Um delirante Molière a traço grosso

No 170º aniversário do Teatro Nacional D. Maria II, Miguel Loureiro estreia O Impromptu de Versalhes, de Molière, uma peça em que há sempre teatro dentro do teatro.

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O Impromptu de Versalhes coloca em palco a tentativa de o dramaturgo escrever e encenar uma peça em oito dias Filipe Ferreira

Ao assumir a direcção do Teatro Nacional D. Maria II, Tiago Rodrigues não escondeu que uma das ideias fundamentais do seu mandato passaria por reclamar o Nacional enquanto casa de um “grande reportório universal interpelado por linguagens contemporâneas”. Se assim o fez de imediato com a sua revisão de três tragédias gregas no lançamento da temporada, foi também esse desafio que propôs ao actor e encenador Miguel Loureiro para o espectáculo que, simbolicamente, estreia esta quarta-feira, data do 170º aniversário do D. Maria II – inaugura-se também a exposição Teatro em Cartaz e é lançado um número da revista CAIS dedicada ao Teatro Nacional, com direcção editorial de Eunice Muñoz. Em cena até 30 de Abril.

Dos vários textos que Loureiro colocou em cima da mesa, o novo director escolheu O Impromptu de Versalhes, comédia de Molière, de algum modo vertiginosa na mise-en-abyme assumida desta nova versão, em que o teatro se ocupa do teatro e do trabalho dos actores. Impromptu coloca em palco a tentativa de o dramaturgo francês escrever e encenar uma peça em oito dias, a pedido expresso do rei Luís XIV. A peça seria originalmente apresentada por 12 vezes para o monarca e, mais tarde, em oito sessões particulares noutros locais, e fora encomendada pelo rei como resposta de Molière aos seus críticos. “Era um texto de circunstância, uma resposta, e é muito utilizado na História do Teatro porque permite dar um vislumbre do que seria a orgânica interna de uma companhia naquele tempo e das suas relações com o Estado e com o meio artístico de então”, relata o encenador.

Toda essa dimensão é abordada por Miguel Loureiro ao expandir o texto original, juntando-lhe excertos das peças que estiveram então implicadas na criação de Molière. Se o texto respondia aos críticos, os críticos haviam-se manifestado atacando o enorme sucesso de Escola de Mulheres, peça que o dramaturgo estreou em 1662 – e que “afectou muito os nobres ligados à corte por Molière insinuar que são cornudos e impotentes”, enquadra o encenador –, aqui recuperada em alguns excertos. A primeira resposta do autor viria com A Crítica da Escola de Mulheres, em que Molière assume a voz dos seus opositores num falso exercício de autocrítica, demonstra conhecer-lhes as manhas e, nesse mesmo passo, esvazia-lhes o discurso ao parodiá-lo. Claro que mais ataques se seguiriam e quando pensava em baixar a pena e dar a troca de mimos por terminada, eis que o rei lhe encomenda uma nova resposta. “E então ele faz este pequeno divertissement quando vai a Versalhes”, remata Miguel Loureiro.

O seu Impromptu de Versalhes, o seu improviso em Versalhes – uma vez que os actores que ensaiam a peça em palco não tiveram tempo de aprender os seus papéis –, convoca fragmentos dessoutros textos que conduziram a este espectáculo, assim como um arranque em que Miguel Loureiro chama ainda à cena O Paradoxo Sobre o Actor, de Diderot, levando propositadamente o espectador (ou “espetador”, assim o dizem em cena, como se houvesse gente com facas ou farpas no público) a perder-se nas referências. E fá-lo de propósito porque quer afastar justificações dramatúrgicas, preferindo que o público se deixe enlear nestas sucessivas camadas de teatro em que os próprios actores que vemos perante nós são, por vezes, chamados pelo seu próprio nome – há inclusivamente uma pequena interrupção dedicada a uma homenagem à actriz do Nacional Maria Amélia Matta – e não pelos nomes das personagens de Impromptu ou dos críticos que parodiam. O próprio Loureiro, oscilando entre o seu papel de Molière e o de si próprio, cai repetidamente do palco gritando factos avulsos da sua biografia pessoal.

No fundo, Impromptu funciona como um imenso jogo dentro de cena, exagerando a artificialidade da representação, os maneirismos das acentuações dramáticas, carregando tudo num incessante tom de delírio. “Toda a gente gosta muito das palavras subtil e elegância”, comenta Loureiro. “Eu gosto das coisas mais a traço grosso.”