Todas as plantas do mundo, do herbário ao Facebook

Há a velha orquídea e a nova espécie que come insectos. Há descobertas no arquivo do herbário ou através de uma fotografia no Facebook. Também há más notícias: uma em cada cinco espécies de plantas está ameaçada de extinção. Está tudo no relatório Estado das Plantas do Mundo.

A <i>Canavalia reflexiflora</i>
A Canavalia reflexiflora Cristiane Snak
A <i>Canavalia reflexiflora</i>
A Canavalia reflexiflora Cristiane Snak
A <i>Drosera magnifica</i>: planta carnívora encontrada no Brasil
A Drosera magnifica: planta carnívora encontrada no Brasil Paulo Gonella
A <i>Arquita ancashiana</i>
A Arquita ancashiana G.P. Lewis/C.-E. Hughes
A árvore <i>Gilbertiodendron maximum</i>
A árvore Gilbertiodendron maximum Johan van Valkenburg
Kathy Willis, a directora científica dos Reais Jardins Botânicos de Kew
Kathy Willis, a directora científica dos Reais Jardins Botânicos de Kew Jason Baron/BBC
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Não são só bonitas ou feias, grandes ou pequenas, vulgares ou raras. São importantes para o planeta, são usadas na medicina, no ambiente, na comida para pessoas e animais, roupas, biocombustíveis e até para a produção de venenos. Segundo o primeiro relatório anual Estado das Plantas do Mundo divulgado este mês pelos Reais Jardins Botânicos de Kew, perto de Londres, o número estimado de plantas vasculares (com tecidos especializados no transporte de água e seiva) conhecidas é hoje de 391 mil. Todos os anos, em todos os cantos do planeta, são descritas duas mil novas espécies de plantas. Porém, avisam os especialistas, uma em cada cinco está ameaçada de extinção. Agora, é preciso que o planeta se importe com isso.

Mais de 80 cientistas estiveram durante cerca de um ano a preparar a mais completa e actual avaliação sobre a diversidade de plantas no mundo. “Já se fizeram relatórios semelhantes para aves, tartarugas marinha, florestas, cidades, mães, pais, filhos e até antibióticos, mas nunca antes para plantas”, sublinhou Kathy Willis, directora científica dos Reais Jardins Botânicos de Kew, na sessão de lançamento oficial do relatório. O Estado das Plantas do Mundo inclui dados que vão desde a espécie invasora mais antiga no herbário dos jardins de Kew (uma planta da Ásia identificada em 1886 em Puerto Rico) até às mais recentes descobertas feitas em 2015.

Um dos destaques do relatório vai para uma surpreendente descoberta feita no ano passado através da publicação de uma fotografia no Facebook. Trata-se da Drosera magnifica, uma das maiores plantas comedora de insectos conhecidas até agora. Tem 1,5 metros de altura e foi descoberta no topo de uma montanha em Minas Gerais, no Brasil, tornando-se uma das três maiores plantas carnívoras conhecidas. Foi descoberta quando um especialista estava a rever fotografias captadas por um “caçador de orquídeas”.

Outro dos destaques da primeira edição deste relatório é dedicado à maior e mais pesada nova espécie descrita no planeta. Chama-se Gilbertiodendron maximum, é um gigante de cerca de 45 metros de altura, 1,4 metros de diâmetro no tronco, 105 toneladas e que existe no Gabão. A espécie endémica e já considerada ameaçada foi descrita em 2015.

Na versão online do relatório há vários mapas interactivos. É aí que, apesar de não existir nenhuma referência específica no documento, encontramos Portugal e o seu registo de 29 novas espécies descritas desde 2004 até 2015.

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A Aichryson sanatamariensis, que é endémica da ilha de Santa Maria, Açores Paulo Ventura Araújo/www.flora-on.pt

Questionada pelo PÚBLICO, a equipa dos jardins de Kew confirma estes dados avançando com a “identidade” das três novas espécies reportadas em 2015. Duas das novas espécies identificadas em Portugal são da mesma família (Crassulaceae) e o índex internacional das plantas esclarece que uma delas é uma planta endémica da ilha de Santa Maria nos Açores (Aichryson santamariensis) e que a outra tem como local de origem o distrito de Santarém, mais precisamente num ponto alto (399 metros de altitude) da estrada da Serra de Santo António e ficou com o nome de Petrosedum estrelae. Por fim, a terceira descrição feita em Portugal no ano passado é da Limonium maritimum, uma espécie da família das Plumbaginaceae, que segundo o mesmo índex foi detectada na zona da Praia da Veiga, em Viana do Castelo.

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A Petrosedum estrelae encontrada no distrito de Santarém Gideon F. Smith

“Estas são as três novas espécies portuguesas incluídas no relatório de 2015, mas este número pode variar, uma vez que é baseado numa base de dados que tem de ser actualizada manualmente”, esclarece Sara Barrios, uma cientista portuguesa que trabalha há mais de uma década nos jardins de Kew e também foi chamada a participar neste projecto.

A descrição detalhada de plantas do mundo inclui muito mais do que complicados nomes para novas espécies. Um dos principais “capítulos” deste novo e grande livro da flora é o dedicado às principais ameaças que existem hoje para as cerca de 391 mil espécies conhecidas de plantas vasculares. “As estimativas mais precisas indicam que 21% de toda a diversidade de plantas do mundo encontra-se em risco de extinção”, alertam os cientistas dos jardins de Kew. E o inimigo número 1 é o suspeito do costume: o homem.

“Neste relatório estão identificadas as maiores ameaças. A principal é a alteração dos solos e ecossistemas pela mão humana, sobretudo determinada pela agricultura ou mais precisamente pela intensificação da monocultura”, nota Sara Barrios, que também sublinha os efeitos da exploração dos nossos recursos biológicos (como a utilização de floresta para corte de madeira) ou a colheita ilegal de plantas (por exemplo, orquídeas). Estas e outras práticas, alertam os cientistas dos jardins de Kew, ameaçam de extinção uma em cada cinco plantas. Mas há mais perigos identificados.

Com efeitos a mais longo prazo, as plantas do mundo também sofrem com as mudanças climáticas. Entre outras alterações, os cientistas notam, por exemplo, que os ciclos reprodutivos de algumas plantas estão diferentes, nas épocas de floração ou frutificação. Por outro lado, acrescenta Sara Barrios, as alterações do clima também trouxeram novas “pestes e doenças que conseguem actuar todo o ano por causa das temperaturas mais altas”.

Os especialistas dos jardins de Kew citam um estudo do Centro Internacional de Agricultura Tropical, na Colômbia, que concluiu que “até 30% de áreas de cultivo de milho e banana e até 60% das áreas destinadas ao cultivo de feijões poderão ficar inviáveis para as práticas agrícolas até final deste século”. Ao mesmo tempo, há registo também de algumas culturas resistentes. “Há provas que confirmam que tubérculos como a mandioca e o inhame estão entre as culturas do futuro, pois são consideradas resilientes às mudanças climáticas e serão vitais para servir de base a eficientes políticas públicas de planeamento em todo o sector da agricultura na África subsariana”, afirma a directora científica dos jardins de Kew.

Há também o problema das plantas invasoras. “Um grande movimento de espécies invasoras ao redor do mundo está em curso”, diz o relatório, que adianta que nos inventários globais já foram catalogados como invasores cerca de cinco mil taxa, grupos ou famílias de plantas.

Os investigadores dos Kew aproveitam o relatório para fazer um apelo a uma colaboração entre instituições que trabalham com espécies invasoras. O plano, dizem, é fazer uma lista única global “documentando a taxonomia, ameaças, distribuição, controlo e outras informações relevantes”. E concluem: “Uma aplicação mais rigorosa da lei e de mais procedimentos de quarentena poderia minimizar os riscos de problemas no futuro.”

O livro dos jardins de Kew é “só” sobre plantas. “Há muita gente a estudar plantas mas elas são pouco faladas. As pessoas ouvem mais falar nos pandas e gorilas…”, constata Sara Barrios. E tal como sublinha o relatório, as plantas são importantes e, mais do que isso, são úteis. Usando várias fontes de informação, os investigadores concluíram que pelo menos 31 mil plantas têm um uso documentado. A maioria (17.810) das espécies tem algum tipo de uso medicinal. Mas servem para mais coisas. Segundo o relatório, 11.365 espécies servem para vestuário, 8140 para uso ambiental, 5338 como fonte genética, 3649 para comida animal, 1621 para combustíveis, 1382 para usos sociais.

Parentes selvagens

Há ainda cerca de 5538 espécies de plantas que servem para consumo humano. São poucas, nota Sara Barrios. É preciso encontrar mais e apostar também na procura de parentes próximos das culturas tradicionais. “Dependemos de duas ou três espécies que fazem a produção do milho, do centeio e do trigo. Estamos a tentar fazer mais investigação com as chamadas wild crop relatives, espécies que existem nas florestas e que são parentes próximos de culturas tradicionais, como os feijões, a batata ou a banana”, refere a investigadora. Estes “primos selvagens” dos feijões ou de outra coisa qualquer que vivem nas florestas normalmente não são comestíveis mas podem ter genes importantes para resistir a doenças e responder a outras ameaças das culturas tradicionais. É mais um motivo para preservar a biodiversidade. Mais um motivo para dar importância às plantas.

“As plantas representam um dos componentes mais importantes da biodiversidade, a base da maioria dos ecossistemas existentes. Têm ainda o potencial de resolver grande parte dos problemas que existem hoje e de responder a desafios futuros da humanidade”, considera Richard Deverell, director dos Reais Jardins Botânicos de Kew.

No próximo ano, os cientistas vão apresentar novo relatório com os dados actualizados. “O interesse é fazer uma avaliação do estado das plantas ao longo do tempo e criar um barómetro para o perigo de extinção das plantas, como se faz há muito tempo para as aves ou os mamíferos. Há muito mais plantas do que animais ou aves e, por isso, esta é uma tarefa muito mais difícil. Não havia ninguém a fazer isto”, salienta Sara Barrios. Os cientistas esperam ainda conseguir alargar o alcance deste documento que se centra apenas nas plantas vasculares para que passe a incluir também o estado dos briófitos (pequenas plantas sem flor ou semente), das algas e dos fungos no mundo.