Primeiros neandertais viveram em Espanha há 430.000 anos

Equipa obteve pedaços de ADN com mais de 400.000 anos de ossos encontrados em Atapuerca. E agora põe a hipótese de os neandertais se terem misturado com população desconhecida que veio para a Europa.

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Ilustração dos primeiros neandertais que viviam em Atapuerca, perto de Burgos, Espanha, há mais de 400.000 anos Kennis & Kennis/Madrid Scientific Films
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Um esqueleto dos 28 indivíduos cujos os ossos foram encontrados no poço de Sima de los Huesos, em Atapuerca Javier Trueba/Madrid Scientific Films
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Arqueólogos escavam em Sima de los Huesos Javier Trueba/Madrid Scientific Films
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Pós de osso de um fémur que permitiu obter sequências de ADN com 430.000 anos Javier Trueba/Madrid Scientific Films
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Incisivo com mais de 400.000 anos de Sima de los Huesos Instituto Max Planck
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Arqueólogos escavam em Sima de los Huesos Javier Trueba/Madrid Scientific Films

O complexo quebra-cabeças da evolução humana acaba de ganhar mais uma peça vinda de Sima de los Huesos, na serra de Atapuerca, em Espanha. Neste poço natural com 13 metros de profundidade estão ossadas de 28 humanos que viveram há 430.000 anos. Uma nova sequenciação do ADN de ossos de dois humanos permitiu concluir que os indivíduos daquela população podem ser considerados os “primeiros neandertais”, segundo um estudo publicado ontem na revista científica Nature.

“Eles são os primeiros neandertais (ou os mais velhos) ‘certificados’ pela análise do ADN”, explica ao PÚBLICO Matthias Meyer, da equipa de Svante Pääbo, o famoso biólogo que se especializou em genética aplicada à evolução humana, do Instituto Max Planck, em Leipzig (Alemanha).

Nos últimos anos, tem-se debatido a espécie a que pertenciam os humanos de Sima de los Huesos. Primeiro, pensava-se que eram representantes do Homo heidelbergensis, um suposto antepassado directo dos neandertais. Parte da morfologia do crânio e os dentes desta população de Espanha já eram idênticos aos dos neandertais.

Mas em 2013, a equipa de Svante Pääbo veio baralhar aquela ideia. Os cientistas fizeram a sequenciação mais antiga de sempre de ADN humano, neste caso de ADN mitocondrial — o material genético que existe nas mitocôndrias, as baterias das células, que se herda pela via materna. E a sequenciação indicava que aqueles humanos estavam mais próximos dos denisovanos (uma espécie descoberta na Sibéria, que em 2010 veio tornar a evolução humana mais complexa) do que dos neandertais.

Os resultados eram surpreendentes. “O facto de o ADN mitocondrial do homem primitivo de Sima de los Huesos partilhar um antepassado comum com os denisovanos e não com os neandertais é inesperado, uma vez que o seu esqueleto tem características derivadas dos neandertais”, disse na altura Matthias Meyer, que participou no estudo.

Há ossadas e vestígios na Europa e Ásia associados à anatomia e à cultura tipicamente neandertais com idades entre os 40.000 e os 300.000 anos. Por outro lado, os humanos modernos (a nossa espécie), que evoluíram em África, migraram para a Europa e Ásia há menos de 80.000 anos, reproduzindo-se com os humanos que existiam naqueles continentes, mas sobretudo substituindo-os. Há 28.000 anos os neandertais extinguiram-se. Finalmente, a genética mostrou que, há 50.000 anos, existia outra população humana na Ásia, os denisovanos. Conhecem-se só dois dentes e um pedaço de falange, pelo que a sua anatomia é um mistério.

Assim, há muitas questões que estão por responder. Quando se deu a separação dos antepassados dos humanos modernos, dos neandertais e dos denisovanos? Qual o lugar dos humanos de Sima de los Huesos nesta árvore evolutiva? E como integrar informações que aparentemente se contradizem, como é o caso de os humanos de Sima de los Huesos terem uma anatomia semelhante à dos neandertais e um ADN mitocondrial mais perto do dos denisovanos?

Os novos resultados dão algumas respostas. A equipa de Svante Pääbo conseguiu obter ADN nuclear (no núcleo das células e menos frequente do que o ADN mitocondrial, já que cada célula só tem um núcleo mas milhares de mitocôndrias) a partir de um dente incisivo e de um fémur de dois indivíduos diferentes.

Mesmo assim, a quantidade de ADN nuclear obtida foi apenas 0,07% do genoma humano total, mas permitiu compará-lo com o genoma das outras espécies humanas. “As sequências [genéticas] assemelham-se mais com as dos neandertais do que com a dos denisovanos, mostrando que os humanos de Sima de los Huesos estavam relacionados com os neandertais e não com os denisovanos”, explica-nos Matthias Meyer.

Os novos dados são compatíveis com a estimativa da separação da linhagem dos neandertais e a dos denisovanos “entre há 381.000 e 473.000 anos”, explica-se no artigo. Este cálculo foi feito com base na comparação dos genomas dos dois tipos de humanos, que permitiu estimar o momento da divergência entre ambos, ao ter-se em conta o número de mutações genéticas que vão surgindo ao longo do tempo nas populações humanas. “Este rácio de mutações também sugere que a separação entre os humanos arcaicos [que deram origem aos neandertais e denisovanos] e os humanos modernos ocorreu entre há 550.000 e 765.000 anos”, segundo o artigo.

Mas mantém-se uma pergunta. Por que é que o ADN das mitocôndrias dos primeiros neandertais de Sima de los Huesos tem mais semelhanças com o ADN mitocondrial dos denisovanos e menos com o ADN mitocondrial dos neandertais que apareceram mais tarde? Uma hipótese avançada no artigo é que o ADN mitocondrial dos neandertais que depois povoaram a Europa — portanto, descendentes dos neandertais de Sima de los Huesos — seja fruto de cruzamentos que entretanto aconteceram com uma população desconhecida de humanos, vinda de África.

“Não há provas genéticas de uma migração vinda de África ocorrida entre a altura dos humanos de Sima de los Huesos (há 430.000 anos) e a chegada dos humanos modernos (entre há 40.000 e 80.000 anos)”, diz Matthias Meyer. “Poderemos testar essa hipótese se obtivermos mais informação do ADN nuclear dos humanos de Sima de los Huesos e a compararmos com o ADN dos neandertais mais recentes.”