Posters de José Luís Peixoto, Legendary Tigerman ou Wasted Rita põem Xabregas na parede

Em Junho, a Poster convida novos e velhos habitantes a cruzar-se em cartazes no bairro que é “o novo espaço criativo” de Lisboa. João Pedro Vale/Nuno Alexandre Ferreira, R2 ou Afonso Cruz criam posters para Xabregas.

Trabalho de David Rosado
Trabalho de David Rosado DR
Trabalho de Craig Atkinson
Trabalho de Craig Atkinson
Trabalho de R2
Trabalho de R2
Trabalho de André Beato
Trabalho de André Beato
Armazéns Abel Pereira da Fonseca
Armazéns Abel Pereira da Fonseca Miguel Madeira
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Em Junho, um novo evento cultural de arte pública chega ao bairro de Lisboa que vive um momento de viragem – é um bairro popular pelos seus habitantes de sempre mas cada vez mais pelos novos negócios e áreas criativas que lá se começaram a juntar. Xabregas vai ter Poster, ou 25 grandes cartazes, alguns dos quais inéditos, de artistas plásticos como João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, de escritores como José Luís Peixoto, do músico Legendary Tigerman ou dos arquitectos da Artéria, além de designers como os R2, que querem ser “um intermediário entre os artistas que chegam [ao bairro] e as pessoas que já cá estavam”.

A Poster é definida como “uma mostra de arte e palavra que tem como ambiente nativo a rua” por Bruno Pereira, o responsável pela ideia e pela Departamento, estrutura de produção e curadoria que liga projectos a financiadores. Com apoio da Câmara de Lisboa, a Poster vai espalhar cartazes de 1,85x1,75m por um triângulo do bairro de Xabregas que deverá abranger grande parte da Rua do Açúcar, a praça dos Armazéns Abel Pereira da Fonseca e a rua Fernando Palha. “Uma galeria a céu aberto” numa “zona da cidade um bocado abandonada pelo tempo, com alguma carência de infraestruturas - mas há cada vez mais agentes criativos a adoptarem esta zona para se fixarem”, frisou o responsável na manhã desta quarta-feira, em conferência de imprensa.

O evento terá como área central a exposição de 20 posters de artistas, fotógrafos, designers, escritores e arquitectos convidados e para já foram avançados 16 nomes, alguns dos quais habituados ao formato do poster e ao território do design gráfico, outros a sair das suas zonas de conforto. A designer gráfica e ilustradora Wasted Rita, o ilustrador Craig Atkinson, os artistas plásticos David Rosado, João Pedro Vale / Nuno Alexandre Ferreira, Paulo Brighenti e Rui Toscano e os designers André Beato e R2 (Lizá Ramalho/Artur Rebelo) terão como companhia o músico The Legendary Tigerman (Paulo Furtado), os escritores Afonso Cruz, José Luís Peixoto e Valter Hugo Mãe e os ateliers de arquitectura Artéria, Campos Costa Arquitectos e And-Ré. Por fim, o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado emprestará postumamente obra do fotógrafo Eduardo Harrington Sena para integrar também a Poster.

“Cada um dos convidados vai usar o poster como forma de comunicação”, explica Bruno Pereira, que vê os grandes rectângulos que vão espalhar pelo bairro como um conjunto de “janelas para o exterior”. Aos seus trabalhos vão juntar-se cinco outros, provenientes de uma open call que abrirá ao público na próxima semana, e o total de 25 obras estará nas ruas entre 16 e 19 de Junho também para visitas guiadas – um dos momentos em que a organização espera que haja maior contacto entre novos e velhos habitantes de Xabregas.

Na zona, tocando o Beato e Marvila, entre arquitectura industrial e novecentista de influências várias e de grandes dimensões há teatros, tascas e restaurantes de sempre. E surgem, aqui e ali, ateliers, galerias, a ocasional cervejaria artesanal ou ginásios especializados. Há palacetes, jornais e projectos como o EKA Palace ou a Fábrica do Braço de Prata. O bairro tem um “carisma muito próprio”, descreveu Bruno Pereira, e, precisou ao PÚBLICO, está “naquele momento de viragem” entre o esquecido e o boom – para a vizinhança irá, também em Junho, o NOW, um dos maiores espaços de cowork da Europa, juntando-se a outros do género já existentes no bairro ligados às indústrias criativas.

O projecto do Poster, que é patrocinado por uma empresa ligada aos materiais de escritório, interessou de imediato à Galeria de Arte Urbana (GAU), da Câmara Municipal de Lisboa, explicou Sílvia Câmara, tanto pelo “lastro tão forte da herança do design na cidade de Lisboa” que representa a zona como pela preocupação de “contribuir para a integração local”. Porque, sublinha “os processos de dinamização podem redundar em processos de gentrificação” que acabam por expelir dos bairros que começam a ficar na moda os seus habitantes de sempre.