Crítica

Vertigem e queda

Igor Jesus numa relação com o espaço — e com a passagem do tempo.

Fotogaleria
Não existe passividade no acto de determinar, Igor Jesus, 2015 DR
Fotogaleria
Obras sobre a queda e o modo como todas as coisas pertencem à terra DR

A última carta ao Pai Natal, de Igor Jesus (Lisboa, 1989), não é uma exposição natalícia, no sentido em que não é uma exposição que celebre, aluda ou critique a celebração ocidental do Natal como o seu título poderia sugerir. Nem se relaciona com aquelas formas de esperança material e espiritual que nos habituámos a associar a esta época. Pode dizer-se que o que mais fortemente caracteriza estes trabalhos é uma consciência da gravidade e da irresistível atracção que os corpos têm pela terra. Por isso, as ideias de queda e vertigem são importantes pontos de sentido nesta exposição. E são-no não num sentido metafórico mas num sentido literal. Ou seja, as obras centrais desta exposição são sobre a queda e o modo como todas as coisas pertencem à terra. Apontar estes elementos de sentido não significa estabelecer uma narrativa unificadora das obras apresentadas, mas sublinhar que os diferentes elementos materiais presentes funcionam como uma espécie de pontos energéticos irradiantes.

Trata-se de uma exposição muito heterogénea, que utiliza indistintamente vídeo, pintura, escultura e instalação como elementos estruturantes da experiência que propõe. E é importante acentuar-se esta noção, porque embora não esteja em causa qualquer ideia de obra de arte total (no sentido wagneriano) a ideia de experiência unitária, como elemento definidor e estruturante da proposta expositiva, é importante para se poder pensar A última carta ao Pai Natal. E isso acontece porque não só as obras se deixam contaminar mutuamente como o artista consegue estabelecer relações espaciais que imprimem um ritmo comum e garantem uma forte unidade ao espaço com que decide trabalhar. A evidência de que o espaço é uma parte integrante das suas obras — quase a poder-se dizer: o espaço é o trabalho — é dada por uma muito discreta escultura chamada Não existe passividade no acto de determinar (2015): um copo virado ao contrário e suspenso numa parede com elásticos, cujo equilíbrio é garantido por um quadrado que o artista retirou da parede, deixando o buraco negativo à vista de todos; portanto: um fragmento material do espaço expositivo que passa a elemento material determinante da escultura.

E o espaço é uma das matérias de trabalho de Igor Jesus (que se tem mostrado como um artista relevante da mais nova geração artística a estar activa depois de 2010). O que não torna os seus trabalhos formalistas, mas sublinha o modo como para este artista a utilização, o pensamento e a transformação dessa coisa invisível, imaterial e virtual que é o espaço são determinantes. Pode dizer-se que este artista não usa o potencial do espaço teoricamente neutro da galeria, mas cria o espaço necessário para as suas obras; ou seja, não se trata de lidar e adequar as suas obras às condições do espaço existente e ensaiando diferentes modalidades de diálogo espacial, mas de, realmente, fazer o espaço necessário para que seja possível ver, experimentar, perceber as suas obras. E é possível perceber este movimento criador a partir das decisões tomadas por Igor Jesus acerca da localização das peças e dos elementos que construiu para a exposição: a blackbox inicial que obriga o visitante a abandonar o espaço mundano e a entrar num outro espaço; a pintura mural que parte, organiza e intensifica o espaço expositivo; a escultura de sapatos assente no chão, a lembrar que o chão que pisamos faz parte da exposição; o vídeo final que, através de um som contínuo, torna unas as diferentes peças.

Mas ainda que nesta exposição Igor Jesus demonstre uma importante inteligência formal, o seu trabalho não pode ser unicamente caracterizado pela atenção à forma; atravessa-o a inquietação sobre a passagem do tempo e a destruição adulta dos mitos infantis. A última carta ao Pai Natal é sobre esse momento em que, segundo diz o artista, se dá a passagem à idade adulta e se deixa de acreditar no Pai Natal, ou seja, a passagem de um pensamento mágico a uma racionalização e normalização do mundo e da vida. Portanto, trata-se de um pensar sobre o tempo e sobre o modo como a sua passagem afecta as coisas, os corpos, o pensamento. E voltamos à escultura-copo em que o vidro tem marcas circulares castanhas feitas através da evaporação do vinho que um dia encheu aquele recipiente. Um vinho que deixa marcas, transformando-se numa peculiar ampulheta que não diz o que é o tempo, mas apenas que ele passa.