Francois Lenoir/Reuters
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Megafone

“Je suis sick of this shit”

Estamos todos fartos desta merda, sim, mas a impotência não pode dar lugar a uma acção desgovernada, a um ódio sem critério ou a um ataque a qualquer aparente ameaça

Socorro: tenho o "feed" de notícias cheio de xenófobos. E, por acaso, nem me estou a referir a ideologias políticas, mas apenas a ódios raciais e lugares-comuns sobre o quão perigosos são os homens que acreditam numa determinada divindade ou que provêm de determinada região do globo. Infelizmente, não sou só eu que vejo pessoas deste calibre por aí. Nuno Markl disse-o ainda há pouco na sua página de Facebook: “para além do rasto de morte e sangue e medo, outra coisa terrível que os terroristas conseguem é que comecem a aparecer cada vez mais comentários no Facebook a dizer que, se calhar, afinal, com o Donald Trump é que isto vai ao sítio”. (Olha quem: o senhor Trump é outro desses fascistas ignorantes, que pretende demonstrar um ponto de vista pouquíssimo informado com um evento nefasto para dezenas de famílias). Minutos antes, o humorista Rui Cruz já havia dito coisa semelhante sobre estes xenófobos de primeira apanha, “a maior vitória do terrorismo não são as mortes, é o crescimento de ideologias ditatoriais, xenófobas e bélicas e o aparecimento de Trumps em cada esquina”.

Se mais provas fossem precisas, aí as temos: a internet está cheia de baratas dactilógrafas, capazes de ideias atrozes legitimadas por um atentado terrorista. Mais um atentado, desta vez em Bruxelas, e ei-los: os fracos de espírito deixam-se embarcar nas ideologias do ódio e aí vão eles, destravados, a dizer disparates estrada abaixo, defendendo alegremente que uma guerra é que resolvia a calamidade dos homens-bomba que nos invadem o quintal. Estas alturas fazem-me sempre pensar num "sketch" brilhante dos Gato Fedorento, em que o Gajo de Alfama dizia que os “amaricanos deviam d’amandar bombas que matassem pelo cheiro a caril”. Porque, na verdade, é o que esta gente advoga: que tudo o que é muçulmano tudo merece para ser abatido, que as portas do continente deviam ser fechadas e outros humanos deixados para morrer às mãos dos verdadeiros terroristas. Há até um fascista com cujos "posts" me divirto diariamente, chamemos-lhe Roberto Chamusca, que tem passado as últimas horas a doutrinar outros ignorantes de que a culpa, bem vistas as coisas, é dos refugiados sírios. Pois bem, meu querido, trocaria de bom grado mil refugiados por si, numa negociação saudável e cheia de vantagens para o nosso país. No entanto, temo bem que a Síria não aceitasse tamanha hecatombe.

Em simultâneo, pessoas de bom senso partilham aos magotes uma variante da ilustração que, há pouco mais de um ano, se fez do “Je Suis Charlie”. Hoje, os dizeres gritam “Je Suis Sick of This Shit”, isto é, estou farto desta merda, em tradução de livre. A frase é perigosa por ser uma faca de dois gumes: se, por um lado, atira espinhos às mãos dos nossos governantes, que parecem impotentes perante a ameaça terrorista, também é verdade que incita a um ódio e uma desorientação capazes de se tornar numa bomba maior do que aquelas que explodiram esta manhã.

Estamos todos fartos desta merda, sim, mas a impotência não pode dar lugar a uma acção desgovernada, a um ódio sem critério ou a um ataque a qualquer aparente ameaça. Estamos fartos desta merda, sim, estamos fartos de ter de educar as pessoas para a cooperação e não para a corrida às armas. Os ignorantes ainda não compreenderam que o terrorismo se faz deste tipo de retórica: um combate ao “outro” porque “nós” é que somos os bons da fita. Combater terrorismo com terrorismo, isso sim, é que seria uma merda. Como se tem visto, aliás. Por isso mesmo, não podemos embarcar em vontades bélicas nem em anseios fascizóides de fechar portas indiscriminadamente. Se queremos ser melhores que os terroristas, sejamos gente.

Neste momento, podemos não sabemos o que fazer, mas pelo menos deveríamos saber o que não fazer.