Entrevista

Os arquitectos que puseram os chineses a caminhar no telhado

Wang Shu, primeiro Prémio Pritzker da China, e a mulher Lu Wenyu decidiram salvar a arquitectura chinesa antiga. É por isso que integram o que sobra das demolições nos seus projectos e lutam contra a suburbanização do mundo rural.

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Wang Shu e Lu Wenyu vistos através dos óculos do arquitecto chinês Daniel Rocha
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Casa de Cerâmica, Jinhua, 2006 AFP
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Museu de História de Ningbo, 2008 AFP
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Museu de História de Ningbo, 2008 AFP
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Jardim das Telhas, Veneza, 2010
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Residência Universitária Wa Shan, 2013 AFP
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Residência Universitária Wa Shan, 2013
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Pavilhão na Expo de Xangai, 2010

Quando a cimeira do G20 levar em Setembro os líderes mundiais à cidade de Hangzhou, na China, o Museu Nacional de Fuyang estará pronto há um mês – é pelo menos isso que está previsto no calendário de Wang Shu e Lu Wenyu. O casal de arquitectos chineses esteve esta semana em Lisboa a convite da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa, que este ano organiza a Conferência Internacional EAAE/ARCC e reúne centenas de escolas de arquitectura e centros de investigação da Europa e da América do Norte.

Hangzhou, uma cidade antiga conhecida pelo seu património cultural e natural, é o centro de actuação deste casal que em 2012 viu o seu trabalho reconhecido pela atribuição a Wang Shu do Prémio Pritzker, a distinção mais relevante na área da arquitectura, então entregue pela primeira vez um profissional da República Popular da China. Os dois arquitectos, que nunca tinham estado em Portugal, proferiram na quarta-feira a conferência A possibilidade de co-existência das áreas urbanas e rurais.

Nessa manhã, em entrevista ao PÚBLICO, explicaram que negociaram com os responsáveis de Fuyang fazer o projecto do museu em troca de poderem recuperar uma das milhares de aldeias ameaçadas pelo desenvolvimento urbano desenfreado no país. É este projecto, que passa pela recuperação de técnicas construtivas ancestrais, que estão a apresentar na Bienal de Arquitectura de Veneza. O seu trabalho, dizem, uma mistura de moderno e vernacular, tem ligações à arquitectura portuguesa e a Álvaro Siza, o único arquitecto que escolheram para construir uma obra no campus universitário de Xiangshan – onde desenharam 30 edifícios em redor de uma montanha, e onde Wang Shu é reitor da Escola de Arquitectura da Academia de Arte da China desde 2007.

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Os arquitectos na Faculdade de Arquitectura de Lisboa Daniel Rocha

O nome do atelier desta dupla chinesa, Amateur Architecture, é uma metáfora sobre a importância do artesanato e das tradições culturais na profissão e também uma ironia, uma vez que Wang Shu e Lu Wenyu têm ambos formação em arquitectura e fazem do ensino uma parte importante das suas vidas. É já lendária a pausa de oito anos que Wang Shu fez na sua carreira, na década de 90, para aprender em pleno estaleiro como se constrói, porque é preciso saber o básico, sentir os materiais, para poder imaginar e realizar um projecto.

É Wang Shu que responde quase sempre às nossas perguntas, não sem antes discutir em chinês alguns pormenores com a mulher, entre as muitas gargalhadas de Lu Wenyu.

Na exposição Reporting from the Front, actualmente na Bienal de Arquitectura de Veneza, voltam à conservação do património, uma tema que já tinham abordado em Veneza em 2010 com a instalação Jardim de Telhas, em que juntaram milhares de telhas salvas das demolições de edifícios antigos. Alguma coisa mudou na China neste seis anos em relação à conservação do património?

Sim, há cada vez mais pessoas interessadas na conservação do espaço rural, das aldeias, mas como a China é muito grande essa mudança não é suficiente.

Quando a cidade de Fuyang vos encomendou o museu nacional, contrapropuseram recuperar uma aldeia e só depois fazer o museu. Os arquitectos gostam demasiado de construir?

Talvez por sermos arquitectos amadores [o nome do atelier]  e não profissionais [risos] –, fizemos a escolha de recusar os projectos que não achamos válidos. Os profissionais querem desenhar e não podem dizer que não.

Quais são as técnicas locais que quiseram que as pessoas reaprendessem de maneira a protegê-las e a conservá-las para o futuro?

Queríamos fazer alguma coisa que influenciasse os agricultores a reutilizarem as suas capacidades artesanais tradicionais. Eles actualmente não usam essas técnicas nas áreas rurais, copiam os subúrbios da cidade. Não há arquitectos a trabalhar no campo na China. Fuyang é uma cidade com 200 mil pessoas, uma típica pequena cidade chinesa. A aldeia de Wencun, situada nas montanhas, fica a cem quilómetros. Há uma grande mudança no campo neste momento e está a acontecer muito depressa. Todas as aldeias estão a ser destruídas e reconstruídas como os subúrbios. Queremos que as pessoas percebam que há uma maneira melhor de o fazer.

Que tipo de técnicas usam?

Não é simples. Há várias técnicas. Eles usam tijolo, pedra, taipa, palha... Em Fuyang há uma pedra local (basalto) muito especial. Esta área tem uma legislação anti-sísmica muito rígida e não podemos usar só a pedra, porque não é permitido. Usamos então a pedra e o cimento, misturando a tecnologia moderna com os materiais locais.

Falava da forma como a urbanização afecta a paisagem rural: a taxa de urbanização está a desacelerar na China?

É um tópico muito complexo. Temos um desenvolvimento urbano muito rápido, ou seja, não é desenvolvimento urbano, é desenvolvimento suburbano. Não estamos a construir a cidade mas a construir o subúrbio. Por isso, como nas aldeias é isso que aprendem, estão a transformá-las em novos subúrbios. Mas, se olharmos para as aldeias tradicionais antigas, elas são pequenas cidades: o espaço público, a densidade. Têm bairros muito bonitos, vida de comunidade e uma boa escala. Nós não queremos só manter as técnicas, mas também o ambiente e a forma como as pessoas vivem.

Como é que as autoridades oficiais na China vêem a preservação do património? A maneira de pensar está a mudar?

O problema é a definição de património. Na China, é muito reduzida. Por exemplo, na nossa província [Zhejiang, cuja capital é Hangzhou] temos 40 mil aldeias, mas foram seleccionadas apenas 400 que cabem na definição de património. O que significa que todas as outras aldeias podem ser demolidas. Agora, nos últimos cinco ou seis anos, em conversações com o governo, expandiu-se um bocadinho e talvez as aldeias protegidas subam até mil. Algumas pessoas dizem que isso é um sucesso, porque o governo mudou de opinião, mas ainda temos 39 mil de fora e se elas não estiverem na lista o governo não dá dinheiro para a sua conservação. Com o nosso projecto para Fuyang conseguimos acrescentar mais uma aldeia…

Quando é que se vão considerar satisfeitos?

Queremos aldeias vividas com uma vida normal e não fazer renovação só para turistas. Queremos devolver aos agricultores uma aldeia em que se sintam confortáveis com a tradição, em que possam articular o passado e o futuro. Antes do nosso plano, havia outro com 15 casas que não tinha uma relação com a parte antiga. Agora os habitantes têm 24 casas com o mesmo limite urbano. O sítio já era denso, porque é montanha, havia bastante população e os agricultores tinham pouca terra para a agricultura. Com a nossa proposta, a aldeia manteve-se pequena e com uma alta densidade, continuando-se assim a ter uma sensação de espaço urbano numa aldeia, e essa qualidade é importante.

Em relação ao museu de Álvaro Siza (com Carlos Castanheira) para a Academia de Arte da China, porque é que acharam importante tê-lo a projectar no campus universitário de Xiangshan, que até aí era só feito pelo vosso atelier?

De facto, foi um conselho nosso ao nosso presidente. Nós já tínhamos desenhado quase todo o campus, com 30 edifícios. Há quem defenda que devíamos fazer tudo para ele ser perfeito, mas falámos um com o outro e achámos que este mundo não devia ser todo construído por nós e que se devia abrir. Queríamos um arquitecto internacional, e foi por isso que escolhemos Siza.

E Kengo Kuma, o outro arquitecto que também vai construir no campus?

O Kengo Kuma não fomos nós que escolhemos.

E porque é que escolheram o Siza?

O trabalho dele é muito semelhante ao nosso. Trabalha em Portugal, que é um país pequeno, com uma tradição local muito forte, e consegue fazer uma arquitectura muito moderna. Podemos ver claramente que ele é um arquitecto português, que é local. O resultado de conseguir combinar o local e o global é muito bom.

Acha que as arquitecturas portuguesa e chinesa partilham algumas características, com essa atenção ao vernacular e uma forma de construir ainda muito ligada ao artesanal?

Claro que temos diferenças, porque somos culturas diferentes, mas partilhamos de facto algo. Uma tradição vernacular muito forte. Muitas pessoas não conseguem entender a China, porque dizem simplesmente que a China é muito grande, mas de facto a China é muito parecida com a Europa – tem várias pequenas culturas locais diferentes, mais importantes do que as grandes cidades.

Como é que descreveria o seu processo de trabalho? Estamos a falar de todas estas técnicas tradicionais de construção, de toda esta cultura local, mas no final como é que integram toda essa informação no desenho?

Na verdade fazemos várias experiências como as que mostramos agora em Veneza. Fazemos a preservação das técnicas construtivas localmente, na aldeia, mas partilhamos esse material. Não é um embrulho, uma bolha, porque vamos usar os mesmos materiais no museu, que vai estar pronto em Agosto.

Este trabalho com a conservação é uma espécie de laboratório para a arquitectura?

Sim, a investigação para preservar as técnicas tradicionais é um laboratório para a nossa arquitectura.

O Prémio Pritzker em 2012 mudou alguma coisa na forma trabalharem?

Quase nada.

Não? Nada?

Um bocadinho… Antes do Prémio Pritzker recusávamos muitos projectos, agora é mais difícil fazê-lo porque às vezes as pessoas precisam de ajuda. Mas quero que o meu trabalho mantenha uma qualidade alta, por isso não posso fazer tantas coisas.

Quantos projectos novos estão a aceitar agora?

Dantes aceitávamos um projecto novo por ano, depois as pessoas disseram-nos que tínhamos de aceitar mais. Dissemos então que podíamos aceitar dois... Os projectos levam cinco a seis anos a desenvolver. Durante a construção, vamos à obra muitas vezes e mudamos muita coisa. Leva muito tempo, essa é a razão.

Tomando a Residência Universitária Wa Shan (Montanha de Telhas), que faz parte da terceira parte da intervenção no campus Xiangshan, podem explicar onde está o vosso trabalho agora? Já não são só as telhas na sua realidade tecnológica e expressiva, ou o telhado como uma citação formal da arquitectura chinesa tradicional, mas algo mais. O telhado, com cem metros de comprimento, é algo sobre o qual podemos andar através de passadiços; é uma paisagem…

Não são só metáforas. É uma forma de relacionar as pessoas com essa memória do passado chinês. Acho que essa tradição da paisagem é a coisa mais importante na China. É possível encontrar muitos vestígios dessa tradição, da paisagem urbana até ao campo. Está por todo o lado. Não é uma ficção, [as tradições] do feng shui existem numa grande escala. Estou muito interessado em reconstruir este mundo.  As pessoas falam das técnicas construtivas, mas não é só isso: é o significado cultural, é uma forma de vida em harmonia com a natureza e também com o artificial. Hoje chamamos a isso sustentável.

O que é que procura ao pôr as pessoas a caminhar sobre passadiços no telhado?

Não estamos a copiar uma técnica construtiva, mas a dar às pessoas uma sensação verdadeira. As crianças gostam de brincar nos telhados e depois há o kung fu [risos] e a fantasia de voar até aos telhados... Mas na tradição chinesa caminhar num telhado é uma história verdadeira, e não é só para pessoas especiais. As pessoas são muito inventivas em relação aos telhados. O telhado não é uma coisa muito sólida e muito permanente, é um conceito muito elástico, muito fácil de adaptar se necessitarmos de mais luz ou de ar. Neste último caso, levantamo-lo e o ar circula, mas claro que hoje na China já ninguém percebe isto, porque usam o ar condicionado.

Vocês são professores, qual é a coisa mais importante que alguém que quer ser arquitecto na China deve aprender? Os arquitectos mais novos já pensam de maneira diferente?

Claro, essa foi a razão por que nos tornámos professores, porque pensamos que a geração mais nova é muito importante. A primeira coisa importante: são da China, vivem nesta cultura, têm de a conhecer.

Devem aprender as técnicas tradicionais?

Na nossa escola, há um princípio muito claro, se eles me copiarem a mim, à tradição chinesa ou ocidental, isso significa um zero. Não se pode copiar alguma coisa directamente, pode-se aprender com ela. Mas temos de voltar ao básico, pensar nos materiais, para fazer alguma coisa original. Não há problema se não for perfeito.

E isso é fácil para um estudante?

Não é fácil, mas o Liu Jiankun é muito copiado [gargalhada].