Bethany Legg/Pixabay
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Megafone

As forças que nos impelem ao movimento

Se dermos o tempo suficiente às ideias, perceberemos que quaisquer eventos esmagadores, gigantescos, sejam nefastos ou milagrosos, trazem à ribalta aquilo que o humano tem de mais profundo

Uma das razões pelas quais decidi tatuar um ponto de interrogação no braço direito é a minha constante obsessão com as motivações por detrás de toda e qualquer decisão (e consequente acção) que tome na vida. Porquê?, porquê?, porquê? Chega a ser doentio. Especialmente por não existirem respostas fidedignas e exactas: cada momento oferece uma possibilidade, cada racionalização pode oferecer um outro “insight” sobre aquilo que, na realidade, é.

Não creio que seja o único a pensar deste modo — longe de mim tamanha presunção —, mas o constante silêncio e a batalha para não demonstrarmos as nossas fraquezas e constantes dúvidas sobre nós mesmos fazem brotar sentimentos deste género. Curiosamente, ou não, um livro recente pôs-me a pensar de novo nos porquês, desta feita sobre os porquês de toda a gente, os porquês humanos que nos trouxeram até aqui e que nos tornam diferentes de ontem e de amanhã. Willie Thompson, no seu "Trabalho, Sexo e Poder", recentemente traduzido para português pela Temas e Debates, faz nascer as perguntas — e, felizmente, algumas respostas.

Na verdade, e se dermos o tempo suficiente às ideias, perceberemos que quaisquer eventos esmagadores, gigantescos, sejam nefastos ou milagrosos, trazem à ribalta aquilo que o humano tem de mais profundo. As emoções de sempre, que são já clichés: medo, amor, desejo (sexual e não só), ambição, ódio, alegria, melancolia, e outras que tais. E isto serve da mesma forma para a guerra do Peloponeso ou para os atentados desta terça-feira, 22 de Março, em Bruxelas.

Devíamos trabalhar melhor os nossos porquês, cansá-los até ficarem exaustos, para que, pelo menos, pudéssemos saber melhor o que queremos de nós mesmos enquanto bicharada humana. E deveríamos fazê-lo em qualquer "timing" relativo à acção: antes, durante e depois; porque vou fazer?, porque estou a fazer?, porque fiz?, antecipando assim determinados erros e prevendo umas quantas vitórias. Porque, como bem temos vindo a aprender a cada dia e a cada milénio, não temos assim tanto de diferente em relação aos que nos precederam na vida neste planeta. Ainda assim, e apesar de tanta sabedoria junta, a epifania não foi ainda achada: o que raio nos torna gente?

Não consigo saber também ao certo o motivo do impulso para esta fixação — de novo, porquê?, porquê?, porquê? Sei, contudo, que é um auxílio incrível na tomada de decisões futuras, no discernimento de se perceber por que se faz aquilo em detrimento disto. Mas esta conclusão também pode ser fruto do tal "timing". Amanhã talvez tenha encontrado um novo (e melhor) motivo. Por hoje, fico-me por este.

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