Diogo Miranda é moda e é vestível

Aos 28 anos, é um dos designers de moda portugueses com mais rápida evolução. O volume de negócios aumentou 50 por cento, crescendo sobretudo no mercado internacional.

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Olhares discretos ou descaramento para pedidos de selfies. O público do Portugal Fashion conhece Diogo Miranda, o criador que desenha roupas para mulheres contemporâneas que gostam de cinturas marcadas e de acentuar a sua feminilidade com vestidos de noite ou casacos de mangas volumosas em tecidos ricos e linhas simples. Estreou-se no Programa Aliança do evento há nove anos e hoje é um dos nomes que mais público, imprensa e compradores atrai aos seus desfiles. Diz-se tímido e põe um gorro preto à entrada da Alfândega do Porto para não o reconhecerem, mas acaba por não recusar fotografias – em Paris, onde apresenta há três estações, está em terreno por desbravar; no Porto está em casa.

Sorri quando fala da criação, mostra frustração quando fala do mercado português e da falta de cultura de moda no país. Ao longo de uma conversa num café no centro do Porto, Diogo Miranda admite que é “lá fora” que terá mais oportunidades. Os portugueses “valorizam o trabalho mas não compram: é aquela situação ‘o teu vestido custa 500 euros, mas o do Valentino custa 520, vou comprar Valentino’”, critica. No sentido inverso, já teve buyers a torcer o nariz depois de dizer que está sediado em Portugal.

O Portugal Fashion abriu-lhe portas depois de se formar em Design de Moda na escola profissional Cenatex de Guimarães e de uma incursão numa fábrica têxtil em Fafe, onde trabalhou com as colecções de mulher da Zara Woman e da Massimo Dutti durante dois anos. O evento levou-o a Paris, onde teve um showroom um ano e criou uma rede de contactos – um desfile em Paris é precedido por castings e reuniões, mas também cocktails e festas que geram essa teia, como a da Dolce&Gabbana de há semanas. “É mesmo muito importante. Estou na festa, apresentam-me a X, depois a Z, depois a Y. E depois acabam por ir ao desfile no dia seguinte. Muitas das coisas positivas que me aconteceram são resultado de situações assim”, reforça.

Nascido em Felgueiras, é lá que tem a loja que funciona também como atelier e escritório. Com o crescimento da empresa, sair de Portugal e instalar-se numa capital de moda como Paris ou Nova Iorque é uma meta para os próximos cinco anos, mas a produção continuará em solo nacional. “Não preciso de estar em Felgueiras, mas a coisa está com um tamanho tão grande neste momento que não dá para pegar na mochila e ir. Já somos dez no atelier. Há pessoas que dependem de mim no final do mês”, diz.

Não tem referências actuais na área da moda. Gosta dos Proenza Schouler, do erotismo que Tom Ford consegue transmitir. A nível nacional, refere Luís Buchinho ou Miguel Vieira, mas também quem o rodeia, como influências para o seu trabalho. Elogia as silhuetas dos anos 1950 ou 1980 – “gosto sempre de marcar a cintura, mesmo num vestido oversize; por mais que brinque com as formas, a cintura dá um certo poder à mulher”, frisa. A arquitectura faz parte do ADN da sua marca: já se inspirou em Oscar Niemeyer, Luis Barragán ou Josef Hoffmann. “É mais forte do que eu”, ri-se.

A quatro horas de apresentar a sua colecção no 38.º Portugal Fashion, na sexta-feira, Diogo Miranda entra na sala dos bastidores de mãos nos bolsos e postura relaxada. Os fittings começam em breve e só serão feitos pequenos ajustes. A modelo Joana Castro é uma das primeiras a chegar. Momentos depois abraça o criador, com lágrimas – vai abrir o desfile, uma honra para uma modelo. “Já trabalho com ele há algum tempo e acredito que se destaca do restante panorama. Vemos uma peça pendurada e sabemos logo que é Diogo Miranda”, atesta ao PÚBLICO enquanto outra modelo desfila para receber o aval e o sorriso do criador.

Daqui a 20 anos talvez não seja criador de moda. “Não me imagino a fazer isto a vida toda. É cansativo, é muita pressão. É esgotante estar sempre na expectativa” da crítica especializada. Também os ciclos rápidos da indústria competitiva contribuem para essa sensação: “Não tenho férias há três colecções, acabo uma e começo logo outra. Estou a ficar sem cabelo por causa do stress e sinto-me muito mais cansado. Perdes mesmo anos de vida”, desabafa. Acabou de apresentar Inverno mas já está focado no Verão de 2017.

Os únicos sinais de tensão no Porto surgem à entrada da passerelle. Olha a fila de modelos, verifica que a gola de pêlo de um casaco preto está direita, que o cinto fino tem o nó idealizado, compõe a alça de um dos vestidos longos – são cinco e não foram apresentados em Paris; são o que mais vende em Portugal, onde as clientes não procuram peças para o dia-a-dia mas sim para casamentos ou festas. A música começa e o riso é substituído pela rigidez, que só se altera para estalar os dedos a pedir celeridade às modelos na mudança de roupa.

O azul de uma cadeira do designer e arquitecto Josef Hoffmann que encontrou durante a busca para decorar a sua casa está reinventado em camisas leves, há slip dresses ondulados pelo corpo das modelos que correm para mudar de roupa e voltam à sala de desfiles. Uma torce o pé, apesar dos elogios ao conforto dos sapatos (uma colaboração com a Zilian). No fim, os aplausos e o alívio no rosto.

A influência de quem veste
A marca Diogo Miranda consolidou-se no último ano, entre apresentações paralelas à semana de pronto-a-vestir de Paris e o showroom permanente em Nova Iorque. A sua presença na imprensa é mais forte – define com o gabinete de imprensa onde quer estar e quem quer vestir entre as celebridades portuguesas.

Para dar resposta ao aumento das encomendas, começou a trabalhar com fábricas. “Nunca pensei que ia ter tanto trabalho que não teria capacidade de fazer tudo”, reconhece, elogiando o seu braço-direito, Helena Pereira, que trata da parte comercial e lhe mantém os pés assentes na terra durante o brainstorming de um início de colecção – nos bastidores, ajeita-lhe o casaco para as entrevistas e dá um parecer final sobre as provas das roupas das modelos.

Depois vieram as exportações e feiras internacionais. Começou também a produzir colecções intermédias (Pre-Fall e Resort) para ser visto como um criador internacional, e agora são aquelas que mais lucro lhe dão. “São intemporais, não precisam de uma linha tão rígida como a colecção principal, têm preços mais apelativos”.

Já não se revê na sua primeira colecção, Space Exploration, de metalizados, preto e branco. Evoluiu – a sua mulher cresceu. “Não faz sentido perguntarem constantemente que mulher é esta. É sempre a mesma e vai crescendo comigo de colecção para colecção”, diz.

O seu trabalho adaptou-se às circunstâncias actuais – quanto mais vestível for a colecção, melhor. “Gosto de fazer coisas que as pessoas possam usar, fazer roupa só para a passerelle, só para o espectáculo, para mim não funciona”, continua, recordando um colete em pele de crocodilo e outro de plumas que nunca vendeu, mas que foi usado em editoriais de revistas de moda. No fim de cada estação, um balanço: o que correu melhor a nível de vendas repete-se na estação seguinte.

Há um ano e meio, Diogo Miranda teve o primeiro contacto com o influente mundo dos blogues de moda – a brasileira Helena Bordon sentou-se na primeira fila do seu primeiro desfile em Paris e, há um mês, a norueguesa Hedvig Opshaug (do blogue Northern Light) publicou fotografias com um vestido seu na Semana de Moda de Londres. Em resultado disso vendeu cinco vestidos. Vestiu também a actriz indiana Sonam Kapoor no Festival de Cinema de Melbourne, na Austrália, a portuguesa Cláudia Vieira no Festival de Cannes em 2014 ou Joana Ribeiro nos Globos de Ouro de 2015. “Em eventos como os Globos de Ouro prefiro vestir apenas uma pessoa que faça sentido e que se relacione com o público para quem trabalho e com o público que quero continuar a atingir”, realça.

É “designer de moda a toda a hora e duas vezes por ano em Paris”, descreve aos seus 13 mil seguidores no Instagram.