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Megafone

Eu tenho uma cinturinha A3, e tu?

Jovens na China pegam numa folha de papel A4 e colocam-na, na vertical, em frente ao umbigo, sendo o objectivo desde novíssimo desafio das redes sociais partilhar um post com a imagem e a legenda: "Eu tenho uma cintura A4"

Não, eu não tenho uma cinturinha A4. São sete da manhã de sábado e cá em casa ainda está tudo a dormir pelo que, a salvo e sem que ninguém me veja, pespego-me diante do espelho com a minha própria folha A4 ao alto diante do umbigo. Nem pensar! Coloco a folha A4 na horizontal... também não! Humilhado, partilho a minha fotografia nas redes sociais enquanto os comentários caem em catadupa, “Talvez para a próxima“, “Que vergonha“, seguidos de um sem número de “emoticons“ tristonhos e polegares a apontar para baixo.

Oh não, falhei o desafio da cinturinha A4 agora que atinjo a ternura dos 40! E então, qual é o drama? O drama começa no Oriente, mais precisamente na China, e ameaça chegar rapidamente ao Ocidente, onde nos últimos dias jovens — maioritariamente adolescentes — pegam numa folha de papel A4 e colocam-na, na vertical, em frente ao umbigo, sendo o objectivo desde novíssimo desafio das redes sociais partilhar um post com a imagem e a legenda: "Eu tenho uma cintura A4".

A4, entenda-se, são 21 centímetros de largo, nem mais nem menos, sendo 21 o número mágico contra o qual jovens rapazes e raparigas arriscam-se agora, e um pouco por todo o mundo, a medir a auto-estima e aceitação social, com danos irreparáveis para a sua saúde física e mental através de mais um infeliz exemplo da pressão de grupo no mundo das redes sociais.

Portanto, meus amigos, fiquem já a saber: não, eu não tenho uma cinturinha A4, não quero ter uma cinturinha A4 e tenho raiva de quem tem. E sim, já tive uma cinturinha A4, e menos, até atingir os dezasseis, dezassete anos, e depois cresci, pela ordem natural das coisas. E não, não quero voltar a ter uma cinturinha A4, talvez porque o meu arquétipo de beleza não é definido por vós, mas por mim mesmo e pela minha mulher, a qual não vai por certo deixar-me com as malas à porta só porque eu não tenho uma cinturinha A4!

E depois, onde é que ela ia agarrar, o que seria de mim sem as “love handles“, as pegas do amor, aqui de lado na minha barriguinha? Antes pelo contrário, no dia em que me lembrar de ter uma cinturinha A4, aí sim, malas à porta e fechadura trocada, mais um bilhete só de ida e uma bata bem bonita no hospital. Vamos tentar outra vez, desta feita com uma folha A3. Agora sim! Tenho uma cinturinha A3, e tu?