As batatas fritas já não constam da ementa escolar na Culatra

O concurso para eleger o “Hino da Fruta” não é só música. O pacote de fritas, que motivava corridas ao mini-mercado, no intervalo das aulas, foi substituído pelos morangos (sem açúcar).

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Rui Gaudêncio

Aproxima-se a hora do intervalo das aulas vem aí o lanche, soltam-se as vozes e os apetites. Na escola básica da ilha da Culatra (Ria Formosa, no Algarve) há fruta à disposição dos alunos para quase todos os desejos. “Gosto de fruta, mas às vezes não me apetece”, diz Luana, de 9 anos, ainda não totalmente rendida aos benefícios de uma alimentação saudável. No mini-mercado, situado nas proximidades, os pacotes de batata frita continuam a ser uma tentação. Mudar de hábitos alimentares, nestas circunstâncias, não parece ser fácil. Esta foi uma das escolas que participou no concurso “Heróis da Fruta - Lanche Escolar Saudável”, uma iniciativa que conta este ano com o envolvimento de 438 estabelecimentos de ensino.

A Culatra encontra-se na lista das 80 escolas finalistas para a votação final, na corrida para a eleição dos quatro “hinos” vencedores do concurso nacional que terminou a 10 de Março. O resultado da iniciativa, promovida pela Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil (APCOI), será divulgado no final do mês. Para já, a comunidade escolar ganhou o gosto pela comida saudável. Até há cerca de seis meses, quando chegava ao intervalo das aulas, recorda a coordenadora da escola, Anabela Lopes, “os alunos iam a correr comprar batatas fritas”. Com à adesão a esta iniciativa, diz, “as coisas mudaram – as batatas fritas foram substituídas pela fruta”.

Neste pequeno território, com cerca de mil habitantes, não existem árvores de fruto nem hortas. O solo, pobre em nutrientes, não é bom para as práticas agrícolas. Porém, a dinâmica criada à volta da criação do “hino” virou o interesse escolar para as coisas da terra. “Já plantamos salsa e coentros e vamos, também, ter morangos”, diz Anabela Lopes, mostrando o canteiro da “hortinha”, arruinada pelo mau tempo. “Veio uma forte chuvada, destruiu-nos as culturas”, justifica. A colega, Patrícia Teixeira destaca, por outro lado, o espírito comunitário da localidade. “Os pais dos alunos trouxeram garrafas de plástico, com terra, e as plantas estão a crescer dentro de casa, em fase experimental”. Agora, com a chegada da Primavera, professores e alunos preparam-se para voltar a meter as mãos na terra.

A iniciativa, a decorrer em paralelo com o concurso “Hino da Fruta”, acabou por estimular os alunos para alargarem os horizontes do conhecimento. “A vida aqui segue ao ritmo das marés”, diz a responsável pela escola, lembrando a importância da apanha do marisco na sustentabilidade económica do aglomerado. Do lado oposto à alegria das crianças, a pular e a saltar a cada instante, encontra-se a insularidade que se faz sentir a vários níveis. Anabela Lopes dá um exemplo. “Por vezes não há internet, temos de fazer omeletes sem ovos”, desabafa.

Na sala de aula, as crianças estão ansiosas pela hora do lanche, que irá acontecer dentro de alguns minutos. Patrícia Teixeira faz um último desafio à turma: “Vamos para a ilha da fruta”. Numa cartolina, onde se encontra desenhada a ilha da Culatra, os alunos começam a “plantação” virtual. “Eu gosto de fruta mas como primeiro as bolachas”, diz Luana. As outras alunas olham-na com ar de reprovação por surgir como voz dissonante do grupo. “Deixem-me falar”, pede, procurando dar uma explicação, que acabou por não sair. “Estamos a fazer grandes progressos no consumo da fruta desde que nos envolvemos nesta iniciativa”, remata a professora.       

A realização do vídeo “hino da fruta”, submetido a concurso, não serviu só para mostrar as belezas da ilha. Nas imagens, as gaivotas estão por todo o lado agitando as asas da imaginação de quem sonha com um lugar único, em plena ria Formosa. Angélica, de nove anos, confidencia: “Durante os últimos meses, só não comi fruta uma ou duas vezes”. Além das peças que lhe fornece a escola, prossegue, às vezes leva bananas de casa. No que toca a sabores, Lívia confessa que tem um fraquinho pelos morangos “mas as tangerinas são, igualmente, muito boas”. Ao fim e ao cabo, o segredo do paladar parece estar na escolha da fruta da época.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda o consumo diário de pelo menos três peças de fruta. No entanto, diz a Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil, as crianças “estão cada vez mais relutantes ao consumo diário de fruta”. De acordo com os resultados do estudo COSI (Sistema Europeu de Vigilância Nutricional Infantil) de 2008, realizado em Portugal pela Instituto Nacional de Saúde (INS), “apenas 2% das crianças portuguesas até aos 10 anos ingere fruta fresca diariamente e mais de 90% consome fast-food, snacks e bebidas açucaradas pelo menos quatro vezes por semana”.

A nutricionista Teresa Sancho, da Administração Regional de Saúde do Algarve (ARS) recorda que a legislação proíbe a instalação de estabelecimentos de venda destes produtos num raio de 300 metros da escola, mas a norma não se aplica aos que já existem. Na escola Tomás Cabreira, em Faro, sublinha, basta atravessar as passadeiras para encontrar a realidade do quotidiano – a refeição fácil e calórica, ao alcance de um botão.

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