Marcelo Mirisola: “O obsceno e o religioso são os dois divinos”

Há uma vertigem que o impele para a escrita onde arrisca quase tudo em nome de uma voz marcada pela zanga e pelo lirismo. Marcelo Mirisola, provocador, desbragado, erudito, é autor de 18 livros mas só agora chega a Portugal com dois romances em simultâneo. Um desafio.

Polémico, provocador, pornográfico, incómodo e inconveniente. São alguns dos muitos adjectivos usados para classificar Marcelo Mirisola, o escritor de 50 anos com 18 livros publicados no Brasil e que até agora não estava editado em Portugal
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Polémico, provocador, pornográfico, incómodo e inconveniente. São alguns dos muitos adjectivos usados para classificar Marcelo Mirisola, o escritor de 50 anos com 18 livros publicados no Brasil e que até agora não estava editado em Portugal Enric Vves-Rubio

Polémico, provocador, pornográfico, incómodo e inconveniente. São apenas alguns dos muitos adjectivos usados para classificar Marcelo Mirisola, o escritor de 50 anos com 18 livros publicados no Brasil e até agora sem edição em Portugal. Para se perceber a decisão de André Jorge, o editor da Cotovia, em publicar agora em simultâneo dois romances de Mirisola — O Azul do Filho Morto, título inspirado em Georges Bataille, e Bangalô —, é preciso juntar a esses adjectivos mais alguns. A obra de Mirisola é de uma vincada rebeldia, levando ao extremo a ideia de transgressão. Moral, sexual, de linguagem, política, religiosa, revelando um raro domínio da língua e uma erudição invulgares, mas sem que nunca se sinta exibicionismo. O excesso é um estilo. Goste-se ou não. E suporte-se melhor ou pior o vernáculo, conceito que o autor prefere ao de palavrão. “Não há palavrão aqui”, refere numa conversa com uma vertigem semelhante à dos seus romances, mas sem a zanga que os comanda. Em Lisboa, na primeira vez que sai do Brasil onde acaba de publicar o seu 18º livro, Marcelo Mirisola diz porque é que o livro é sempre melhor do que o autor, e a obra é feita de muito trabalho braçal até encontrar a tal voz que faz a diferença. A dele é arriscada, assume, e só chegou lá porque, diz, teve a “felicidade de ser muito recusado no início”

Vivia-se o início dos anos noventa no Brasil, ele tinha pouco mais de vinte anos e contos para publicar mas ninguém os queria. “Nos anos 70 houve um boom de óptimos contistas no Brasil e o género ficou desgastado.” Envia contos e pediam-lhe um romance. “Eu era leitor de romance, adoro, sempre quis escrever romance, a minha frustração era não ser um romancista, sendo leitor de Dostoievski, Flaubert, Machadão [Machado de Assis], Céline, Henry Miller. Mas os meus contos tinham uma vida própria e essa originalidade venceu depois de oito anos.” Publicou Fátima Fez os Pés para Mostrar na Choperia em 1998 e logo depois O Herói Devolvido, dois livros de contos a que se seguiu a estria no romance com O Azul do Filho Morto, um livro com pouco enredo, marcado por um rimo vertiginoso, linguagem desbragada e uma iconografia pornográfica que procura o poético. “Ao ler, há a sensação de tão depressa se apanha um susto como vai para o céu”, a descrição é do próprio Marcelo Mirisola que classifica esse livro e o que se seguiu, Bangalô, como “geniais”, resultado de um trabalho comandado pelo inconsciente e pela angústia de querer contar uma história antes que ela fuja, se perca do autor. O estilo, diz ainda Mirisola numa conversa entre o humor o desconcerto e exposição do íntimo, acaba por ser uma necessidade: “Você arruma um jeito de contar”. É uma entrevista com sotaque porque com Marcelo Mirisola não faria sentido de outra forma, com alguns offs, a pedido do autor que revela aqui uma afabilidade e um pudor que os seus livros não indiciam.

PÚBLICO -
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Há nos seus livros uma grande proximidade entre o obsceno e o religioso…
Ah, sim. Isso é engraçado porque eu sou carola.

Carola?
Sim, sou católico de rezar Pai Nosso toda a manhã. A primeira coisa que disse ao André Jorge quando cheguei a Lisboa foi que queria ir a Fátima, e ele arregalou os olhos. O obsceno e o religioso são os dois divinos.

Pode explicar melhor?
O que é uma coisa divina? É uma coisa que transcende, ou que está perto da transcendência, que almeja a transcendência, e o obsceno e o religioso são aí quase siameses. Nos meus livros sou tão obsceno quanto religioso. Veja Santa Teresa d’Ávila! Não é obsceno? Não é divino? Leio Santa Teresa como leio Marquês de Sade. 

E lê George Bataille. Ele está em quase tudo o que escreve.
É, não sei porque é que nunca ninguém me compara com Bataille. Ou melhor, até sei, é porque ninguém lê Bataille. Mas já que estamos a falar de obsceno, também ninguém me compara com Junichiro Tanizaki. Ele é maravilhoso, para mim ele é o Nelson Rodrigues do Japão. Mas são autores pouco lidos, raramente se sai do rame-rame. Outro cara que acho que me influenciou demais foi o Elio Vittorini, o Gente da Sicília [ed. Livros do Brasil], é uma beleza. Ou o Thomas Bernard, já leu aquele romance, Extinção [Relógio D’Água]? É incrível, filho da mãe! E o humor? As pessoas não reconhecem o humor nesses escritores pessimistas. Li O Sobrinho de Wittgenstein [Relógio d’Água] dando risada. É o sentimento semelhante que tenho ao ler Cioran. Também não reconhecem o humor no Kafka, só a gravidade.

Mas falava do obsceno…
Vocês dizem obsceno de uma maneira diferente… dá até mais voluptuosidade ao obsceno. 

Em O Azul do Filho Morto e Bangalô usa a primeira pessoa, o narrador é um escritor também com as iniciais MM, com um registo próximo da memória, muito confessional, marcado pela zanga e com uma linguagem onde o erudito é muito menos visível do que o obsceno. Até que ponto isso o compromete?
A primeira pessoa é terrível. Você fica comprometido com a voz que criou e paga um preço imenso. Tenho alguns contos na terceira pessoa, mas é como se fosse uma terceira na primeira. Acabei de publicar um livro, A Vida Não tem Cura onde volta a primeira pessoa mas não é identificável comigo. É um professor de matemática que dá aulas particulares. Já não é o MM. Sinto que me desliguei desse eu inicial no Bangalô, um livro mais elaborado. Quando publiquei O Azul…algumas pessoas disseram que eu nunca mais iria escrever nada, achavam que eu estava esgotado ali. Aquilo era muito forte. Até eu comecei a achar isso. E depois veio o Bangalô, que acho que é um dos meus melhores livros. O Bangalô só existe porque houve O Azul antes, o livro que aparentemente me teria esgotado. 

E ao dar ênfase ao obsceno corre o risco de tapar o trabalho de linguagem, a erudição, o humor que há na obra?
Completamente. E está a ser muito generosa ao chamar o pornográfico de obsceno. Mas o que posso fazer? Aí é um problema de interpretação de texto. É uma coisa primária, básica. É o mesmo problema quando me confundem com o narrador do livro. Isso é de quem não está habituado a ler a não ser tatebitate. Quando surge uma voz destas tudo fica reduzido à pornografia ao palavrão. É o fim da picada.

Ou seja, não há aqui palavrão gratuito…
Não há palavrão. Deixo o desafio, tente encontrar um palavrão aí e tente substituí-lo por qualquer coisa e veja se consegue dar sentido à situação. Substitua palavrão por uma palavrinha, a palavrinha não vai dar conta do palavrão. Não funciona. Não há gratuitidade por isso não há palavrão. Como o ódio, o lirismo, a memória… são ferramentas de trabalho. Uso essas coisas a meu favor. A linguagem só sacrifica se o leitor não for atento e se deixar levar por isso.

Quando publicou O Azul fizeram-se comparações, escreveu-se que se estava perante um Bukowski.
É. Por exemplo, quando aparece a Sol [personagem feminina de Bangalô] e ele é sodomizado por ela, podia ter acontecido qualquer outra coisa, mas é a partir daí que se vai desenvolver o final. Um amigo perguntou: “precisava acontecer essa aberração?”, porque é que eu não pus antes o cara a levar uma surra na rua. Respondi que precisava porque me incomodava muito a comparação que faziam entre mim e o Bukowski. E falei que o Bukowski jamais iria escrever uma coisa dessas. Pensei que se conseguisse escrever aquilo teria liberdade para fazer o que quisesse.

E teve
Sim, o Bangalô é uma demência. Acho inclusive que o enredo dele é a demência, o narrador é, no mínimo, um louco varrido, mas ao mesmo tempo é cínico, filósofo, um Diógenes, é um Nietzsche, é o protagonista de um livro que, por incrível que pareça, acho que superou o anterior.

Li O Azul como um livro de formação: sexual, religiosa, política, literária…
Isso é muito engraçado. Na época saiu uma resenha falando exactamente sobre isso, mas a dizer que era um romance de deformação. Sexual, política, religiosa… Seria o romance de formação alemão mas ao contrário, desconstruindo tudo. Acho perfeita a definição. Foi uma febre. Desde que comecei não parei. Escrevo um livro atrás do outro. Depois escrevi O Joana a Contragosto [2005]. Em Bangalô houve a elaboração do estilo e no Joana a destruição da voz.

Classificou esses três livros de geniais. 
Acho que são. 

Porque fala em destruição da voz?
O narrador cruel d’O Azul, o cara que passa por cima de todo o mundo, esse monstro é o mesmo monstro de Bangaló; embora tenha levado um correctivo da Sol, continua o mesmo monstro. Ele não tem redenção. Ele é um monstro da primeira à última página e no Joana esse monstro acaba. 

Há afinal redenção?
Ele se entrega a uma mulher, vira um lixo. Mas foi preciso vir uma mulher de verdade. Não era uma projecção das psicopatias, mas uma mulher que aparece e destrói. O autor impiedoso, o cara que está acima do bem e do mal – ou só do mal – é eliminado. Isto aconteceu de 1998 a 2005. No final de 2003, início de 2004 comecei a receber convites para ser cronista e a voz do cronista começou a interferir com a voz do ficcionista. Foi um prejuízo enorme para mim. Em seguida publiquei um livro péssimo, Animais em Extinção.

Porque diz que é péssimo?

Porque além do cronista estar atrapalhando, é outra sintonia, outra coisa. O Carlos Heitor Cony tem 90 anos, foi a vida inteira cronista, é um óptimo romancista e tem uma definição maravilhosa; ele diz que o cronista é um peixinho de aquário, fica brilhando sempre para todo o mundo, e o romancista é o peixe das águas profundas, vai tirar o material ao abissal, à escuridão. No meu caso, um atrapalhou o outro. Mas como eu já dominava a técnica, achei que podia fazer tudo, escrever romances, crónica e quebrei a cara com Animais em Extinção. Por eu confiar de mais em mim escrevi um livro irregular. Eu precisava de um editor na época, e nenhum ia se atrever.

Porquê?
Medo. As pessoas têm medo de mim.

Porquê?
Por causa desta voz e por causa dos meus posicionamentos. As pessoas confundem a voz do narrador com a minha. Eu fico bobo. Medo! Mas não sei se é assim, estou especulando. 

Tem um grande à-vontade com a língua portuguesa, muda-lhe a grafia, adapta palavras… 
Para ser escritor tem de usar a língua até aos limites, ter uma intimidade com o idioma. Não pode ter medo. Uma das coisas que atrapalha muito as pessoas é a gramática, ficamos com medo da língua. Toda a gente pode ter independência de pensamento, mas não se atreve a pensar por causa do idioma. É uma coisa violentíssima. E o português é severo. O que tem de gente vigiando! O maior prazer de quem não tem talento é encontrar o errinho nas coisas dos outros, ficar fiscalizando. São os fiscais de análise sintáctica. É tão medíocre, esse prazer de caçar a transgressão.

Gosta de transgredir?
A transgressão é consequência de toda essa liberdade.

Se há deformação religiosa, sexual, política, também há a deformação da língua.
É. A transgressão é uma consequência lógica de quem tem tanta liberdade. Abusa. Muitas vezes dizem que eu escrevo para chocar. Não. Escrevo livros de adultos e o mínimo que um adulto tem de fazer é transgredir. Não escrevo em função disso, mas é natural que aconteça.

Tem dito que falta transgressão à literatura brasileira actual.
Eles me odeiam.

Porquê?
Porque não chegam onde eu chego. E odeiam porque sou muito tagarela. Falo mais do que devia. Se eu fosse um Raduan Nassar, se fizesse os meus livros e ficasse quieto teria uma estátua em frente da Biblioteca de S. Paulo. Reconheço que atrapalho muito a minha obra e entro em situaçãoes mesquinhas, pequenas.

Porque o faz?
É o meu jeito. Não sou melhor do que ninguém. Acho os meus livros óptimos, muito acima da média, alguns tocam a genialidade, mas quero viver o dia-a-dia, não quero o isolamento. E acho muito chata é a convivência com escritores. É gente carente, querem afago e atenção. Descobri a muito custo. Eu e um dos meus melhores amigos descobrimos que éramos mais amigos do que imaginávamos porque chegámos à conclusão de que eu não gosto do que ele escreve e ele não gosta do que eu escrevo. Isso é raro porque pode matar a amizade. Se você disser a alguém que o livro dele não presta ele vai tomar aquilo como uma coisa pessoal. Mas é possível ter amizade com uma pessoa apesar da profissão. Ser escritor é uma profissão. Não deixamos de ser amigos de um engenheiro por não gostarmos da ponte que ele projectou. Se alguém não gostar do meu livro não o vou odiar por causa disso. Além disso, ninguém é obrigado a amar alguém. Mas os escritores têm essa necessidade. Usam o verbo amar, salvar… Uma das maiores encrencas que arrumei no Brasil foi por conta de um escritor de literatura dita marginal. Ele mora na periferia e deu uma entrevista dizendo que a literatura salvou a vida dele. Eu disse: “cara, o que salvou a tua vida foi a auto-ajuda não foi a literatura”. A literatura não salva nada. Já viu o Dostoiesvski salvar a vida de alguém? Isso virou um papo assistencialista, a ideia de que a literatura tira da marginalidade. Não acredito nisso. É tudo por causa dessa componente de carência. A literatura muda? Sim, talvez, mas é uma irresponsabilidade dizer que salva a vida. Mas é sempre isso, fala da obra de alguém e esse alguém toma a coisa como pessoal.

E como reage quando falam mal da sua obra?
Faço a mesma coisa que eles fazem, mas eu sei o que está acontecendo, tenho consciência disso. Fico possesso, mas sei do que se trata.

Quando o Brasil foi o país tema da Feira do Livro de Paris em 2013, e não o convidaram…
Sabe qual foi o argumento do Manuel da Costa Pinto, o curador? O Mirisola não vai saber se comportar. Ficou com medo que eu não soubesse manusear os talheres. Outra coisa: não existe crítica literária no Brasil. Existem curadores. Se for amigo do curador é amigo do rei. É assim ou não existe como escritor, é boicotado. Não me chamam para a FLIP porque acham que vou falar mal dos donos da festa.

E falaria?
Claro. Mas mesmo assim não podem fingir que não existo e é o que fazem. Sou casca grossa, sou teimoso, tenho carapaça, se fosse outro teria desistido, partido para outra actividade. Eu publico quase todos os anos. 

E em muitos dos livros fala da acomodação da classe média brasileira.
Porque no Brasil as pessoas têm vergonha de ser classe média. Não assumem essa condição. Todos os escritores são classe média, mas querem assumir outra identidade e ou escrevem do ponto de vista do dono do castelo ou do da favela. Não dá! Vira um negócio postiço. Que seria do Nelson Rodrigues se não fosse a classe média? É um tesouro. Os entraves da classe média, a ambição da classe média, isso tudo é um tesouro, material de trabalho riquíssimo. Há uma corrente de pensamento no Brasil que demoniza a classe média e acha que ela é responsável por todas as mazelas sociais. A classe média é muito engraçada, a classe média é patética, tem uma casa de campo e de repente enche-a de imitações de móveis ingleses do século XVIII. Concordo que a classe média é ridícula, mas é um grande material literário. Se não fosse a classe média eu não teria escrito O Azul do Filho Morto, e o Bangalô é uma crítica à classe média, o mundinho dos bangalós, das coisas bem cuidadinhas, a ilusão da qualidade de vida, dos condomínios fechados. É um tesouro.

A classe média de Bangalô é diferente da actual?
Coitada da classe média. Paga impostos, perde emprego, está sem noção, está como esteve sempre. Vai ser sempre classe média. Outra coisa é a questão sexual. O que antes era entrave para a classe média, sexualmente falando, é outra coisa; agora tudo é possível, o sexo está na academia, expõem a genitália, contam a intimidade. Isso é coisa de classe média. O recalque está exposto. É divertido porque é material de trabalho. O lixo sempre foi literatura, a breguice, o vinho mau que se bebe e achando que bom, o não querer misturas. Aproveito tudo. Sou crítico disso, não sou alheio.

Mas não faz o que se chama de literatura de denúncia.
Não. Parece que o Brasil descobriu agora que é racista ou machista. E todo o mundo se engaja na denúncia, veste a camisa, tem de ser de esquerda. Agora todo o mundo sai do armário, é moda, mas sair do cercadinho ideológico? Não sai. O escritor brasileiro parece que está sempre em cima do muro, e quando ensaia sair desse muro vai para um lugar confortável, vai para onde os pares vão. E voltamos a falar de transgressão. A partir do momento em que resolvi não ser advogado e ser escritor, foi para ter liberdade e sair dos cercadinhos.

E tem essa liberdade?
Tenho.

Sente que paga por isso?
Eu devia receber mais. Por enquanto só pago.

Há escritores que aparecem muito nos seus livros. Gostava que me dissesse porquê. Comecemos por John Fante.
É maravilhoso. Era discriminado nos Estados Unidos por ser filho de imigrantes italianos. Ele queria vencer na vida e era muito associado à geração beat que veio depois. Sempre quis fazer parte do esquema. Quando ganhou o primeiro dinheiro com um dos seus livros comprou um fato completo. Ele incorpora o sonho americano e é um dos escritores mais líricos, mais impressionantes que li na minha vida. Sabe contar o fracasso dele, esse ridículo que é o ridículo de classe média. Não teve pudor algum em o assumir. O Fante só podia ter-me influenciado.

Clarice Lispector.
Não tenho afinidade com a Clarice. Ela aparece muito por isso. O Fante é o oposto. Vê como me apaixono a falar dele? Acho que a literatura é isso, é amizade, é o escritor ou escritora a pegar no nosso braço e contar uma história. Nasce uma ligação daí ou não nasce. E com ela não nasce. Não há afinidade nem amizade entre nós. Falo dela para poder fazer esse paralelo.

Adília Lopes.
Foi só um poema, mas aparece nos dois livros. Fiquei impressionado na hora em que me deram um livro dela, mas não sou de ler poesia.

Nelson Rodrigues.
É mais do que amigo, é o meu mestre, professor.

Henry Miller.
Foi o escritor que me fez partir para a acção. Era uma coisa seríssima, com O Trópico de Câncer. Terminei Direito em 1992, e antes já tinha feito Agronomia. A minha família investiu muito em mim, eu era uma promessa, adorava a doutrina, mas quando fui para a vida prática não conseguia fazer uma petição. Tive de comunicar isso à família, demorei cinco anos para o fazer e nesse meio tempo já escrevia. Comecei a ler de verdade, passava a vida na biblioteca da faculdade. Foi onde conheci o Kafka, o Miller… e com o Miller vi que podia viajar, seguir o meu caminho e que se dane. Eu na altura não tinha com quem falar sobre literatura. Fui viver para Santos com o meu avô. Ele investiu em mim para que eu vivesse vida de escritor e ele nunca tinha lido um livro na vida. O Miller era literatura vivida, na primeira pessoa.

Jorge Amado.
É o grande oráculo da literatura brasileira. Sempre foi. Falo dele para sublinhar como o escritor perdeu importância desde então. Já ninguém vai procurar um escritor para saber o que ele pensa. Tornou-se irrelevante. Jorge Amado não era um grande escritor, mas tinha uma relevância, a figura do escritor.

Georges Bataille.
O Bataille é a demência toda. Está dentro do Azul e em todo o lado. Foi uma influência fortíssima. Ele tem um jeito muito simples de contar histórias, traz o feijão e o arroz para a demência. Falo dos romances e não da filosofia. A linguagem dele não tem efeitos especiais. 

O que achou da atribuição do Prémio Camões a Raduan Nassar?
Adoro o Raduan Nassar.