O campo da arte como guerra civil

Miguel Wandschneider, responsável pela programação de arte contemporânea da Culturgest desde 2006, anunciou que, por sua decisão, está de saída e só irá assegurar a realização das últimas exposições que já tinha programado para este ano e início de 2017. Desconheço as razões da sua demissão, mas, tendo assistido a algumas das sua intervenções públicas sobre os problemas e anomalias do “campo artístico” em Portugal, não estarei certamente a cair num exercício de sobre-interpretação se tomar este fait-divers como um sintoma. O sistema da arte contemporânea e as suas figuras e instituições (as galerias, os museus, os centros de arte, as bienais) precisam de ser discutidos publicamente, de uma maneira que supere o mero ruído e a maledicência e transforme o mal-estar em algo que dê lugar a um discurso com alguma ambição analítica e teórica. Ora, julgo que nunca foi por falta de comparência do Miguel Wandschneider que as discussões necessárias foram adiadas ou assomaram apenas sob a forma da “denúncia”, em que à evocação de nomes próprios — ou impróprios — não se acrescenta nada que permita pensar com pertinência uma situação que está para além da circunstância das pessoas e dos lugares que elas ocupam. Não houve entre nós, como em França, desde o início dos anos 90, uma “querela da arte contemporânea” e das suas instituições, mas algumas questões levantadas por essa querela podem muito bem ser transferidas para o nosso meio e seria muito útil que fossem discutidas seriamente e não apenas traduzidas à escala da conversa convivial, segundo a lógica das cumplicidades e das inimizades. Teria sido necessário discutir publicamente a proliferação do “contemporâneo” quase como categoria estética, que se manifestou como uma pandemia ou uma religião civil no reino das artes, e que se mostrou muitas vezes equivalente a um contemporâneo cultural, próprio da indústria do entretenimento e da banalidade do presente. O triunfo do termo “contemporâneo”, que de um modo geral se traduziu na passagem do moderno ao contemporâneo, presidiu à transformação dos museus em centros de arte contemporânea. E isso foi um processo de consequências enormes no “campo artístico”: tanto nos modos de exposição, crítica e legitimação (permitindo, por exemplo, uma hipertrofia dos curadores e um definhamento da crítica), como na resposta a estas questões essenciais: o que mostrar? Onde mostrar? Para que público? O que é um facto é que, por cá, tudo ficou por pensar e o campo artístico assemelha-se a uma guerra civil, onde abunda o saber táctico e um saber muito empírico sobre as regras informais do “campo”, sem grande atenção ao horizonte mais largo, a que uma sofisticada sociologia da arte consegue aceder. Para que alguma luz se faça sobre o que se passa no “campo artístico” em Portugal, se não quisermos ficar pelas conversas de maledicência e pelas posições tácticas, temos de recorrer ao que se escreve noutras latitudes: por exemplo, ao livro de um sociólogo italiano chamado Alessandro Dal Lago — Mercanti d’aura — sobre a Bienal de Veneza. E refiro-me a este livro não pela ingenuidade de pensar que um só livro pode fornecer solução para um vasto conjunto de problemas, mas porque uma questão que precisa de ser pensada é precisamente a da bienalização da arte, na medida em que concentra muitas das controvérsias sobre o “contemporâneo”. Por isso, aliás, é que o historiador da arte Bernard Lafargue chamou ao “dispositivo” da bienalização “a síndrome de Veneza”. Veneza é, como sabemos, a mãe de todas as bienais. 

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