Davi Pinheiro/Reuters
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Organismos grotescamente ignorados: nós por cá validamos os “cocktails de pesticidas”

Como é que os alimentos que sobrevivem a estes "cocktails de pesticidas" podem ser bons para a nossa agricultura, para a nossa mesa, para a nossa saúde?

O parlamento português acaba de chumbar as iniciativas legislativas que pediam a proibição do cultivo de organismos geneticamente modificados (OGM's).

Patenteados por multimilionárias multinacionais da engenharia genética, eles são apresentados como panaceia para males como a fome no mundo, as alterações climáticas, a agricultura química, as doenças ou a subnutrição. Porém, o seu cultivo e consumo acarretam sérios riscos para a agricultura, para a economia, para o ambiente, para a saúde humana e para a saúde dos animais não humanos.

Se, durante muitos anos, a legislação comunitária foi usada para justificar a não aprovação de projectos que visavam impedir o cultivo de OGM em Portugal, esse argumento caiu por terra quando, em Janeiro de 2015, a União Europeia passou para os Estados-membros a decisão de proibir ou não os cultivos de organismos geneticamente modificados. Rapidamente, vários Estados aproveitaram a ocasião para tomar medidas que asseguram uma maior segurança alimentar aos seus cidadãos e um ambiente mais saudável.

Se tanto nos preocupa a importação de boas práticas é importante perceber que, em toda a Europa, Portugal e Espanha são os únicos que continuam a cultivar OGM's, posto isto, questiono-me sobre que espécie de barco pretendemos nós apanhar e quais os custos do naufrágio que estamos dispostos a suportar?

Os representantes do Centro de Informação de Biotecnologia (CiB) não conseguiram responder de forma clara às minhas questões, esta semana, acerca da sustentabilidade ecológica, financeira e humana no que respeita ao cultivo e consumo destes organismos.

Se todos os projectos de lei foram rejeitados no parlamento português, negligenciando o princípio da precaução, pergunto-me que interesses estamos a servir? Os da salvaguarda da integridade e bem-estar dos portugueses não serão. Chegámos a um aspecto essencial: o lucro imediato e fácil. Não me canso de repetir, sabemos o preço de tudo mas optamos por continuar a ignorar o valor e os reais custos das escolhas. Se formos pesquisar um pouco por conta própria e, perdoem-me os apreciadores do entretenimento anestesiante, sairmos do lugar confortável de não querer saber por pouco poder fazer, vamos perceber que esta questão atinge repercussões verdadeiramente alarmantes a nível mundial. Iremos conhecer o caso dos habitantes de um pequeno povoado na Argentina que sentem e temem os efeitos do glifosato, um herbicida produzido e usado por uma conhecida multinacional dos transgênicos que, imagine-se, mata tudo à sua volta excepto a soja transgénica!

Como é que os alimentos que sobrevivem a estes "cocktails de pesticidas" podem ser bons para a nossa agricultura, para a nossa mesa, para a nossa saúde?

A complacência com o "lobby" pró-transgênico tem chamado a atenção de entidades internacionais, que vêm alertando também os agricultores para a atracção ilusória do argumento custo-benefício, revelando que no médio prazo as sementes transgénicas tendem a render menos que as variedades convencionais.

Nós por cá — o PAN e tantos outros - continuamos a escolher não os cultivar e consumir, até que seja inequivocamente provado que não acarretam riscos para a agricultura, para a economia, para o ambiente, para a saúde humana e para a saúde dos animais não humanos. A grande questão é que continuam a chegar-nos, silenciosos e invisíveis.

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