Marco Gil
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Marco Gil

Os abraços

"Gostei do fundo de um abraço", que do fundo do coração, porque o abraço é o melhor fundo de alguém

São o conforto da alma, o toque mais poderoso do ser humano. Quem nunca precisou de um? Quantos de nós, perdidos no decorrer da vida, olhámos para o lado e não tínhamos ninguém que nos unisse os ombros, naquele entrelaçar de corpos que acalenta o espírito e nos muda o rumo mediante o aperto. Gosto daqueles que nos fazem suspirar, porque naquele instante parece que voltámos a agarrar o mundo. São os abraços, os mais sentidos, aqueles que são dados com tanta força que esquecemos que ainda perduram, aqueles que enxugam lágrimas, os que aquecem o coração mesmo que tenham sido apenas palmadas nas costas entre milésimos de segundos, mas duradouros em sentimento.

 

Podem ser cortesia, se a quisermos mostrar com ênfase, ou solidariedade. São perguntas e, outras vezes, respostas. E o que custa "puxar" de um abraço? Pode ser o "estranho" que passou por nós e teve um dia mau, pode ser a mãe preocupada pela febre do filho, o adepto que perdeu o jogo, ou até o que o ganhou; porque o abraço pode ser cura, alegria ou festejo. Eu gosto mais de os dar do que receber.

 

Sei que no dia que nada tiver me restará o abraço para confortar quem precisa ou para me levantar dos dias agrestes. Os pobres, os ricos, os bons, e até os maus podem não ter nada, mas têm um abraço porque é transversal a todos, é o que nos confere valor quando despojados do resto. E aquele que nos levanta os pés do chão, nos faz flutuar e nos toca o coração?

 

Gosto do intenso, do que damos quando não nos vemos há algum tempo, que é acompanhado de um afecto, e que ainda nos faz dar as mãos num jogo corporal só à medida de quem sente. E o que nos salva quando estamos em apuros? O que nos acalma quando estamos fora de nós? Simpatizo com o que é dado apenas porque sim, porque nos apetece. Tenho em mim que o abraço e o poder que lhe confere substitui palavras, sorrisos e dá lugar a diálogos sentidos pelo aperto e sugados pela alma. O abraço preenche tudo, até na hora de nem substituir nada. Às vezes, penso que pode parar uma guerra.

 

Presença ou ausência

Pode parecer louco, mas até os loucos precisam de abraços. Quantas vezes já olhámos para o lado e alguém precisava de um e nem nos apercebemos? Todos nós já nos cruzámos com um, o da ocasião, com o qual estávamos mesmo a precisar, ou com aquele que demos e nem percebemos a importância que teve no outro. Conhecemos todos a soberania deste acto simples, que pode valer pela vida. E aqueles abraços que substituem uma perda? Esses que confortam da dor e ainda ajudam a perceber que há futuro depois da tragédia: sim, só com um abraço, que preenche a esperança que se foi e abre sorrisos perdidos; sim, só esse abraço.

 

Porque um abraço é presença ou ausência, a nossa e a de tanta gente. E um abraço valioso, o que é oportuno, que conjuga os segundos com a necessidade porque aparece no momento certo. Eu prefiro sempre dizer: "Gostei do fundo de um abraço", que do fundo do coração, porque o abraço é o melhor fundo de alguém. O despercebido e o intencional sabem da mesma maneira e é tão importante dar um abraço a um amigo como a um desconhecido.

 

Troco com facilidade qualquer gesto por um abraço, porque se pensarmos bem é a única forma de unir dois corações quando se juntam os corpos, ficam ali encostados um ao outro, num adir de ombros tão detalhado, que se o virmos com exactidão é do formato do coração e se formos minuciosos: os abraços podem ser a(mar)braços. Eu abraço todos os dias. Hoje, a minha mãe precisou de um abraço, e eu pude percebê-lo sem que ela mo tivesse dito, da mesma forma que depois daquele aperto, lhe senti o sorriso sem lho ter visto...é esse o poder do abraço. Todos devíamos abraçar; o abraço é vida. Se ainda não deste um abraço hoje, olha para o lado...pode ser simples e ter um final feliz.

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