Tim Hamilton/Flickr
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Megafone

A Ti Celeste

A Ti Celeste pode não saber ler mas é ela que segura o barco quando a família se atira a tempestades revoltas. A Ti Celeste é melhor avó do que eu poderia ter a ousadia de pedir

A Ti Celeste pode não saber ler, mas aprendeu a falar alemão aos 50 anos. A Ti Celeste pode não saber ler mas tem uma sabedoria enciclopédica — é a ela que qualquer pessoa da aldeia recorre para confirmar qualquer pedaço de "trivia" sobre a história mais ou menos recente. A Ti Celeste pode não saber ler mas é ela que segura o barco quando a família se atira a tempestades revoltas. A Ti Celeste é melhor avó do que eu poderia ter a ousadia de pedir.

Há uns meses valentes, o Ti Acácio combatia uma maleita cardíaca daquelas que nos põem de credo na boca, a orar a todos os deuses em que não se acredita. Felizmente, as divindades científicas operaram um milagre e deram um coração novinho ao Ti Acácio, que hoje continua a contar histórias de outros tempos à mesa da sua casa, plantada na aldeia erma conhecida como Ribeira da Isna. A seu lado, com uma força e uma resistência hercúleas, sempre esteve a Ti Celeste. Durante dois meses, era raro o dia em que não se metia num autocarro e percorria oitenta quilómetros para que o amor da sua vida não se sentisse sozinho num quarto frio de hospital.

Hoje, já com o Ti Acácio de regresso a casa, a Ti Celeste está com melhor ar que nunca. Recorda histórias à luz de fotografias a preto e branco, sabe que o seu esparregado é o melhor que a família já provou, ri com gosto a cada ideia trocada, feliz por conseguir, de frequentes tempos a tempos, reunir o núcleo duro da família à mesma mesa. Faz-lhe apenas falta a mãe, que perdeu — imagine-se — há apenas três anos. (Quem de nós poderá alcançar a sorte de ter a mãe viva até aos 74 anos de idade?) Fora isso, a Ti Celeste está no pináculo da sua alegria e apresenta estofo de saúde que faz inveja a qualquer adolescente.

A verdade é esta, e só esta: se houver amor no mundo, esse amor é o dos meus avós, nenhum outro. Um amor que se encontra no meio de uma pergunta mais abrutalhada mas cheia de preocupações — "queres mais sopa?!" —, numa gargalhada partilhada por causa de uma piada carregada de referências agrícolas ou mesmo num arrufo que passa em menos de dez minutos. A Ti Celeste, a paciência em pessoa, é a grande responsável pela sobrevivência desse amor, já que os humores do Ti Acácio nem sempre são os mais fáceis de segurar.

O amor que a Ti Celeste representa não é apenas romântico ou conjugal: a preocupação que tem pelos seus vai muito para além da humanidade que hoje se vê espalhada por este mundo. Com os filhos e o neto, tudo tem de estar nos conformes. Seja a cama quentinha, as toalhas no sítio, um casaco pelas costas, um café na caneca ou boas refeições à mesa — caraças, e se vocês soubessem o quão bem cozinha a Ti Celeste... Mais: apareça um vizinho ou um primo longínquo que não se vê há dezenas de anos, todos terão um copo de vinho e pedaço de pão com queijo à sua espera. E a Ti Celeste não aceita um “não” como resposta: a insistência logo se fará sentir e, minutos depois, o visitante estará de estômago e alma satisfeitos.

Hoje, a Ti Celeste passa a ter 77 anos, uma idade à qual não conto chegar mas que esta mulher torna mais bela que qualquer outro posto de vida. Não pude ficar para almoçar, mas conto que algum aldeão lhe leia estas humildes palavras.