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Megafone

A bem do experimentalismo

Todos queremos as mesmas coisas às mesmas horas, talvez perscrutemos caminhos diferentes, mas o culminar, a glorificação em pleno púlpito é sempre a mesma

Somos todos iguais porque todos queremos ser diferentes. Todos queremos as mesmas coisas às mesmas horas, talvez perscrutemos caminhos diferentes, mas o culminar, a glorificação em pleno púlpito é sempre a mesma. E, conforme apregoa o cliché, a melhor parte é a que ninguém saboreia: o caminho é que vale a pena. E está de tal forma interiorizado que já ninguém dá conta. Mero exemplo: a pergunta que mais oiço é, “então e o teu livro, vendeu bem?” ou “este livro que andas a escrever vai vender como o caraças”. A minha resposta, repugnante para alguns, é a seguinte: “Essa parte pouco me importa. O gozo está nas conversas, nas escritas e no regozijo de ver um trabalho num escaparate”. Egocentrismo? Provavelmente. Desapego de bens materiais? Também é provável.

Acontece que gosto de encarar a vida como uma experiência. Não no sentido de acumulação de vivências e subsequentes ideias recebidas como prémio de compensação, mas antes num pensamento de que em tudo existe laivo de experimentalismo. Ora deixa cá tentar fazer um prato para ver como resulta. Ora deixa cá agarrar no automóvel para ver se chego inteiro ao meu destino. Ora deixa cá ver se consigo escrever este livro até ao último ponto final. E mesmo chegados à milésima receita, à milésima condução, ao terceiro livro, será sempre a experimentação de um limite que mal sabemos possuir.

E depois há os percalços, os benditos percalços que nos deixam de estômago às voltas, à beira de se debruçar cá para fora. A emoção de um falhanço, o desafio da perda de determinadas vontades – e, no final, o riso. O riso porque, na verdade, nenhuma derrota nos pode derrotar. Posto doutra forma: perdemos assim tanto quando saímos derrotados? – é esta a pergunta que importa fazer. Não. Arrisco mesmo dizer que até ganhamos, no fim de qualquer derrota. Vencemos uma lição que, de outro modo, não nos iria parar à algibeira. Os sorrisos roubar-nos-iam as atenções e estaríamos de flanco desprotegido, à mercê da primeira flecha. A aprendizagem servirá para saber como fazer melhor da próxima – sim, porque há sempre uma nova oportunidade para falhar.

Talvez nos falte, ao fim e ao cabo, a gratidão pelo trilho que se faz antes do desastre ou da aclamação. De cada vez que uma sola acerta no chão empoeirado, há todo um corpo que estremece; de cada vez que se verte uma lágrima, há um peito menos apertado; de cada vez que há um grito de júbilo, contamina-se o ar das proximidades. Agora caminha, vai lá perder as estribeiras, que a vida perde-se em menos de nada e, quando estiveres deitado debaixo da ameaça de um último suspiro, tudo darás para estar de regresso ao onde repousas hoje.

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