alexcoelholima/instagram
Foto
alexcoelholima/instagram

Megafone

Em Braga, não sejas romano

Conhecemos sempre alguém que conhece alguém que conhece alguém que nos pode ajudar a resolver um problema

Segundo dados do Eurobarómetro, Braga é a cidade mais feliz de Portugal e a terceira da Europa. O mesmo estudo refere que 97% dos habitantes são felizes a viver na cidade.

Começo pelos 3% que não o são: este grupo é constituído por aquela malta que nunca está bem, que vai ao melhor restaurante, comer o melhor petisco sem ter que pagar e, no fim, ainda diz que “o restaurante é um bocado longe”. Começo pelo factor proximidade: em Braga, estamos perto de tudo. Do trabalho, do ginásio, do campo de futebol, da sala de espectáculos, do café ou do centro comercial.

Mas, quando a nossa pequenina cidade não pode satisfazer as nossas necessidades culturais e recreativas, estamos perto do Porto. Ou de Guimarães: neste ponto, devo alertar que nenhum bracarense admitirá (nem sob tortura) que Guimarães é fixe. Os bracarenses dizem sempre que vão a Guimarães de passagem, mas a verdade é que vão lá. E gostam.

Estamos, também, perto de Vigo. Este estudo poderia referir que 87,6% das despedidas de solteiro dos bracarenses terminam em Vigo. Se não sabes porquê, é melhor não saberes. E, no fundo, estamos perto de Lisboa. Um bracarense que queira dar uma volta em Lisboa demora três horitas a chegar lá. Ou seja, pouco mais do que um gajo de Almada demora a chegar a Lisboa, em hora de ponta.

Há outro tipo de proximidade que importa: entre as pessoas. Conhecemos sempre alguém que conhece alguém que conhece alguém que nos pode ajudar a resolver um problema. Às vezes, gera-se uma corrente com tantas ramificações que pode acontecer ligarem-te para saberem se conheces alguém que ajude a resolver… o teu problema.

O desenrascanço é outra das nossas características. Para nós, as regras não são limitações: são quebra-cabeças para resolver. Se a série do MacGyver fosse filmada em Braga, ninguém se lembrava do MacGyver, porque todas as personagens eram principais.

A Universidade do Minho é um pólo de inovação tecnológica também por isso: quem vive em Braga aprende depressa a ser criativo. Se não aprender, passa a ser um "neca". E os "necas" são ostracizados na nossa cidade. A diversão é outro aspecto que valorizamos. A nossa diversão nocturna, por exemplo, tem boa oferta. E tem um extra: todos os espaços estão cheios de pessoas de Braga, o que potencia as probabilidades de regabofe.

As nossas festas fazem as do Berlusconi parecerem uma tarde de catequese. Por falar em catequese: somos muito tolerantes. Temos uma igreja em cada esquina, temos a Semana Santa, mas fomos capazes de produzir os Mão Morta e o Adolfo Luxúria Canibal, que é o mais próximo de anti-Cristo que este país tem.

Mais: comemos tripas e rojões, papas de sarrabulho, arroz de pato, cabrito e arroz “pica no chão” (é arroz com sangue de frango). Mas temos restaurantes vegetarianos. E não atiramos pedras a quem não come carne. Só gozamos com essas pessoas. Mas pouco. A nossa gastronomia não tem o mediatismo do pastel de Belém ou da francesinha do Porto, mas é a melhor do país. OK, concedo: os transmontanos estão ao nosso nível. Mas eles têm o trabalho de comprar os animais, engordá-los e matá-los. Nós só enfardamos.

A nossa cidade é segura. Claro que há assaltos, claro que há violência. Mas, em Braga, para seres assaltado, quase tens que pedir aos assaltantes. Isto, porque os nossos assaltantes são pessoas trabalhadoras, com outros negócios a gerir (todos eles ligados ao crime), pelo que é quase preciso agendar um assalto.

Nas grandes cidades, os assaltantes são calaceiros: só assaltam. Em Braga, até os criminosos são empreendedores. Connosco, podes aprender imenso. Dizem que há mais formas de abrir uma partida de xadrez do que partículas no universo. Em Braga, há mais formas de insultar uma pessoa do que aberturas de xadrez. Até porque nós não jogamos muito xadrez. Como as peças estão todas à vista, é difícil fazer batota. Por essa razão, e por podermos jogar em tascas, preferimos a sueca.

Alguns dos nossos insultos são imperceptíveis, até para falantes do Português. Não chamamos "bimbo" a ninguém. Aliás, nós insultamos quem diz "bimbo". Dizem que, um dia, um general romano disse, sobre os povos do noroeste peninsular, que nem se governam, nem se deixam governar. Somos uma espécie de aldeia do Ásterix. Sendo assim, em Braga, não sejas romano: sê como quiseres, porque nós sabemos receber quem nos visita. Só pedimos que não sejas "bégueiro". Se não sabes o que é, é melhor não saberes.