Ele é um dos mais admirados mágicos do mundo – e está de volta a Portugal

Nascido no Porto, hoje habitante de Los Angeles, Hélder Guimarães está de regresso para estrear o seu novo espectáculo, Verso, esta quinta-feira.

Foto

Não foi descoberta da adolescência. Não foi um fascínio nascido quando se deparou com um truque magistralmente executado num espectáculo. Não foi, certamente, por ter apanhado um par de emissões de David Copperfield na televisão. Hélder Guimarães não é mágico por nenhuma dessas razões. É-o  e não se lembra de ser outra coisa. O pai, mágico amador, iniciou-o bem cedo e Hélder descobriu a sua vocação quando a maioria de nós ainda respondia “astronauta” ou “jogador de bola” à pergunta “o que queres ser quando fores grande?”

O dado biográfico explica o talento e a dedicação de Hélder Guimarães, o hoje habitante de Los Angeles, 33 anos, que estreará esta quinta-feira no Teatro do Bolhão, no Porto, a cidade onde nasceu, o seu novo espectáculo, Verso – ali ficará até 17 de Janeiro, numa série de espectáculos já esgotados, descendo depois ao Teatro da Trindade, em Lisboa, onde se apresentará entre 20 e 23 de Janeiro (sempre às 21h30, bilhetes entre os 12 e os 15 euros). Mas isso está longe de explicar tudo: as duas distinções seguidas como mágico do ano pela Academy of Magical Arts americana, os prémios equivalentes atribuídos pela francesa Fédération Internationale des Sociétés Magiques e pela espanhola Sociedad Española de Ilusionismo (nunca ninguém conseguira esta acumulação), o reconhecimento dos seus pares e a admiração que lhe é devotada por aqueles que seguem as artes mágicas.

O protagonismo de Hélder Guimarães não se deve apenas à vocação precoce ou à técnica prodigiosa com que manuseia as cartas. “Ter estes prémios ajuda a chegar a promotores e managers, por exemplo”, explica por telefone antes de mais um ensaio. “Deixa-me contente pelo reconhecimento e, vindas as distinções de tantos sítios diferentes, fico com a sensação de que estou a fazer um bom trabalho, mas não é isso que faz de mim melhor mágico."

Verdade e mentira

Hélder Guimarães é mágico moderno, mágico do seu tempo, mas age sintonizado com as origens da arte, que ganhou legitimidade de espectáculo nobre nos salões vienenses do século XIX, pelas mãos do pioneiro Johann Nepornuk Hofzinser. Tornou-se uma arte de transcendência: a ilusão de que existe algo para lá da nossa compreensão e daquilo que os nossos sentidos apreendem. Hélder Guimarães usa-a para nos tentar dizer algo sobre o mundo que habitamos. Para ele, um espectáculo de magia tem de representar “uma ideia”, transmitida “através de um mecanismo cénico”.

Verso joga com a questão basilar da arte mágica, a noção de verdade e de mentira. Ou melhor, com o modo "como construímos essa ideia através de preconceitos, etiquetando como certo ou errado quando, muitas vezes, é meramente uma questão de perspectiva”. Hélder Guimarães explora tais questões com cuidado cénico apurado, não através de grandes aparatos de palco, que só desviam a atenção do essencial, mas pelo recurso ao humor e à sua formação enquanto actor.

Guimarães mudou-se para Los Angeles em 2012, impulsionado por uma crise que sentia poder estagnar o seu percurso profissional e “pela aventura de conhecer outra realidade”. Chegou a um país onde “o próprio conceito de magia em si mesmo é muito atractivo”. Ali, há mágicos onde menos esperamos. Orson Welles era praticante, tal como Steve Martin e Jason Alexander, o George Constanza de Seinfeld (admirador do trabalho de Guimarães). Ou Neil Patrick Harris, o actor de Foi assim que aconteceu que dirige o Magic Castle, Meca da magia nos Estados Unidos, localizada em Hollywood. Harris foi conselheiro de Hélder Guimarães em Nothing to hide, o espectáculo que este partilhou com outro mágico, DerekDel Gaudio, e que se tornou um sucesso retumbante de costa a costa americana. “Eles querem fazer magia que seja significativa – magia que, como arte ou poesia, se relacione com o mundo real”, lia-se num extenso e entusiástico artigo da Village Voice em 2013.

Em Verso, Hélder Guimarães prossegue essa demanda. O espectáculo que estreia e com que regressa a Portugal pretende contribuir para alterar a percepção da magia que temos por cá, ainda muito ligada a figuras celebrizadas pela televisão como David Copperfield ou, entre portas, Luís de Matos. “Não há nada de mal nesses nomes, mas não representam a única forma de fazer magia. Em Portugal tem-se uma relação antiquada com a magia que não ajuda. Ninguém pensa só em heavy-metal quando pensa em música e é impensável ouvir dizer que não se gosta de música." Mas, culpa da visão estereotipada das artes mágicas, não é raro ouvir-se um definitivo “não gosto de magia”.

Hélder Guimarães defende que é nos espectáculos ao vivo, na proximidade e na interacção com o público, que a arte mágica se revela na sua totalidade. Não na televisão, não em vídeos do YouTube. Aí, a câmara impõe obrigatoriamente um olhar. No palco, é o mágico que o dirige, é ele que nos conduz pelos caminhos que deseja. Hélder Guimarães ambiciona “redefinir o que é um espectáculo de magia”. A eterna questão: “A arte é em grande parte inútil, mas é de uma inutilidade muito útil." Num passe rápido, carta surgindo onde os nossos olhos não acreditam, o mágico que é actor dá a sua contribuição para explicar porquê.