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Megafone

Nesta conversa só se ouve uma voz

Nos dias que correm, Franco-Bastos é gajo para imitar "entre 40 e 50 vozes". Bruno de Carvalho, Salvador Martinha, Bruno Nogueira, Pinto da Costa, Jorge Jesus, Sérgio Godinho, Paulo Bento, Paulo Portas, Alberto João Jardim, Marcelo Rebelo de Sousa, "you name it"

Há quem diga que as imitações são um género menor do humor, ou que nem sequer são humor. Uma coisa é indiscutível: Luís Franco-Bastos tem arruinado, ano após ano, imitação após imitação, qualquer uma dessas alegações. Sentei-me, há meia dúzia de dias, à mesa de um café lisboeta com o humorista que segura firme o título de melhor imitador nacional — alguém ainda se lembra do Fernando Pereira, sequer? — e, asseguro, só ouvi uma voz: a da razão. Não podia sequer atrever-me a pedir uma imitação a Franco-Bastos, por dois motivos muito claros: primeiro, não sou um desses transeuntes chatos que pedem aos artistas que façam a sua arte em troco de nada; além disso, se quero ouvir-lhe as imitações, vou a um espectáculo, sintonizo a Mega FM ou procuro, pura e simplesmente, por vídeos na net.

Actualmente na estrada, a promover o seu mais recente solo de stand-up, "A Voz da Razão", Franco-Bastos explica a diferença entre este e o anterior espectáculo, "Roubo de Identidade", que até resultou num DVD: "Este é na mesma um solo de "stand-up" clássico. Um humorista, um microfone e o seu material. A diferença, claro, está no material". Isto porque "os humoristas tornam-se pessoas diferentes com o passar do tempo, e isso influencia o tipo de material que produz: novas perspectivas, nova visão da vida, novos assuntos". Portanto, em concreto, "A Voz da Razão", que passará pelo Coliseu do Porto (31 de Março) e pelo Coliseu de Lisboa (29 de Abril), com um salto a Portimão pelo meio (9 de Abril) é "uma visão mais adulta sobre o mundo, a política, as relações, mas também sobre o futebol ou a música, entre outras coisas".

A pergunta é inevitável: como é que uma coisa tão intimista como um solo de "stand-up" pode ter a mesma eficácia num coliseu, com três mil pessoas na assistência, a quem mal se vê a cara? "É verdade que o "stand-up" precisa de uma ligação forte com o público", confirma o humorista, "mas acho que a eventual distância de algumas pessoas é compensada pelo quão avassalador é tu juntares tantas pessoas debaixo do mesmo tecto com o mesmo único propósito: rir". "Point taken".

Nos dias que correm, Franco-Bastos é gajo para imitar "entre 40 e 50 vozes". C'um camandro. Bruno de Carvalho, Salvador Martinha, Bruno Nogueira, Pinto da Costa, Jorge Jesus, Sérgio Godinho, Paulo Bento, Paulo Portas, Alberto João Jardim, Marcelo Rebelo de Sousa, "you name it". "A mais difícil", desabafa, "sempre foi a do Pedro Passos Coelho e morria por dentro quando tinha de a fazer". "Agora já não tenho", acrescenta, com uma satisfação sub-reptícia.

Isto do humor até está a correr-lhe bem, com coliseus marcados e tal, mas Franco-Bastos não quer fechar outras portas para o futuro. Talvez "abrir uma hamburgueria gourmet" esteja nos planos para os próximos anos. "Sinto que ainda ninguém apostou nisso." Ou não.

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