Linha Saúde 24 para idosos foi suspensa para responder à gripe

Director-geral da Saúde fala em questões orçamentais e promete alargamento no futuro, enquanto coordenador da linha diz que foi necessário responder ao aumento da procura devido à gripe.

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Linha apoiou 21 mil pessoas com mais de 70 anos Daniel Rocha

A Linha Saúde 24 para idosos foi suspensa em 1 de Janeiro, ainda antes de ter completado o segundo aniversário. Apesar de ter acompanhado cerca de 21 mil idosos ao longo da sua curta existência, este serviço dirigido a pessoas com mais de 70 anos foi temporariamente desactivado “para se fazer face ao aumento da procura relacionado com a gripe”, explica Sérgio Gomes, o coordenador da Saúde 24, o centro de atendimento do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Criada em 25 de Abril de 2014, a Saúde 24 Sénior era um serviço dedicado especificamente a idosos com 70 ou mais anos. O número de telefone era o mesmo (808 24 24 24), mas este "algoritmo" pretendia ser bem mais abrangente, uma vez que ia para além do tradicional aconselhamento telefónico em questões de saúde.

O objectivo era ambicioso: propunha-se fazer uma “avaliação biopsicossocial” dos idosos, olhando para não só para a situação clínica, mas também autonomia física, a forma como se alimentavam, e do seu estado social e cognitivo, entre outras dimensões. Pretendia igualmente detectar e prevenir os problemas relacionados com o isolamento dos mais velhos, ajudá-los a marcar consultas ou a renovar a medicação, por exemplo.O algoritmo sénior veio assim juntar-se à actividade normal da linha de Saúde 24 e até pretendia contactar de 15 em 15 dias as pessoas que aderiam voluntariamente.

Por pouco tempo, porém. Em Dezembro, a Direcção-Geral de Saúde decidiu suspender o serviço. “Era necessário fazer opções e decidiu-se concentrar a resposta nesta época de gripe. O algoritmo estava a ocupar do ponto de vista tecnológico o sistema que tem limites. Preferimos dar melhor resposta ao atendimento em tempo real que é a base [da Saúde 24]. Mas suspender [o atendimento sénior] não significa eliminar. Tivemos que nos adaptar às necessidades reais”, justifica Sérgio Gomes que garante que a linha sénior será retomada “logo que possível”. 

Mas a época de gripe não é a única explicação para a interrupção de um serviço que chegou a acompanhar cerca de 9500 numa base de continuidade (os tais contactos quinzenais). Vai ser também necessário “readequar” o centro de atendimento do SNS para aquilo que será um futuro “Centro de Contactos”, são estas “as orientações” do ministro da Saúde, frisa Sérgio Gomes.

Há ainda uma terceira explicação, esta avançada pelo director-geral da Saúde, Francisco George. A linha Saúde 24 sénior" não estava prevista no contrato" (quem explora o "call center" é uma empresa privada que venceu o concurso público internacional), "era uma experiência piloto e é preciso evitar a derrapagem orçamental, como destacou o Tribunal de Contas" (em recente auditoria), argumenta Francisco George, que deixa uma promessa: o serviço vai ser substituído por “uma poderosa linha de atendimento para 200 mil idosos”. Quando? “Só no próximo contrato", responde, sem precisar uma data.

Ainda segundo Sérgio Gomes, a Direcção-Geral da Saúde está também a avaliar "o impacto e o custo/oportunidade” da Saúde 24 sénior, que, quando celebrou o primeiro aniversário, em 25 de Abril do ano passado, era destacada pelo administrador da empresa que a gere, Luís Pedroso Lima, como uma resposta com “potencial”, tendo em conta o facto de Portugal ser um país cada vez mais envelhecido. 

De acordo com o censo de 2011, cerca de 400 mil idosos vivem sozinhos e outros 804 mil residiam então com outras pessoas de idade avançada. “Sentimos que na base das chamadas estão grandes dificuldades sociais, associadas à não toma da medicação por dificuldades financeiras de idosos com pensões muito baixas e até algumas situações em que as pessoas revelam má prática nutricional”, descrevia, então, Luís Pedroso Lima.

Perplexo com a suspensão de uma iniciativa que parece ter sido “vítima do seu próprio sucesso”, o economista especializado em saúde Pedro Pita Barros lamenta no seu blogue “Momentos económicos e não só” que isto tenha acontecido  “ao mesmo tempo que se tem discursos públicos de combater a solidão, de acompanhar os idosos, de promover processos de envelhecimento em que haja um relacionamento diferente entre os cidadãos de avançada idade e o Serviço Nacional de Saúde”.

No ano passado, de acordo com os dados fornecidos ao PÚBLICO, os enfermeiros que trabalham no centro de atendimento do SNS atenderam quase 2500 chamadas por dia, em média, enquanto no ano anterior atendiam menos de 1900 chamadas diariamente. A maior parte são telefonemas para triagem, aconselhamento e encaminhamento.