Incessante, a voz de Cartas da Guerra afogou as suas espantosas imagens

Ivo Ferreira estreou a sua nova longa na Berlinale e a imprensa internacional esteve atenta. Mas a tentativa de transpor para cinema a escrita torrencial de Lobo Antunes não resulta.

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Miguel Nunes
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Cartas da Guerra filma o quotidiano de um alferes médico na Guerra Colonial
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Margarida Vila-Nova
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O realizador Ivo Ferreira este domingo em Berlim STEFANIE LOOS/REUTERS
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Os actores Ricardo Pereira, Margarida Vila-Nova e Miguel Nunes com o realizador Ivo Ferreira em Berlim STEFANIE LOOS/REUTERS
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Miguel Nunes e Ivo Ferreira na conferência de imprensa deste domingo no Festival de Berlim STEFANIE LOOS/REUTERS

Indo directos ao assunto, Cartas da Guerra é uma pequena desilusão. Dizemos pequena porque há muito de bom a notar no novo filme de Ivo Ferreira, seleccionado para a competição oficial de Berlim 2016, e, de longe, a melhor das suas três longas-metragens de ficção. Mas há também um certo travo de desilusão quase sebastianista no modo como Cartas da Guerra fica "aquém" do que poderia ser, ainda por cima depois de ter sido erguido a ponta-de-lança de uma participação portuguesa como nunca se viu no certame alemão (com direito a presença do primeiro-ministro, António Costa, na projecção oficial de gala às 16h deste domingo em Berlim – 15h de Lisboa). A adaptação que Ferreira fez das cartas enviadas por António Lobo Antunes à sua mulher, Maria José, durante uma comissão de serviço na Guerra Colonial, é um espantoso poema tonal submergido até ao quase afogamento por um sufocante sobrecarregar de linguagem.

É inevitável invocar a propósito de Cartas da Guerra o Tabu de Miguel Gomes. Tematicamente, pela sua relação com África e com o passado colonial português; formalmente, pela aposta no preto-e-branco (maravilhosamente trabalhado pelo director de fotografia João Ribeiro) e pelo uso da voz-off; circunstancialmente, pelo facto de este ser o primeiro filme português no concurso principal de Berlim desde... Tabu, precisamente. Mas onde Gomes utilizava judiciosamente a voz-off, Ferreira torna-a central ao filme ainda que, como reiterou na (pouco concorrida) conferência de imprensa, tenha nascido do acaso de ouvir a esposa a ler as cartas de amor de Lobo Antunes ao filho ainda por nascer. A mesma esposa, a actriz Margarida Vila-Nova, é quem representa o papel de Maria José Lobo Antunes no filme. Porque as personagens de Cartas da Guerra são, evidentemente, Lobo Antunes e a esposa, ao mesmo tempo que não o são porque Ferreira e o co-argumentista Edgar Medina construíram uma narrativa a partir das cartas, incorporando elementos retirados de outras obras do escritor. 

Cartas da Guerra funciona, então, em duas linhas paralelas. De um lado, as imagens: António (Miguel Nunes), alferes médico destacado para Angola, e o seu quotidiano – emboscadas, jogos de xadrez, leituras, patrulhas, escrita, conversas. Do outro, o som: a voz da esposa Maria José (Margarida Vila-Nova), praticamente ausente da imagem a não ser em dois-três momentos, lendo por ordem cronológica as cartas que vai recebendo, narrativa que ora complementa, ora ilustra, ora ilumina as imagens no ecrã. 

Só que a voz nunca, ou quase nunca, pára de falar. Tal como  a música – escolhida com pontaria, com Freitas Branco, Lopes-Graça e Ligeti também está continuamente omnipresente. Se essa verdadeira torrente de palavras e sons é uma tentativa de transpor para ecrã o fluxo "stream-of-consciousness" da escrita de Lobo Antunes, o facto é que Ferreira nunca encontra o ponto de equilíbrio entre silêncio, música e palavra que permita ao espectador encontrar o seu lugar no filme. Para um objecto visualmente tão depurado e trabalhado, fantasmagoria límpida e letárgica invocando Béla Tarr e Pedro Costa no modo como cada imagem parece ser um quadro pictoricamente arrebatador, a necessidade de submeter tudo à narração – e a uma narração tão omnipresente que toca as raias do insuportável, mesmo que perfeitamente consentânea com o barroco imparável de Lobo Antunes – é quase um contra-senso. Isso deixa Cartas da Guerra num limbo estranho: é um filme que sabe o que quer, mas que talvez não saiba que o que quer pode não ser o melhor para o filme. 

O simples facto de Cartas da Guerra estar no concurso principal de um dos "três grandes" festivais de categoria, como dizia o produtor Luís Urbano ao PÚBLICO há algumas semanas, dá-lhe uma caução artística inegável (e, dizemos nós, merecida, face ao espantoso trabalho de imagem de João Ribeiro e de montagem de Sandro Aguilar), sobretudo se levarmos em conta que Ivo Ferreira está longe de ter o mesmo percurso internacional de outros nomes grandes. Estamos, claro, no campo do cinema de autor "puro e duro" que tem feito o nome do cinema de Portugal lá fora, o que terá explicado a forte afluência à sessão de imprensa – mas, nos corredores, percebe-se também que os jornalistas internacionais esperavam outra coisa (a referência à Guerra Colonial é novidade para muitos espectadores), e que o filme que Ivo Ferreira fez, com todas as suas falhas e forças, sai fora dos formatos. Nesse aspecto, tudo como antes, quartel-general em Abrantes. Só queríamos era que Cartas da Guerra fosse melhor.