Anthony Braxton: do intelecto e da emoção

Reedição, em dois volumes, de um registo definitivo da mais celebrada formação do saxofonista e compositor Anthony Braxton.

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A grande beleza desta música complexa e multi-dimensional é a absoluta coerência entre composição e improvisação

Desenhado por Braxton para navegar pelas formas ultra complexas das suas composições, o quarteto formado pelo próprio (saxofone e clarinete), Marilyn Crispell (piano), Mark Dresser (contrabaixo) e Gerry Hemingway (percussão e marimba), tornou-se naquela que é considerada a sua formação mais importante de sempre, tendo desenvolvido uma actividade intensa durante um período de mais de oito anos. Editado inicialmente em 1997, num único CD duplo, o concerto que surge aqui reeditado em dois sets separados foi captado na última digressão do grupo, numa de sete noites em que tocaram em Santa Cruz, Califórnia. Foi apenas nesta altura, ao fim de um longo período de actividade conjunta, que Braxton sentiu que estava alcaçado o seu grande objectivo para o grupo - dar corpo à sua “lógica multi-estrutural”, ou seja, a capacidade de integrar qualquer uma das suas composições noutra, criando uma nova peça para quarteto. E se o conceito é tão complexo como o puzzle que o compõe, a música não o é menos. Mesmo ouvidos experientes, habituados às dissonâncias e cacofonias da free-music e da livre improvisação, encontram aqui osso duro de roer.

Mas sabemos hoje que há poucos músicos no mundo capazes de desafiar os nossos sentidos e a nossa razão como Braxton o faz, e esta é música que deve ser naturalmente encarada como um mistério cuja chave se encontra não apenas na audição atenta e repetida da mesma, como no passar do tempo e na evolução de conceitos artísticos nas mais diversas áreas, não apenas na música. Descodificá-la pode fácilmente tornar-se a missão de uma vida inteira. Mas isso pouco interessa. A grande beleza desta música complexa e multi-dimensional encontra-se na absoluta coerência entre composição e improvisação, na forma como o quarteto navega de forma telepática através de manipulações tonais colectivas e dinâmicas extremas de volume, controlando de forma prodigiosa aquilo que seria o caos colectivo. No centro, o conceito de uma música “intuitiva”, por oposição a música improvisada - música onde são evitados os estilos e as regras pre-determinadas da improvisação e onde os músicos podem esvaziar a mente antes de tocar, deixando os sons existir. Dois registos obrigatórios, também difíceis e exigentes, que assinalam o fim de uma das formações musicais mais extraordinárias de todos os tempos.