O campeão que atirou uma medalha olímpica ao rio

O maior pugilista de todos os tempos e um dos maiores desportistas do século XX perdeu a longa luta contra o Parkinson. A sua história nos ringues começou com um roubo de bicicleta há 62 anos.

Fotogaleria
Ali fez a sua última aparição pública em Abril, num evento para arrecadar fundos para organizações de caridade no Arizona Action Images/MSI
Fotogaleria
Muhammad Ali a treina na Pensilvânia antes do combate com George Foreman, Agosto de 1974 Action Images/MSI
Fotogaleria
Com a mulher, Lonnie, em Setembro de 2008 EDDIE KEOGH/Reuters
Fotogaleria
Em Paris, em Janeiro de 1965 AFP
Fotogaleria
Durante uma cerimónia religiosa em Rabat, Marrocos, em Janeiro de 1998 ABDELHAK SENNA/AFP
Fotogaleria
Durante o combate com George Foreman, em Kinshasa, a 30 de Outubro de 1974 AFP
Fotogaleria
Numa paragem em Paris, antes do combate com George Foreman, em Kinshasa, em Outubro de 1974 AFP
Fotogaleria
Treino para o segundo combate com Leon Spinks, em Nova Orleães, em Agosto de 1978 Action Images/MSI
Fotogaleria
Com as filhas, Laila (à esquerda) e Hana (à direita), num hotel de Londres, em Dezembro de 1978 Action Images/MSI
Fotogaleria
Durante a Clinton Global Initiative, em Setembro de 2008 Spencer Platt/Getty Images/AFP
Fotogaleria
Com o editor alemão Benedikt Taschen durante o lançamento do livro biográfico "Greatest of All Time" na feira do livro de Frankfurt, em Outubro de 2003 OLIVER LANG/AFP
Fotogaleria
Com o promotor de boxe Don King, em Dezembro de 1994 Martin Bernetti/Reuters
Fotogaleria
Durante uma conferência de imprensa a propósito do lançamento do livro "The Greatest", em Março de 1974 AFP
Fotogaleria
Durante uma sessão de treino em Kinshasa, ex-Zaire, antes do combate com George Foreman, em 30 de Outubro de 1974 AFP
Fotogaleria
Chegada a Kinshasa, ex-Zaire, antes do combate com George Foreman, em 30 de Outubro de 1974 AFP
Fotogaleria
Em Londres, antes do combate com Henry Cooper, em Maio de 1966 Action Images/MSI
Fotogaleria
Primeiro dos três combates épicos com Joe Frazier, no Madison Square Garden, em Nova Iorque, em Março de 1971 Action Images/MSI
Fotogaleria
Em Maio de 2011 Win McNamee/Getty Images/AFP
Fotogaleria
Com o treinador Angelo Dundee antes do combate com Ernie Terrell, em Fevereiro de 1967 Action Images/MSI
Fotogaleria
Em Macau, num centro de reformados, em Setembro de 1994 Mike Fiala/AFP

Numa noite chuvosa de 1954, em Louisville, no estado norte-americano do Kentucky, Joe Elsby Martin, um agente policial que dirigia o Ginásio Columbia, foi abordado por um menino franzino de 12 anos no seu centro desportivo, onde era também instrutor de boxe. Com os olhos lacrimejantes e visivelmente perturbado, o pequeno recém-chegado contou-lhe que tinham acabado de lhe roubar a sua nova bicicleta vermelha, um presente de Natal do pai. “O meu nome é Cassius Clay”, apresentou-se, acrescentando, com raiva incontida, que iria chicotear o ladrão quando o encontrasse. Martin deu-lhe um conselho: “É melhor aprenderes a combater antes de começares a lutar.” Assim foi e, dez anos depois, conquistaria o primeiro dos seus três títulos mundiais de pesos pesados, numa caminhada imparável que o eternizaria na história do boxe como o maior de todos os tempos. Eleito “O Desportista do Século XX” pela revista americana Sports Illustrated, em 1999, Cassius Clay ou Muhammad Ali, como quis ser conhecido após a sua conversão ao islamismo, morreu na madrugada deste sábado, com 74 anos, derrubado pela doença de Parkinson.

Titã do pugilismo, guerreiro dos direitos civis, activista anti-guerra, farol de esperança para povos oprimidos, figura política e social, símbolo de coragem, independência e determinação, celebridade global carismática e controversa, eternizada em livros e filmes. Muhammad Ali transcendeu o mundo do desporto e redefiniu o papel de atleta profissional como figura pública. Dentro dos ringues, deslumbrou multidões com os seus dons atléticos e o seu estilo de boxe pouco ortodoxo, mas apaixonado, onde fundia na perfeição velocidade, agilidade e força, associando a tudo a tudo isto uma autoconfiança desconcertante. “Não tenho de ser quem vocês querem que eu seja; sou livre para ser quem quero”, resumiu na manhã seguinte a ter conquistado o primeiro título de pesos-pesados, em 1964.

Cassius Marcellus Clay Jr. nasceu a 17 de Janeiro de 1942, em Louisville. Seu pai, Cassius Marcellus Clay, pintava outdoors, e fora baptizado com o nome do político americano com o mesmo nome, defensor da emancipação dos negros no século XIX. O boxe surgiu na vida do jovem Clay por acidente e, seis meses depois de ter começado a treinar no ginásio de Joe Martin, venceu o seu primeiro combate amador, conquistando, nos anos seguintes, seis “Luvas de Ouro” (nome dado para as competições amadoras de boxe dos EUA) no estado de Kentucky, e dois títulos nacionais.

Fama e racismo

Em 1960, com 18 anos surgiu o primeiro grande sucesso internacional, ao arrebatar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Roma, na categoria de meio-pesado (até 79,4kg), batendo na final o experiente polaco Zbigniew Pietrzykowski. De regresso à sua cidade natal, foi recebido em euforia por uma multidão, mas nem todos ficaram convencidos com o feito do jovem Clay. Na sua autobiografia, publicada em 1975, relata que entrou num restaurante cheio de brancos para comer um hambúrguer, mas o empregado recusou-se a servi-lo por ser negro e de nada adiantou dizer quem era e o que tinha feito.

Decepcionado e revoltado, confessou ter atirado, por impulso, a medalha olímpica ao Rio Ohio, ainda que alguns amigos tenham afirmado, mais tarde, que a insígnia foi simplesmente perdida pelo atleta. Seja como for, já em 1996, durante os Jogos Olímpicos de Atlanta, Clay recebeu uma medalha de substituição. O episódio do restaurante é que não seria esquecido e encorajaria a sua luta pelos direitos dos negros e pela igualdade racial.

Em Outubro de 1960 estreou-se como profissional, encerrando a fase amadora com um impressionante registo de 100 triunfos e cinco derrotas. Quatro anos depois chega a Miami, no estado da Florida, para discutir o mundial, com um currículo de 19 vitórias em outros tantos combates. Pela frente tem o favorito Sonny Liston, detentor do título desde 1962, com um impressionante registo de 28 triunfos consecutivos. Mas, sete assaltos depois, Clay era o novo campeão de pesos-pesados. “Eu sou o maior”, gritou perante a assistência chocada que preenchia o Convention Hall naquele dia 25 de Fevereiro.

Nasce Muhammad Ali

Entre a multidão, encontravam-se os Beatles, que realizavam a sua primeira digressão pelos EUA, e um amigo recente de Cassius Clay: Al Hajj Malik Al-Shabazz, baptizado como Malcolm Little e conhecido por Malcolm X. A história desta relação é relatada no recente livro “Blood Brothers: The Fatal Friendship Between Muhammad Ali and Malcolm X”, de Randy Roberts e Johnny Smith, publicado em 2016. Segundo os autores, Clay e Malcolm (que seria assassinado em Fevereiro de 1965) conheceram-se em Junho de 1962, numa cafeteria, em Detroit, quando o pugilista se preparava para assistir a uma reunião da Nação do Islão, uma organização afro-americana, de cariz político-religioso. Malcolm X passou a ser o seu conselheiro espiritual e político.

Por altura do combate com Liston, já corriam rumores de que Clay se havia juntado ao grupo muçulmano e o pugilista haveria de desfazer todas as dúvidas, poucos dias depois, ao anunciar que se convertera ao islamismo, alterando o seu nome para Muhammad Ali. As suas posições políticas foram gerando cada vez mais polémica, até que, em 1967, depois de se recusar a servir o exército americano na Guerra do Vietname, solicitando o estatuto de objector de consciência, e ter criticado o envio de soldados para este conflito, foi despojado do seu título mundial (recuperado posteriormente, por decisão do Supremo Tribunal dos EUA) e proibido de praticar boxe durante três anos. Estava no seu auge atlético.

O regresso

Terminaria o seu “exílio” dos ringues a 26 de Outubro de 1970, com um rápido KO ao adversário branco Jerry Quarry, iniciando a corrida para a recuperar o campeonato mundial, então na posse de Joe Frazier. Os dois encontraram-se a 8 de Março de 1971, no Madison Square Garden, em Nova Iorque, num confronto apelidado como “combate do século”. O confronto, correspondeu às expectativas, mas a pausa de três anos teve efeitos na condição de Ali, que acabou derrotado, após 15 assaltos, que deixaram visíveis danos físicos nos dois oponentes.

O grande pugilista do Kentucky acabaria por recuperar o título mundial numa altura em que já ninguém o esperaria e num mítico combate, que entraria para a história do desporto com o nome de “Rumble in the Jungle” (ou “Pancada na Selva” numa tradução mais livre), disputado em Kinshasa, na actual República Democrática do Congo, a 30 de Outubro de 1974. Pela frente, tinha o impressionante George Foreman, mais jovem e em excelente forma. Ninguém apostava no favoritismo de Ali, então com 32 anos (menos sete que Foreman), tal como em Miami, 10 anos antes.

Em nítida inferioridade física, Mohammad procurou desgastar o adversário, suportando os ataques de Foreman até ao oitavo assalto quando, nos últimos segundos, contra-ataca ferozmente, com uma fulminante combinação de três golpes, enviando o campeão ao tapete. O título voltava para a posse da Ali, que o iria defender por várias ocasiões, com destaque para o “Thrilla in Manila”, em 1975, onde voltou a defrontar Joe Frazier, naquele que terá sido o seu derradeiro grande combate. O terceiro campeonato mundial já o conquistaria em 1978 e, três anos depois, retirou-se dos ringues definitivamente.

Em 1984, iniciaria aquela que foi a maior luta da sua vida, depois de lhe ser diagnosticada a doença de Parkinson. O “combate” durou 32 anos e Mohammad Ali acabou por sofrer, este sábado o seu primeiro KO. Durante estes anos, usou a sua popularidade para promover as pesquisas de cura para esta enfermidade, ao mesmo tempo que rodou mundo, encontrando-se com líderes políticos, apoiando acções de beneficência e espalhando mensagens de paz e igualdade. Amado ou odiado, permaneceu por meio século como uma das personagens mais carismáticas do planeta e a sua lenda continua a inspirar gerações.