Passadiços do Paiva são um fenómeno e a vila de Arouca não voltou a ser a mesma

Trajecto ao longo do rio Paiva reabre esta segunda-feira. No Verão passado, o número de visitantes superou as melhores expectativas e os comerciantes agradecem.

Os passadiços acompanham o vale do rio Paiva
Os passadiços acompanham o vale do rio Paiva Nelson Garrido
O passadiços foram destruídos parcialmente pelo fogo, no Verão de 2015
O passadiços foram destruídos parcialmente pelo fogo, no Verão de 2015 Adriano Miranda
Fotogaleria

Esta segunda-feira, os passadiços do Paiva, em Arouca, percurso de oito quilómetros pela margem esquerda do rio, reabrem ao público depois de um incêndio em Setembro ter obrigado a um fecho abrupto. Nessa altura, achou-se por bem pensar na elevada afluência de cerca de 200 mil visitantes recebidos em dois meses e meio de funcionamento. O fogo engoliu 600 metros dos passadiços, o que obrigou a uma intervenção nessa zona e, ao mesmo tempo, a repensar o acesso ao trajecto que recebia uma média diária de 7000 visitantes. 

Agora, o acesso é limitado a 3500 pessoas por dia, que têm de pagar um euro, fazer marcação prévia no site www.passadicosdopaiva.pt e apresentar a reserva aos funcionários que estão nas três entradas instaladas no percurso. A população de Arouca tem entrada livre mediante a apresentação de um cartão de residente que custa 2,50 euros, sem IVA, e é válido por três anos. Até à reabertura tinham sido pedidos mais de 500 cartões.

Há outras alterações nos passadiços. Um troço de cerca de um quilómetro, na zona do Areinho até à queda de água das Aguieiras, mantém-se de acesso livre. A zona balnear do Vau tem agora instalações sanitárias e Espiunca e Areinho estacionamentos para 400 viaturas em cada lado.

A vila de Arouca sentiu na pele, e nos bolsos, a procura dos passadiços do Paiva e não mais foi a mesma. Cafés e restaurantes cheios, mais quartos alugados, mais reservas no hotel da vila e noutros concelhos ao redor, mais negócio nas bombas de gasolina, mais viagens para os taxistas. Os passadiços excederam a melhor das melhores expectativas e os comerciantes agradecem. 

“Os passadiços fazem muito bem à terra, vinha imensa gente de fora, os taxistas tinham trabalho a toda a hora, fazia-se negócio a vender frutas, doces.” Esmeralda de Oliveira, ex-professora primária, agora dona de uma loja de artesanato na vila, conta o que os seus olhos viram no Verão passado. “Um movimento fora de série. Para a vila foi muito bom, foi um acontecimento”, refere.

Paula Cristina, empregada num snack-bar na principal avenida de Arouca, confirma. A esplanada do estabelecimento onde trabalha nunca teve tanta gente. “Sentimos uma mudança, muita gente aproveitou aquela maré, foi uma novidade, e tivemos trabalho que nunca tivemos noutros anos”, diz.
 
Depois do incêndio e do fecho dos passadiços, a vila ficou mais deserta. “Esperamos que a partir de agora seja como no ano anterior, porque é bom para a terra. Damos a conhecer a cultura, o artesanato, a gastronomia e todos os produtos são daqui, são óptimos.” Francisco Freitas tem um restaurante e quando via gente de sapatilhas e mochilas já sabia de onde vinham. Chegou a ter casa cheia vários dias.

“Era a loucura, muita gente de fora, perguntavam-nos o que se passava em Arouca, porque não havia comida”, recorda. A enchente de forasteiros foi uma boa ajuda para o seu negócio, que vivia dias complicados. Por isso, espera que esse tempo volte depressa.

Jorge Teixeira trabalha num talho com montra para a Avenida 25 de Abril. Muita gente parava-lhe à porta a perguntar o caminho para os passadiços. “Todos os dias parecia uma feira. Havia muito movimento, foi uma coisa fora de série”, diz. O talhante reconhece a imponência da obra ao longo da margem do Paiva, ficou surpreendido com o resultado. “Conhecendo o terreno, é fora do vulgar.”

A carne arouquesa vendeu-se bem no Verão passado e os taxistas fizeram mais viagens do que o habitual. Paulo Sousa também trabalha num talho e alguns dos visitantes dos passadiços tornaram-se seus clientes para levar a vitela de Arouca para casa. As encomendas dos restaurantes também aumentaram. “Não estávamos à espera de tanta gente, fornecemos mais carne aos restaurantes.”

Óscar Almeida, taxista, faz contas e adianta que o trabalho aumentou mais de 50% depois da abertura dos passadiços: “Foi um Verão em cheio, mas durou pouco tempo." "Havia trabalho para todos, os passadiços são uma coisa interessante para Arouca”, acrescenta o taxista, que transportou clientes que repetiram a visita aos passadiços três, quatro vezes. “Levei um casal de Sintra que era a terceira vez que vinha”, recorda.

Cada foto, um quadro

Artur Neves, presidente da câmara local, sabia que a obra não iria passar despercebida. “Qualquer infra-estrutura num território como o nosso, que valorizasse um recurso paisagístico imponente, teria impacto”, diz ao PÚBLICO. Mas o que aconteceu não estava nas suas previsões mais optimistas.

A realidade mostrava-lhe que o turismo de natureza era equilibrado e não de massas, de multidões. O autarca tem várias explicações para a elevada procura dos passadiços: “A singularidade do projecto, a paisagem, a biodiversidade, a limpidez das águas, as cascatas, a garganta do Paiva. Qualquer fotografia é um quadro absolutamente deslumbrante.”

Artur Neves admite que há um antes e um depois. “Os passadiços revolucionaram completamente o concelho e a economia local. Os dois milhões de euros ali investidos já entraram no concelho.” Espera agora que a procura seja contínua, e não tem dúvidas de que o projecto tem sustentabilidade garantida.

Joaquim Cunha, presidente da Junta da União de Freguesias Espiunca/Canelas, território do trajecto dos passadiços, acredita também que o percurso continuará a ser um sucesso. “Ultrapassou tudo o que era expectável, o ano passado foi extraordinário. Cafés cheios, a carne esgotou várias vezes nos restaurantes. Na nossa freguesia, freguesia rural, passarem cinco, seis carros por minuto, isto mexe com as pessoas”, refere.

O autarca chega a falar de algo “sobrenatural”, “fora do normal”, e encontra explicações na beleza que Arouca tem, nas serras, nos vales e no Paiva. Na sua opinião, é difícil encontrar no país um rio “com tanta beleza” como o Paiva. As expectativas não baixam, portanto, e as alterações são bem-vindas. “As novas infra-estruturas vão ajudar a colmatar as deficiências entretanto detectadas, porque ninguém esperava tanta gente nos passadiços.”

A SOS Rio Paiva – Associação de Defesa do Vale do Paiva está satisfeita com as restrições de acesso. Havia várias situações que a preocupavam, como o corte de vegetação nas margens do rio, o lixo espalhado ao longo do percurso, o excesso de pessoas nos passadiços, as infra-estruturas ilegais e de venda ambulante no trajecto.

Em Novembro do ano passado, a SOS Rio Paiva enviou algumas propostas à câmara para que fosse criado um ponto de recepção dos visitantes com informação sobre a área protegida, criação de quebras no pavimento, monitorização do impacto da estrutura no ecossistema. Os visitantes, em seu entender, devem também ser alertados para os riscos e grau de dificuldade do percurso.

“A SOS Rio Paiva reconhece a importância da obra para a usufruição e contemplação da riqueza natural e paisagística do vale do Paiva, bem como os benefícios que o turismo pode trazer para o desenvolvimento local, mas apela para que não seja esquecida a salvaguarda do património natural do vale do Paiva e os impactos negativos decorrentes da abertura ao público deste espaço classificado a nível europeu na Rede Natura 2000”, sublinha, em comunicado.