Opinião

Gestão eficiente no combate ao desperdício alimentar

É importante fazer chegar campanhas estruturadas e sólidas às escolas.

Segundo um estudo sobre desperdício alimentar, realizado em Portugal, em 2012, estima-se que se desperdice mais de um milhão de toneladas de alimentos por ano, provenientes da produção primária (332 mil toneladas), da transformação alimentar/indústria (77 mil toneladas), da distribuição (298 mil toneladas) e da gestão alimentar em casa (324 mil toneladas). De facto, todo o processo de produção de alimentos induz a algum impacto ambiental, seja pelos recursos hídricos que necessita, seja pelo consumo de energia ao nível do processamento industrial, ou pela pegada de carbono até chegar ao consumidor. Se os alimentos não forem consumidos, todos estes gastos terão sido em vão. Por outro lado, temos os impactos económicos, que são de fácil de perceção pelos gastos inerentes à produção dos alimentos ou da sua não comercialização. Em termos nutricionais, temos ainda de refletir sobre os nutrientes existentes nos alimentos e que estamos a desperdiçar. Este pensamento é válido para os alimentos que são desperdiçados na sua totalidade, como para aqueles que são desperdiçados apenas em parte (ex.: cascas, talos, folhas), sendo que estes têm também uma riqueza nutricional interessante.

Face aos números apresentados da realidade portuguesa, embora inferiores à média europeia, urge pensar na implementação de medidas que conduzam à reversão desta situação. Cada vez se assiste a mais campanhas de sensibilização para a redução do desperdício alimentar. É comum, por exemplo, assistirmos a campanhas desenvolvidas por empresas de restauração coletiva que alcançam milhares de pessoas, de diferentes idades e atividades, o que permite não só sensibilizar para um uso mais consciente dos alimentos, como também para um consumo mais saudável e sustentável. Também ao nível da distribuição muito se tem feito, com a promoção da venda de fruta de menor calibre, bem como de alimentos perecíveis com prazo de validade a expirar a preços mais reduzidos. Todavia, ainda muito há a fazer nos diversos setores da cadeia de aprovisionamento. É, pois, importante fazer chegar campanhas estruturadas e sólidas às escolas, de forma a sensibilizar as crianças para a redução do desperdício alimentar desde a tenra idade. Neste campo, seria fundamental inserir os nutricionistas neste ensino ao nível das escolas, uma vez que o conceito de desperdício alimentar também se insere num contexto de alimentação saudável.

Encontramo-nos no Ano Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar, pelo que esperamos que muito venha a ser debatido e que boas práticas possam ser implementadas. Neste contexto, a Associação Portuguesa dos Nutricionistas procura ter um papel ativo, pelo que tem vindo a apoiar iniciativas no âmbito do desperdício alimentar e a desenvolver comunicação para o consumidor de forma a transmitir-lhe informações simples mas úteis no âmbito desta temática. Apela-se, assim, a um consumo consciente e saudável de forma a preservarmos o planeta, a economia e a nossa saúde.

Nutricionista, Vice-Presidente da Direcção da Associação Portuguesa dos Nutricionistas