Crítica

Gonçalo Marques nas nuvens

Com o seu segundo disco o trompetista Gonçalo Marques alcança um momento de consagração como compositor.

No final do disco, ouve-se o riso dos músicos. Só poderiam estar contentes com esta música
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No final do disco, ouve-se o riso dos músicos. Só poderiam estar contentes com esta música

O disco arranca com o trompete isolado, desenhando sozinho uma melodia clássica pura. O trompete abre assim o álbum, com toda a luminosidade, sendo depois seguido pelo saxofone, entrando depois a secção rítmica – numa perfeita união. Escuta-se “I can’t begin to tell you”, standard intemporal. Poderia parecer uma embora escolha pouco óbvia para a abertura de um álbum de música original feito em 2016, mas funciona surpreendentemente bem.

De resto, apenas esse e o tema que encerra o disco não saíram da pena de Gonçalo Marques. As restantes sete composições são da autoria original do trompetista que, ao segundo álbum, e confirma a veia de compositor original. A sua qualidade instrumental não deverá ser novidade nem surpresa: Marques vem desenvolvendo um percurso sólido como pedagogo e, em paralelo, tem vindo a trabalhar a sua própria música, sendo uma espécie de figura tutelar na cena jazz lisboeta, presença habitual nos concertos e jam sessions do Café Tati.

No seu disco de estreia na condição de líder, Da Vida e Da Morte dos Animais (edição Tone of a Pitch, 2010), Marques contou com o apoio de um trio robusto – Demian Cabaud no contrabaixo e Bruno Pedroso na bateria – e ainda um convidado muito especial: o saxofonista americano Bill McHenry. Neste segundo registo mantém os parceiros (Cabaud e Pedroso) e a estes junta dois convidados especiais, duas figuras da nova geração do jazz nacional, cada um deles a participar em cerca de metade dos temas: Zé Pedro Coelho no saxofone e André Santos na guitarra eléctrica (após a sua estreia em “Ponto de Partida” esperam-se os mais altos voos).

O trompetista exibe o seu som claro, límpido, e muita imaginação. A dupla rítmica apresenta a consistência habitual, pontuada com pormenores de fino recorte. Os convidados trazem qualidade, com os apontamentos frescos de Coelho no saxofone e Santos na guitarra (a roubar toda a atenção em 4 Notas roubadas). Apesar de coerência estética que atravessa todo o álbum, este é também marcado pela diversidade das composições, desde os tempos lentos que propiciam a emoção (ouça-se Cirrus, por exemplo), até à convulsão intensa e esquizofrénica – pode ouvir-se Cumunolinbus sem medo, que no final acaba tudo bem.

Além da confirmação de um músico e instrumentista fundamental na actual cena jazz portuguesa, este seu segundo disco é um natural momento de consagração para o trompetista Gonçalo Marques, sobretudo na faceta de compositor. O álbum termina de forma inusitada: passados alguns segundos o final do último tema, Mona Lisa, ouve-se o riso dos músicos. Faz sentido, só poderiam estar contentes com esta música.