Crítica

Cumplicidade silenciosa

Ana Rita Teodoro coreografa desinibida as entradas e saídas do corpo humano.

Foto
LAURENT FRIQUET

O programa de duas peças que Ana Rita Teodoro apresentou este fim-de-semana em Lisboa resulta de um estudo prosseguido no seio de um mestrado em dança, incidente em partes do corpo e designadamente nos seus orifícios. Delirar a Anatomia é uma proposta concisa, bem explícita e ousada que, partindo da ideia de expressão do interior orgânico, explora o seu potencial para sugerir forma e dinâmica ao movimento e imprimir personalidade no corpo da dança.

Acumula-se, sobre tais premissas, uma experiência eficaz de replicar: ambas as peças são um solo que agora foi realizado em simultâneo por duas intérpretes – Katerina Andreou e a própria Ana Rita, cada qual no seu espaço cenograficamente bem delimitado.

O público estava dividido em zonas diametralmente opostas, solicitando assim duas frentes, e cada intérprete privilegiava uma delas – esta disposição criou um efeito de espelho, interessante e lúdico, que estabelece uma relação de reflexo entre as duas pessoas (e os dois grupos de público) e aumenta a profundidade do espectáculo.

Em Sonho D’Intestino, num sereno mas compenetrado ritual de afazeres em torno de um conjunto de sacos de papel fino e castanho, as duas mulheres põem e dispõem volumes evocativos  do ânus, do falo, do tubo intestinal e das fezes – e expõem paradoxos latentes no orifício e no órgão: admita-se que há prazer no que é repelente. O cuidado de uma partitura é evidente no fixar de posturas e movimentos com pausas e repetições e, no tom funcional e meditativo, que predomina, a expulsão do que já não precisamos é tratada com humor e naturalidade.

O solo seguinte  Orifice Paradis – é sobre a boca e as suas afinidades com a vagina que, mais uma vez, embora frequentemente relacionadas na vida privada, são tabu no círculo social. Aqui a cor arroxeada, a luz ténue, a roupa curta e justa e o tapete circular felpudo facilitam a representação de uma mucosa sensual, por vezes ávida; contudo ela é conduzida por uma sequência mais formal –inspirada no movimento de entrar e sair ou de abrir e fechar – e uma energia de continuidade que neutraliza qualquer excesso.

Ana Rita Teodoro é uma coreógrafa a acompanhar. Boa aluna de mestres da dança pós-moderna como Anna Halprin, Yvonne Rainer e Simone Forti  de quem herdou o movimento minimal e formalista e a coreografia de elementos plásticos e visuais, também aparenta descender de artistas feministas como Anita Steckel, Carolee Schneemann ou mesmo Annie Sprinkle, que preconizaram uma auto-representação desinibida do sexo e do erotismo feminino, mais livre do demencial pornográfico europeu  uma perspectiva que ainda é marginal no espaço público das artes e dos média, onde abundam mulheres despidas.

Por amadurecer parece estar a relação anunciada com a dança butô. Durante o espectáculo impõe-se um silêncio de montanha, apenas perturbado pelo restolhar dos sacos de papel, pelo esfregar os pés delicadamente e pelo trautear de canções que acentuam a cumplicidade entre as duas mulheres, cada qual nas suas tarefas de um caminho comum de procura. É uma característica que enfatiza a tranquilidade e a simplicidade, que são subjacentes a este trabalho mas que o tornam um objecto alienado da urbanidade ruidosa, agitada e perigosa do presente, onde ele se encontra com o público.

Este projecto é singelo e pertinente, mas refreado no delírio e na sua declaração – será demasiado cuidadoso?