincou

A vitória nos 200m mariposa foi um bom ensaio nesse sentido, especialmente porque se trata de uma prova carregada de simbolismo para o norte-americano. “A prova dos 200m que acontecerá [nos JO] será a mais difícil da carreira”, assumiu.

À margem da vitória, foi justamente o seu comportamento após o final da competição que chamou a atenção. Phelps é hoje um homem diferente. Revela as suas emoções, está mais humilde. E está a reconstruir a relação com o pai, danificada ao longo dos anos, fruto de um divórcio que deixou marcas. “As coisas agora atingem-me mais emocionalmente, mais do que no passado porque estou a aproveitar e a apreciar o momento”, afirmou o atleta que terá no Rio de Janeiro a sua última participação olímpica.

Michael Fred Phelps II é o atleta mais medalhado da história dos Jogos Olímpicos. Em quatro edições (2000, 2004, 2008 e 2012) coleccionou 22 medalhas, sendo 18 de ouro. Um autêntico “peixe dentro de água”. A fama foi aumentando a cada edição, tendo um jovem prodígio, em 2000, passado a ser um atleta imbatível, em 2012. Mas não teve uma vida fácil. Os pais separaram-se quando Michael tinha apenas nove anos. Sentiu-se “abandonado”, algo que deixaria marcas no futuro.

Os primeiros problemas

Dez anos depois de conquistar a primeira medalha de ouro em Atenas, Michael saiu de casa sob o efeito do álcool. Numa operação Stop, a 29 de Setembro de 2014, foi mandado parar pelas autoridades. Assumiu as culpas e foi condenado a 18 meses de prisão, com pena suspensa.

Já antes, em 2009, um tablóide britânico denunciara que o nadador tinha sido apanhado a fumar marijuana com um cachimbo de água. A pressão mediática abateu-se sobre ele. E os seus comportamentos fora da piscina começaram a ser escrutinados.

Aos 29 anos, e com uma carreira recheada de sucessos, Phelps sabia que tinha desiludido a família e os amigos, que carinhosamente o tratam por “Peixe Voador”. Shea confessou que receava que o irmão acabasse por se perder depois daqueles incidentes. “Ligava-lhe e ele nunca nos atendia”, revelou. Michael justificava-se dizendo que não queria falar com ninguém.

Bob Bowman, o mítico treinador de Phelps, chegou a dizer que “vivia com o medo de receber uma chamada a dizer que algo de mal tinha acontecido”. E foi ainda mais longe: “Sinceramente, tendo em conta a maneira como ele estava, pensei que se iria matar. Não acabar com a própria vida, mas algo como conduzir com álcool, ou pior”.

Consciente dos seus erros, Phelps reuniu a família, a noiva e os amigos para tentar arrepiar caminho, para o ajudarem a lidar com o sentimento de culpa que o invadia. Foi difícil, mas convenceram-no a passar uma temporada numa clínica de reabilitação. “Estava num sítio muito escuro. Não queria viver mais”, admitiu.

Desde Atenas, os problemas tinham-se acumulado, mas a verdade é que continuava a conquistar medalhas. Mesmo faltando a treinos, como o próprio revelou: “Em 2008, depois de Pequim, mentalmente estava acabado. Não queria continuar mas sabia que não podia parar. Então forcei-me a fazer algo que não queria, que era continuar a nadar. Faltava a pelo menos dois treinos por semana. Porquê? Não me apetecia. Que se lixe. Vou dormir. Vou saltar sexta-feira e ter um fim-de-semana prolongado”.

O ponto de viragem

Os 45 dias de reabilitação passados numa unidade de saúde do Arizona transformaram por completo Michael Phelps. Perdeu gordura e ganhou massa muscular. Voltou a treinar-se regularmente, passando para as piscinas ao ar livre, uma novidade para o “Peixe Voador”. “Acabas de nadar, olhas para cima, e está um céu azul e sem nuvens. Isso para mim é fantástico”, assinalou.

Regressou aos treinos com maior intensidade. Proibido de participar nos Mundiais de natação, devido à suspensão atribuída na sequência dos problemas criados por condução imprópria, Michael nadou nos Campeonatos Nacionais, uma competição muito abaixo do seu nível, já que fez os tempos mais rápidos desde 2009. Se tivesse competido nos Mundiais, teria batido (novamente) todos os recordes. “Acho que nunca cheguei a dar tudo o que tinha”, confessou.

Os amigos dizem que está mais espiritual, mais consciente da vida. Pediu a namorada, Nicole Johnson, em casamento, teve um filho, e garante que o Rio de Janeiro será a sua última participação olímpica, para também poder dedicar-se à Fundação Michael Phelps. A grande prioridade também está definida. “Queremos ter uma família. Queremos ter (mais) filhos”, admitiu.

Michael Phelps chegará ao Brasil com 31 anos e 22 medalhas na bagagem. Poderá bater o recorde de nadador mais velho a ser medalhado, que pertence ao compatriota Duke Kahanamoku — ganhou uma medalha de ouro aos 30, nos 4x200m livres. É o atleta mais galardoado da história e está mais motivado do que nunca. É o Michael que todos conhecem. Mas é um homem novo.

Texto editado por Nuno Sousa