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Megafone

Um Bloco de tiros ao lado

O esfreganço recorrente deste assunto nas caras dos portugueses, pró e contra adopção por parte de homossexuais, é de mau tom

Era previsível. O cartaz do Bloco de Esquerda com a celebração da adopção gay foi (está a ser) uma provocação capaz de fazer estoirar uma veia no cérebro dos preconceituosos e dos católicos mais acérrimos. Sobre esta polémica, mais uma, a pergunta mantém-se: quão fracas têm de ser as convicções de uma pessoa para se deixar arreliar por um arremedo de piada pintalgado num cartaz? Além do mais, ainda bem que se fazem cartazes deste género — faltam mais, para dizer a verdade —, para que as pessoas compreendam de uma vez por todas que não existem, nem podem existir, assuntos sagrados.

No entanto, é importante tirar deste caso umas quantas ilacções. Acontece que o Bloco de Esquerda, mais uma vez, falhou, no que toca à comunicação dos seus ideais políticos. E não falhou apenas numa dimensão, mas pelo menos em cinco.

O timing. Vejamos: a lei da adopção foi aprovada a 20 de Novembro de 2015. Entretanto, Cavaco vetou-a mas a lei tornou a passar no Parlamento a 10 de Fevereiro. Ou seja, se formos rigorosos, o Bloco teve quase três meses para preparar uma coisa deste género. Só que não: decidiu estar duas semanas em banho-maria para agora, sem razões, lançar esta posta de pescada. Quem é que gere a agenda deste pessoal?

A política. A política, diz-se, deve preocupar-se com assuntos actuais e que ainda estão por resolver. O esfreganço recorrente deste assunto nas caras dos portugueses, pró e contra adopção por parte de homossexuais, é de mau tom, única e exclusivamente por ser despropositado. O assunto está resolvido e há muitos outros por resolver, não vale a pena regressar a um tema que está fechado há duas semanas.

O tema. Tendencialmente, quem é de esquerda não tem grande proximidade com a religião. Muitos dos partidos de esquerda por todo o planeta advogam um ateísmo quase feroz. E agora, uns iluminados do Bloco acham boa ideia fazer política (com minúscula, porque neste contexto a palavra não ganha outra dignidade) com um sujeito de quem nem sequer existem evidências comprovadas (embora haja grande consenso entre historiadores) da sua existência histórica. Além do mais, a introdução dos dois pais, José e deus, colocam o Bloco a crer que existe, de facto, uma divindade. Estranho, no mínimo.

A elevação (ou a falta dela). Faltou classe ao Bloco, também. A vitória devia ser celebrada, sim, mas no contexto apropriado e com respeito pelo adversário — por mais idiotas que sejam os argumentos apresentados pelo adversário. Imaginemos o seguinte. Num Sporting vs. Benfica, Slimani marca aos 12 minutos de jogo. Não festeja. E, sem motivo aparente, desata a celebrar aos 49 minutos, bramindo manguitos à claque benfiquista. Parece parvo, não é? Isto é o que o Bloco fez hoje.

A adopção. São os portugueses que têm de festejar a aprovação da lei, e os portugueses (alguns, pelo menos) fizeram-no. Porque a adopção gay é uma vitória para (todas) as famílias e, acima de tudo, para as crianças. Por isso, no dia em que voltou a aprovar-se a lei no hemiciclo, muitas pessoas expressaram, de uma forma ou de outra, a sua alegria pelo feito. Só o Bloco é que estava a dormir. E acordou tarde.

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