Editorial

A verdadeira relação de confiança

 No seu discurso de abertura do Congresso socialista, António Costa invocou amiúde o lema desta reunião magna para vincar a importância da credibilização dos políticos. O mote “Prometemos, cumprimos” justificou, por isso, que o líder do PS ocupasse grande parte da sua intervenção a enumerar as medidas pelas quais tinha empenhado a sua palavra na campanha das legislativas e que já tinha concretizado nestes primeiros seis meses de governação. Com o “livrinho” vermelho e branco na mão, o programa eleitoral do partido, o secretário-geral do PS recordou ter dividido a Educação e a Ciência e criado o ministério da Cultura, revertido a venda da TAP e interrompido as privatizações nos STCP e no Metro do Porto, devolvido rendimentos às famílias, promovido o regresso do Simplex, reposto “mínimos sociais” como o complemento solidário para idosos, o rendimento social de inserção ou a tarifa social de electricidade, reintroduzido a cláusula de salvaguarda do IMI, acabado com o coeficiente familiar e “criado apoios iguais para todos”, enfim, um rol com muitos itens para tão pouco tempo. Costa também não se mostrou intimidado com as críticas, sobretudo com aquelas que o acusam de se limitar a desfazer medidas do anterior Governo e de não se preocupar com “verdadeiras” reformas estruturais, capazes de influenciar decisivamente o crescimento da economia, a inversão da rota da dívida e a queda do défice. Daí, contra ventos e marés, ter confirmado promessas (ainda) não cumpridas como a total eliminação da sobretaxa de IRS, em Janeiro de 2017; a diminuição do IVA da restauração já a 1 de Julho; e garantido que, “doa a Bruxelas o que doer”, não fará o corte de 600 milhões nas pensões “com que a direita se tinha comprometido” lá fora.

Esta prestação de contas é importante, até pelo que tem sido a já longa e triste história das promessas dos políticos portugueses nas campanhas e o que fazem depois, quando chegam ao poder. Mas essa relação de confiança essencial, que Costa tanto valorizou, não pode limitar-se a uma mera questão de contabilidade. Há toda uma situação e uma envolvência social que impõe razoabilidade e limites. É, por isso, incompreensível que o novo conselho de administração da CGD passe de 14 (sete executivos e sete não executivos) para 19 elementos (7 executivos e 12 não executivos), como se as contas do banco público não fossem deficitárias e a situação do país aconselhasse este tipo de sinais, para dentro e para fora. A ser verdade, esta medida (que só pode ter o aval do Governo) não faz sentido… A não ser que António Costa já tivesse “revogado” a austeridade sem os portugueses se terem dado conta.