Sagres é agora Património Europeu e vai dar a ouvir os sons do mar em terra

O ponto “D” (de descoberta) em Sagres chama-se agora “Voz do Mar”. O som, capaz de pôr os deuses a sonhar, vem do interior uma gruta com mais de 50 metros de profundidade. À superfície, uma obra do arquitecto Pancho Guedes, em forma de orelha, é o novo marco na paisagem.

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Daniel Rocha

O promontório de Sagres, distinguido recentemente com a marca Património Europeu, tenta abrir novos caminhos para o turismo cultural e da natureza. “Antes de o ser, já o era”, diz a directora regional da Cultura, Alexandra Gonçalves, justificando o reconhecimento da União Europeia com o facto de se tratar de um sítio da pré-globalização. Os turistas que ali passam — mais de 300 mil por ano, o que faz do local o monumento mais visitado a sul do Tejo — ficam-se muitas das vezes pela contemplação da beleza do lugar. Falta dar a conhecer a história da Expansão Marítima do século XV, o que significa que fica muito por contar.

A partir da próxima semana, na recta final do promontório, vai-se ouvir e sentir a Voz do Mar debaixo dos pés. O som vem das entranhas da terra, passa em turbilhão por uma gruta com mais de meia centena de metros de profundidade, e impressiona. 

Um pavilhão auditivo, implantado em forma labiríntica, concebido por Pancho Guedes (arquitecto falecido há cerca de um mês, aos 90 anos), apela a um sexto sentido, a uma certa transcendência. “Um lugar romântico”, diz Pedro Ressano Garcia, o arquitecto co-autor da obra, iniciada em 2010 e agora em fase de conclusão. “Não sente a vibração do mar?”, pergunta. Deixa cair ligeiramente as pálpebras, como se estivesse a convocar os deuses para uma leitura d’Os Lusíadas. 

Alexandra Gonçalves, responsável pela candidatura à marca Património Europeu, completa a narrativa: “Este é um lugar sagrado desde há muitos séculos”. No mesmo sentido, o ex-director da Fortaleza de Sagres e actual director dos Serviços Culturais da Direcção Regional da Cultura do Algarve, Rui Parreira, navega pelo romantismo: “Este é um sítio para se namorar”.

Joaquim Silva, amante da pesca desportiva e dono de uma salsicharia em Portimão, leva no saco o isco para seduzir os sargos. A sardinha-isco é atirada à agua e o homem, de 51 anos, fica imóvel, agarrado à cana no alto da arriba. “A água hoje está muito lusa [transparente]”, diz. Por isso, o peixe graúdo afasta-se da costa e, em substituição, aproximam-se as bogas em cardume. No outro lado do promontório, os surfistas cavalgam as ondas. Ao final da manhã, o pescador recolhia três sargos: “Dá para o almoço, estou satisfeito”. Ao fim e ao cabo, confidencia, “do que mais gosto é de vir para aqui desopilar — sinto uma certa paz quando vejo este mar”. 
A representante regional do Ministério da Cultura observa: “Ninguém fica indiferente ao chegar a Sagres, e há quem venha só para ver o pôr-do-sol”.

Uma “orelha” no promontório de Sagres

O projecto Voz do Mar fez parte do programa Allgarve. De início, a obra estava destinada a ser temporária. O que estava previsto é que durasse apenas a edição do evento em que se assinalava a importância de Sagres no contexto da cultura universal e depois seria destruída. Por se tratar de um sítio classificado como Parque Natural, a lei assim o ditava. Mas, com imaginação, o arquitecto Pedro Ressano Garcia ajustou a arte aos regulamentos administrativos e a obra ficou de pé. Na altura, Pancho Guedes, a viver em Itália, delegou em Pedro Garcia o desenvolvimento do projecto e o acompanhamento dos trabalhos.

Mas como nasceu a ideia de construir um “orelha” em cima do promontório? O “milagre” — recorda o arquitecto — surgiu durante uma viagem do Algarve para Lisboa, depois de uma visita a Sagres. Os dois arquitectos falaram da “voz” que brotava da gruta natural. “Andávamos por aqui a passear, tirámos um bocado de solo e saiu este som impressionante”, evoca. 

Na passada sexta-feira, reuniu com os fiscais da obra para dar as últimas indicações antes da inauguração. “Vai levar aqui uma grade de aço [em cima do boca da gruta] para que as pessoas sintam o vibrar do som debaixo dos pés”.

Rui Parreira avança com uma possível explicação para o fenómeno: “O efeito sonoro é provocado pelas ondas que comprimem o ar que está dentro da gruta”. O sopro, vindo das profundezas, chega cá acima, envolve e liberta pensamentos. “As pessoas sentem que ali existe qualquer coisa de diferente”, sublinha Alexandra Gonçalves, evocando a “visão do Infante [D. Henrique] na descoberta do novo mundo”.

A valorização deste monumento nacional passa por um conjunto de obras ainda por realizar. Uma das mais significativas diz respeito à reabilitação do centro expositivo e dos outros edifícios, da autoria do arquitecto João Carreira, construídos na década de 90. 

Com o decorrer dos anos, o ar agreste aliado à falta de manutenção corroeu os materiais e os imóveis ficaram num estado lamentável. A reabilitação dos edifícios vai custar, pelo menos, dois milhões de euros.
A Escola de Sagres, enfatiza Alexandra Gonçalves, é uma “escola do conhecimento” que, à época, atraiu sábios de todo o mundo. E o imaginário e o espirito do lugar, personificado na figura do Infante D. Henrique, atraem estudiosos e turistas ocasionais. Mas, por enquanto, a história de Sagres surge contada apenas em folhetos turísticos, para ler de passagem. A exploração cinematográfica deste lugar — a ponta mais ocidental da Europa — está por realizar. 

Depois da marca Património Europeu, a Região de Turismo do Algarve, com o apoio da Universidade do Algarve e da Direcção Regional da Cultura, prepara uma candidatura a Património Imaterial da Humanidade, da UNESCO, envolvendo não apenas Sagres mas toda a rota das Terras do Infante, compreendendo sete municípios. 

A marca Património Europeu foi criada em 2011 pela União Europeia. Além do promontório de Sagres, Portugal conta com mais duas distinções: Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e a Carta da Lei de Abolição da Pena de Morte (guardada na Torre do Tombo, em Lisboa).