Internadas com anorexia: têm 14 anos e ficam em média 51 dias no hospital

Hospital D. Estefânia analisou processos de crianças e jovens internados entre 2012 e 2014, com perturbação do comportamento alimentar. Resultados são apresentados num congresso, em Lisboa, que junta dezenas de especialistas em adolescência que vão falar sobre vários temas.

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A taxa de mortalidade da anorexia nervosa atinge os 2% entre os adolescentes Ricardo Silva

Era filha única e uma excelente aluna, apesar de já ter no seu percurso dois episódios de internamento psiquiátrico. Sofria de anorexia nervosa grave, “com risco iminente de morte”, quando foi internada na Unidade de Pedopsiquiatria do Hospital de D. Estefânia, em Lisboa. Ficou três meses. Já teve alta, mas continua até hoje a ser tratada, “com avanços e recuos”, conta a médica Cláudia Cabido, do Serviço de Pedopsiquiatria. O caso da jovem “Z.”, chamemos-lhe assim, é relatado numa das dezenas de comunicações que serão apresentadas no 7.º Congresso Internacional de Psicologia da Criança e do Adolescente, em Lisboa, que arranca nesta quarta-feira. E foi pela gravidade do caso dela que a equipa da Estefânia decidiu mergulhar nos processos de outros doentes.

São essencialmente raparigas (91%), com uma idade média de 14 anos que, em 60% dos casos, têm um diagnóstico de anorexia nervosa do tipo restritivo. É este, em traço grosso, o perfil dos doentes que entre 2012 e 2014 foram internados no Hospital de D. Estefânia, do Centro Hospitalar de Lisboa Central, com uma perturbação do comportamento alimentar.

Ter havido lugar a internamento significa que estamos a falar de crianças e adolescentes com um risco elevado de complicações médicas e/ou psiquiátricas (a anorexia é uma perturbação psiquiátrica complexa, mas, em geral, privilegia-se o tratamento em ambulatório; hospitalização, só em situações particularmente complicadas).

A média de duração do internamento foi de 51 dias — “são internamentos longos”, sublinha Cláudia Cabido, em resposta ao PÚBLICO. E 23,3% dos jovens foram internados mais do que uma vez ao longo do período em análise.

Chama-se Doentes com Perturbação do Comportamento Alimentar internados entre 2012 e 2014 — Casuística da Unidade de Internamento de Pedopsiquiatria do Hospital de D. Estefânia a comunicação que será apresentada na quinta-feira, segundo dia do congresso. É assinada por oito elementos daquele hospital, das áreas da pedopsiquiatria, psicologia e pediatria, entre os quais Cláudia Cabido. “Encontrámos 43 processos clínicos, analisámo-los e seis meses depois fomos fazer um follow-up”, explica.

A boa notícia é que, na altura do “follow-up”, em 95% dos casos os doentes tinham atingido um índice de massa corporal normal. “Não quer dizer que estejam curados, mas é um bom sinal.” Mais: 72% não já não tinham sintomas.

“Cada vez mais precoce”  

A anorexia é uma doença “silenciosa” — entre o início dos sintomas dos doentes internados na Estefânia e o início do acompanhamento passaram-se, em média, 9,5 meses. “E é cada vez mais precoce”, diz Cláudia Cabido.

É também a terceira doença crónica mais comum entre as adolescentes, depois da obesidade e da asma, matando cerca de 2% dos que dela sofrem, “o que é uma taxa de mortalidade importante”. “Morrem de desnutrição, ou porque se suicidam.”

Na lista das perturbações do comportamento alimentar dignosticadas entre os jovens internados na Estefânia há algumas que não “cabem” totalmente em nenhuma definição (25%), nem anorexia, nem bulimia, e, por fim, outros tipos de anorexia, que não do "tipo restritivo", e a bulimia nervosa.

Quem sofre de "anorexia nervosa tipo restritivo", a mais comum das perturbações na amostra analisada, como se viu, reduz a ingestão de alimentos, tem uma perturbação da percepção da imagem, medo de aumentar de peso, mas, ao contrário do que se passa na “anorexia tipo purgativo”, tende a não recorrer ao vómito e a laxantes (é isso que distingue os dois tipos da doença).

Os resultados podem ser devastadores: cerca de metade dos doentes no D. Estefânia (51,2%) tinha na altura do internamento um índice de massa corporal inferior ao percentil 5.

As doentes são em geral alunas excelentes, como era “Z.”. “Têm traços muito obsessivos, são muito preocupadas com o seu desempenho em várias áreas, são muito rigorosas”, diz Cláudia Cabido.

Outra característica comum: muitos dos que o D. Estefânia acompanhou (39%) sofrem, além de perturbação alimentar, uma perturbação do humor (depressão, por exemplo) ou uma perturbação de ansiedade. É por isso que os internamentos neste tipo de patologia exigem equipas multidisciplinares, sublinha Cláudia Cabido, e “são habitualmente longos”. A continuidade no acompanhamento em ambulatório é essencial.

“Z.” esteve, numa fase inicial, separada da família. “Havia naquele caso uma fragilidade muito grande. E uma ausência de consciência dessa fragilidade e isso impressionou-nos muito, porque atingiu características muito impressionantes. Havia um misto de desnutrição, com ausência de crítica em relação à doença e várias tentativas de tratamentos prévios, que não tinham sido bem sucedidos...”

Desde então, “Z.” tem sido sujeita a “intervenções psicoterapêuticas individuais e em grupo e a sessões familiares semanais”. A evolução é lenta.

Congresso com 300 participantes

O 7.º Congresso Internacional de Psicologia da Criança e do Adolescente decorre na Universidade Lusíada, em Lisboa, nestas quarta e quinta-feiras. Inclui largas dezenas de apresentações e tem mais de 300 profissionais inscritos  — psicólogos, assistentes sociais, médicos, enfermeiros, explica ao PÚBLICO a coordenadora, Tânia Gaspar, directora do Instituto de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade Lusíada de Lisboa.

Todos os anos o congresso tem um tema central. Apesar de este ano ser “Risco psicossocial: investigação e boas práticas”, em cima da mesa estarão também muitos outros assuntos — da parentalidade, aos comportamentos aditivos, passando pela motivação dos alunos na escola.

Há vários investigadores a apresentar dados de trabalhos ainda em curso. Por exemplo, Ana Xavier, do Centro do Núcleo de Estudos e Intervenção Cognitivo-Comportamental, da Universidade de Coimbra, falará sobre “comportamentos auto-lesivos não suicidários” num grupo de 786 adolescentes com idades compreendidas entre os 12 e 18 anos de idade.

“Os estudos internacionais apontam para prevalências que vão dos 10% a 40% em amostras da comunidade”, explicou ao PÚBLICO esta oradora do congresso. “No nosso caso, numa amostra de [786] alunos de escolas da zona Centro do país, encontrámos uma prevalência de 20% destes comportamentos auto-lesivos, ou seja, os jovens reportaram ter tido pelo menos uma vez ao longo da vida algum tipo de comportamento auto-lesivo.”

Estes comportamentos, que implicam magoar o próprio corpo, explica, “estão associados a estados dolorosos, à sintomatologia depressiva, ao sentir-se sozinho, a sentimentos de desvalorização, de não se sentir amado”.

Comportamento anti-social “é quase normal”

Já Alice Murteira Morgado, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, mergulhou nos comportamentos anti-sociais, que, na adolescência, são relativamente comuns — agressões, roubos, destruição de objectos, ameaças físicas e verbais, por exemplo. Mas quão comuns? Num grupo de 489 jovens de três escolas do distrito de Coimbra, 27% admitiram que já tinham tido algum tipo de comportamento anti-social.

As agressões físicas, “na maioria dos casos em contexto escolar”, são o comportamento anti-social mais frequente.

“É uma prevalência importante, mas como a literatura nos diz, diversos autores consideram que o comportamento anti-social na adolescência é quase normativo, ou seja, é quase normal, ou expectável que durante a adolescência uma grande quantidade de jovens vá contra as normas sociais”, explica Alice Morgado, que se encontra a estudar este tema com uma bolsa de doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Alguns dos resultados do seu trabalho serão também apresentados no 7.º Congresso Internacional de Psicologia da Criança e do Adolescente.

“É uma etapa em que querem ser adultos, mostrar um estatuto de maturidade que ainda não possuem completamente, valorizam muito o que é valorizado pelos pares, enfim, há muitos aspectos que ajudam a explicar... Por outro lado, o facto de haver 27% de jovens que dizem que já causaram algum tipo de comportamento anti-social, não quer dizer que, quando chegarem à idade adulta, terão esse comportamento. Diz-nos a literatura que só uma minoria, felizmente, irá continuar.”

Alice Morgado diz ainda que certos traços de personalidade e a avaliação que os jovens fazem do seu contexto familiar aparecem associados às atitudes anti-sociais. Por isso, uma das dicas que deixa a quem tem filhos adolescentes é esta: “As famílias devem perceber que há muitos factores que explicam estes comportamentos". E que “com a entrada na idade adulta e o apoio dos pais”, a maioria desses comportamentos simplesmente deixarão de existir.