Miguel Arcanjo, o central que desarmou duas vezes o destino

Referência do FC Porto da década de 1950 contou com a preciosa ajuda do presidente do clube para se impor no futebol português.

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Há um sem número de futebolistas espalhado por esse mundo fora que poderá agradecer ao presidente do clube um impulso decisivo na carreira, por esta ou aquela razões, mas dificilmente alguém terá tido para com o responsável máximo da direcção uma dívida de gratidão tão profunda como Miguel Arcanjo. Recuamos até à década de 1950 para recuperar o percurso de um dos grandes defesas centrais do FC Porto, numa era em que o viveiro do talento africano parecia inesgotável.

Começou no dia 14 de Julho de 1951 a aventura europeia de Miguel Arcanjo Arsénio de Oliveira. Com 18 anos, subia a bordo do Angola para embarcar rumo a Portugal, mais concretamente ao Porto, com “escala” em Lisboa. Pela frente, o promissor defesa que tinha dado nas vistas no Sporting de Benguela tinha o sonho de uma carreira no futebol português. Para trás, deixava uma família com cinco irmãos, uma mãe dedicada e um pai que inicialmente tentou dissuadi-lo de enveredar pelo desporto. Sem êxito.

O primeiro contacto do então pequeno Miguel com o FC Porto aconteceu numa digressão dos “azuis e brancos” a Angola e ao Congo Belga. Nessa altura, o filho mais novo de Afonso Assis e Maria da Conceição não passava de um jovem adolescente a correr atrás de um autocarro que transportava, mais do que uma equipa de futebol, um sonho longínquo. Quando voltou a cruzar-se com os representantes dos “dragões”, no cais de Alcântara, era já um talento à espera de ser limado.

À chegada, porém, o futuro começou por ficar embaciado. Durante a viagem, desenvolveu uma inflamação no olho esquerdo e foi o seu corpo a pagar o preço. Com dificuldades de visão, e ainda a recuperar da perda de peso significativa que sofreu ao longo do trajecto, deixou muito a desejar nos primeiros treinos. Valeu-lhe, então, Abílio Urgel Horta, o presidente do FC Porto e, acima de tudo, um especialista em oftalmologia.

Foi justamente o dirigente, cujo mandato ficou também marcado pela construção do Estádio das Antas, em 1952, que tomou conta do tratamento de Miguel Arcanjo. A terapia resultou, mas não sem que antes Urgel Horta tenha confessado ao jogador que temera que perdesse a vista. Pareciam afastados os dias cinzentos. O caminho até ao topo, porém, continuava a ter muita curvas.

A sua estreia, ainda pela equipa de reservas, aconteceu no Campo da Constituição, num triunfo sobre o Boavista (4-1), sem que a sua prestação tivesse impressionado. Os dias foram correndo, Arcanjo foi-se adaptando e Alfredo, o principal concorrente na luta por um lugar no eixo da defesa, foi ficando para trás. Um primeiro encontro do angolano contra o Benfica, em 1953, deixou bons indicadores, mas o treinador, Fernando Vaz, mostrou algumas reticências e o seu empréstimo é equacionado.

Sempre com a vida estudantil no horizonte — uma das prioridades desde que desembarcara em Portugal —, a cedência à Académica foi ponderada, mas a chegada ao Estádio das Antas de um novo técnico, Yustrich, revolucionou-lhe a carreira. O brasileiro, muito rigoroso na preparação física dos jogadores, apostou forte em Miguel Arcanjo e não se arrependeu. Durante oito épocas consecutivas, o ágil angolano foi um indiscutível num sector no qual também se destacavam Virgílio e Osvaldo.
Da titularidade no FC Porto — consagrada após a “dobradinha” alcançada em 1955-56 — até à selecção foi um passo.

Cumpriu dois jogos pela equipa B de Portugal e nove pela formação principal, num total de 810 minutos que incluíram a fase de qualificação para o Mundial da Suécia. Mas, pelo meio, não se livrou de outro susto.

Em Janeiro de 1957, após um triunfo claro sobre o Benfica (3-0), recebeu, chocado, a notícia dos médicos, depois de um exame no Centro de Medicina Desportiva: tinha-lhe detectada uma dilatação inesperada no coração. Resultado? Foi imediatamente suspenso da actividade e alvo de exames complementares. Os dias voltavam a ficar ensombrados. A possibilidade de simplesmente deixar de jogar era real.

Para quem já tinha desarmado o destino uma vez, porém, não se punha a hipótese de baixar os braços. Depois de longas reuniões entre os cardiologistas, concluiu-se que o caso era invulgar, sim, mas não anormal. Miguel Arcanjo voltava aos relvados para ser aplaudido durante mais uns anos e encerrar a carreira em 1966, 16 anos depois de ter chegado ao FC Porto, com dois campeonatos e duas Taças de Portugal no bolso.