Clinton e Trump seguram vantagens na corrida à Casa Branca

Bernie Sanders conquistou mais delegados do que Hillary Clinton na terça-feira, mas o fosso continua praticamente intransponível. No Partido Republicano, a vitória de Donald Trump no Arizona foi decisiva para a manutenção da sua vantagem.

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Clinton tem o apoio da maioria dos superdelegados AFP

As notícias sobre as nomeações de Donald Trump e Hillary Clinton como candidatos certos à Casa Branca podem ser um exagero, mas não é por isso que deixam de ser manifestamente mais prováveis do que qualquer outro cenário. Apesar de tudo o que se tem dito e escrito sobre Clinton e a sua relação complicada com servidores de emails, e de tudo o que Trump tem dito nos comícios e escrito no Twitter, ambos venceram esta semana uma importante eleição no estado do Arizona e conseguiram manter os rivais a uma distância que se vai tornando cada vez mais intransponível à medida que o tempo passa.

No lado do Partido Republicano, o magnata do imobiliário teve 47,1% no Arizona, um estado que deu ao candidato mais votado todos os seus 58 delegados. Lá atrás ficou o seu único verdadeiro rival nestas primárias, o senador do Texas, Ted Cruz, com 24,7%. E lá no fundo da sala, com apenas 10%, sentou-se o governador do Ohio, John Kasich, que é o único representante do sector mais tradicional do partido nesta corrida a três – aquilo a que os norte-americanos chamam o establishment.

Quem tem medo de Donald Trump, Donald Trump, Donald Trump?

Mas as votações de terça-feira não se limitaram ao Arizona, e Ted Cruz mostrou mais uma vez que consegue bater Donald Trump em estados que fazem as suas escolhas através de caucus (assembleias), onde os eleitores são mais empenhados – ao contrário das simples votações em urna, os caucus exigem que as pessoas se desloquem ao fim da tarde a um local pré-designado, depois de um dia de trabalho, onde primeiro se discute muito e só depois se vota.

O que é o caucus?

Um desses estados, o Utah, a pátria do mormonismo, não podia ter sido feito mais à medida de Ted Cruz, que se apresenta como o único representante da ala ultraconservadora do Partido Republicano. Para melhorar o cenário de Cruz, o Utah atribuía todos os seus 40 delegados ao candidato que obtivesse pelo menos 50% dos votos, e Ted Cruz arrasou: teve 69,2%, contra 16,9% de John Kasich e 14% de Donald Trump.

Já se esperava que o magnata do imobiliário fosse penalizado no Utah – afinal, é um homem que se casou três vezes e que admite excepções à prática do aborto, duas características que não caem bem naquele estado. Com esse eleitorado em vista, um dos vários grupos afectos a diversas correntes do Partido Republicano que querem impedir a nomeação de Donald Trump fez circular uma imagem da sua mulher, Melania Trump, sem roupa, num ensaio para a revista norte-americana GQ. Em resposta a esta provocação, e no estilo que tem feito a delícia dos seus seguidores e provocado a ira de quem deseja vê-lo pelas costas, Donald Trump respondeu no seu palco de eleição – o Twitter: "O mentiroso do Ted Cruz usou uma fotografia da Melania num anúncio. Tem cuidado, Ted mentiroso, ou vou começar a revelar coisas sobre a tua mulher!"

Confusão à vista
Apesar da vitória no Utah, Ted Cruz continua atrás de Donald Trump na contagem de delegados – o magnata do imobiliário tem agora 739 e o senador 465. Com apenas 143 delegados, o governador John Kasich já não tem hipótese de chegar à convenção do partido, em Julho, com a maioria dos delegados.

Como o Partido Republicano abriu a porta ao elefante que tem na sala

No caso do Partido Republicano, o cenário mais provável é que nenhum dos candidatos chegue à convenção com os 1237 delegados necessários para ser apenas aclamado. Se for esse o caso, o partido pode optar por disputar a condição de Trump como candidato com mais delegados, e tentar empurrar para a linha da frente ou Ted Cruz ou um outro nome visto como mais moderado e que não está a concorrer nestas primárias – as regras do partido permitem este cenário, mas Donald Trump já fez saber que espera receber total apoio se chegar à convenção com mais delegados do que qualquer outro candidato, e deu a entender que uma convenção disputada pode provocar uma reacção violenta por parte dos seus apoiantes.

Murros e pontapés nos comícios podem ser apenas um bónus para Donald Trump

Se até lá o partido não se unir à volta de Donald Trump, os delegados à convenção vão votar as vezes que forem necessárias até que seja eleito um candidato. Num dos possíveis cenários, muitos dos delegados que são obrigados a votar numa primeira volta em candidatos que suspenderam a campanha (como Marco Rubio e Jeb Bush), podem votar em Ted Cruz numa segunda volta, já que ficam livres da obrigação de apoiar esses candidatos.

Um deles, Jeb Bush, anunciou esta quarta-feira que apoia Ted Cruz, que descreveu como "um conservador com princípios" e o único que pode "superar a divisão e a vulgaridade" de Donald Trump.

A importância dos superdelegados
No lado do Partido Democrata a situação parece ser um pouco mais simples, com Hillary Clinton a beneficiar do apoio da esmagadora maioria dos mais de 700 superdelegados (delegados que vão à convenção do Partido Democrata, também em Julho, e que têm o direito a votar em quem entenderem – um grupo que não existe no Partido Republicano).

A antiga secretária de Estado mantém a vantagem em relação ao seu único adversário, o senador do Vermont, Bernie Sanders. Com 57,8% no Arizona, Clinton conquistou mais 41 delegados, contra os 39,7% e 26 delegados de Sanders.

Apesar da derrota no Arizona, o senador conseguiu vitórias expressivas nos caucus do Utah e do Idaho, mas é penalizado pelo facto de o Partido Democrata não ter nenhum estado que entregue todos os seus delegados ao vencedor, ao contrário do que acontece no Partido Republicano.

Depois da distribuição proporcional, Bernie Sanders ficou com 41 delegados no Utah e no Idaho e Hillary Clinton conquistou uma dezena – a antiga secretária de Estado tem agora 1214 delegados contra os 911 do senador do Vermont, mas se os superdelegados que já manifestaram o seu sentido de voto forem incluídos no total, Clinton tem 1681 e Sanders 937.

Para chegar à convenção do Partido Democrata com a nomeação assegurada, um dos candidatos tem de somar pelo menos 2383 delegados, o que deixa Hillary Clinton numa posição privilegiada – para além do apoio dos superdelegados, até pode perder muitos dos estados que restam, já que os delegados são atribuídos de forma proporcional.

As próximas primárias no Partido Democrata estão marcadas para sábado, no Alasca (16 delegados), Washington (101 delegados) e Havai (25 delegados). Os candidatos do Partido Republicano só voltam a ser avaliados no dia 5 de Abril, no Wisconsin – um estado onde Donald Trump tem liderado as sondagens e que atribuirá todos os seus 42 delegados ao candidato mais votado.