Marisa e o BE mudaram "o mapa político de Portugal”

Venceu a candidata, venceu o partido. Mas a porta-voz do Bloco entende que deve ser feita uma reflexão sobre a eleição do candidato de direita à primeira volta. Marisa Matias teve o melhor resultado de sempre da história do Bloco em presidenciais.

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O desempenho de Marisa Matias como candidata presidencial foi muito elogiado no partido Paulo Pimenta
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A porta-voz do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, foi a última a falar na noite deste domingo, no Coliseu do Porto. Não podia ter sido mais clara ao afirmar que os resultados alcançados por Marisa Matias nestas eleições presidenciais tornam o BE uma força “fundamental”. “Depois das legislativas de Outubro, estas eleições confirmam o que muitos não queriam perceber: a determinação do BE mudou o mapa político de Portugal”, disse.

A candidata apoiada pelo BE, Marisa Matias, ficou em terceiro lugar, à frente de Maria de Belém e de Edgar Silva. Foi o melhor resultado de sempre do BE em presidenciais – em 2006, Francisco Louça tinha tido 5,3%. Marisa Matias teve 10,1%, mais do dobro do que o obtido por Maria da Belém e pelo comunista Edgar Silva. A história repete-se depois das legislativas – também em Outubro Catarina Martins conseguiu levar o Bloco ao melhor resultado de sempre em eleições legislativas.

Catarina Martins considerou que este resultado “não é um acaso”, vem da “entrega”, “determinação”, “combatividade” de Marisa Matias. E está certa de que “as sementes desta campanha darão frutos”. Mais à frente, deixou uma mensagem à direita, aos poderes europeus e ao Governo – a “razão pela qual o BE cresce” é o facto de que "são cada vez mais”, em Portugal, as pessoas que “não se resignam”.

A candidatura tinha traçado três objectivos: haver uma segunda volta; levantar questões “essenciais” que “vão desafiar” o Presidente da República nos próximos anos; e dar “mais força” no caminho contra a austeridade, ou seja, “expressar” a “alternativa” que o BE representa no Parlamento e nos movimentos sociais. O primeiro não foi alcançado – di-lo a porta-voz “com toda a tranquilidade de quem fez tudo o que podia”. Marisa Matias “bateu-se como ninguém”, disse.

Catarina Martins alertou, porém: “A vitória da direita nestas eleições é uma derrota para esquerda da qual devemos retirar lições. A ambiguidade não mobiliza ninguém e a desistência é sempre o pior dos caminhos. Nunca é o caminho do BE.”

Foi ao som de palmas e com os apoiantes a gritarem “Marisa, Marisa” que a candidata entrou na sala para discursar, quando os resultados não eram ainda os definitivos. Ainda assim, já tinha felicitado Marcelo Rebelo de Sousa: “Em democracia o mais precioso que temos é a decisão dos portugueses e portuguesas.”

Mas fez questão de frisar que não foi nesta candidatura que algo “correu mal” para não que não houvesse segunda volta. Para Marisa Matias, os resultados desta candidatura mostram, mesmo que “há uma enorme onda de esperança” a “crescer e a fazer o seu caminho”.

Ao PÚBLICO, o líder da bancada parlamentar do BE, Pedro Filipe Soares, disse não ter dúvidas de que o resultado dá ainda mais “responsabilidade” ao Bloco como terceira força política do país. E mais peso para negociar as medidas que defende. Depois de se ter transformado na terceira força política em Outubro, o Bloco sai novamente reforçado, ganhou ainda mais espaço, reconhece. Um resultado que dá “eco à esperança criada” nos últimos tempos e dá “força” ao BE para poder exigir mais junto de outros actores políticos, tanto em questões orçamentais, como na governação do dia-a-dia, admite o bloquista. “A voz do Bloco sai reforçada”, resumiu.

Marisa Matias fez um percurso ascendente durante a campanha, ao lado de outras mulheres, como a porta-voz Catarina Martins e a deputada Mariana Mortágua. Pedro Filipe Soares reconhece que poderá haver um factor juventude a contribuir, com alguma frescura, para a renovação do panorama político – todos os rostos do Bloco que se têm destacado nos últimos tempos estão nas faixas etárias entre os 20 e os 40. Mas não só: são, diz, protagonistas com “coerência política” e lutam por “questões concretas”. Para Pedro Filipe Soares, este resultado reforça “ainda mais” o nome da eurodeputada, não só a nível nacional como também no Parlamento Europeu.

“Força eleitoral do BE determina a sua capacidade de actuação”
Marisa Matias teve “um resultado extraordinário”. As palavras são do deputado do Bloco de Esquerda José Manuel Pureza. “É a força eleitoral do BE que determina a sua capacidade de actuação. Estou certo de que será assim agora, como foi nas eleições de Outubro. Se o PS tivesse obtido uma maioria absoluta, não teria sido possível um acordo à esquerda para parar o empobrecimento do país e recuperar os rendimentos do trabalho. A exigência nas negociações do Orçamento do Estado é a exigência de cada um destes votos. E a nossa responsabilidade comum é a materialização desse acordo no Orçamento para 2016”, disse ao PÚBLICO por escrito, uma vez que não pôde estar no Coliseu do Porto neste domingo.

O deputado reconhece que, “nos últimos anos, o BE foi capaz de renovar a sua direcção, reconstruir a sua base, reinventar o seu espaço e agregar mais pessoas e mais capacidade”. E que “o contributo da Catarina Martins, da Mariana Mortágua e da Marisa Matias, que representam uma nova geração de activistas, foi, e continua a ser, uma parte indispensável deste processo”. Mesmo não sendo eleita para a Presidência da República, Marisa Matias ganha também, depois deste resultado, outro protagonismo em Bruxelas que pode beneficiar o primeiro-ministro António Costa. “Marisa Matias tem sido uma extraordinária eurodeputada. Estou certo de que não faltará, como nunca faltou, a nenhuma das batalhas da esquerda no Parlamento Europeu”, defende José Manuel Pureza.