Da escultura como intensificação do mundo

A palavra escrita será sempre um meio insuficiente para nos aproximarmos do universo de Rui Chafes feito de ferro, fogo e palavra.

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Exposição O Peso do Paraíso de Rui Chafes, expostas nos jardins e no Centro de Arte Moderna (CAM) da Gulbenkian Daniel Rocha
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Exposição O Peso do Paraíso de Rui Chafes, expostas nos jardins e no Centro de Arte Moderna (CAM) da Gulbenkian Daniel Rocha
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Exposição O Peso do Paraíso de Rui Chafes, expostas nos jardins e no Centro de Arte Moderna (CAM) da Gulbenkian Daniel Rocha
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Percurso Arte da Lisbon Week - instalação de Rui Chafes, Trago-te em Mim como Uma Ferida, no Paço da Rainha Daniel Rocha
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Esculturas de Rui Chafes no Jardim da Sereia Nelson Garrido

Tudo o que há a dizer sobre a obra de Rui Chafes, que acaba de receber o Prémio Pessoa, não caberá numa folha de papel, não só porque as folhas – todas as folhas – serão sempre lugares exíguos que não poderão conter as esculturas deste artista, mas também porque a palavra escrita será sempre um meio insuficiente para nos aproximarmos deste universo feito de ferro, fogo e palavra. Um universo em que os objectos e as formas nunca são um fim em si mesmas, mas constituem possibilidades de partilha e de comunidade ou seja, são formas de viver com os outros.

Tem-se escrito muito sobre este artista, insistindo-se, quase sempre, na maneira como o seu trabalho é uma espécie de poesia negra (cor dominante das suas esculturas), metálica (as suas esculturas são sempre em ferro) e espacial (as suas esculturas são configurações espaciais).

Fazendo de cada escultura uma espécie de entidade metafísica e realidade poética e tornando o escultor numa espécie de inusitado poeta. Trata-se de uma aproximação possível e legítima devido à afinidade, declarada e pública, de Chafes com alguma poesia de língua alemã (Rilke, Novalis, Hölderlin, Trackl, entre outros), mas também porque os títulos das suas esculturas lembram as intensidades dos versos dos primeiros românticos alemães de que Chafes é próximo e, finalmente, porque a poesia que interessa ao escultor é, à maneira dos primeiros românticos de Jena, uma forma de intensificar o mundo.

Mas se a poesia, enquanto mundo intensificado, é determinante, o seu campo de acção não é o poético, mas o escultórico. E é enquanto escultura que as obras de Chafes são detentoras de uma singularidade notável, a qual assegura a este artista um lugar de destaque não no panteão escultórico nacional, mas no contexto da história da escultura. Ou seja: Chafes não é um escultor notável no contexto nacional ou da sua geração, mas sim porque a sua obra possibilita, de uma forma única e singular, a articulação de elementos formais, tradições e preocupações que não encontram semelhança em nenhum outro escultor.

Podemos estabelecer um diálogo entre o seu trabalho — coerente, paciente e rigoroso  — e o minimalismo norte-americano, a escultura barroca alemã, o realismo mágico de Beuys, a land-art, com Giacometti, e muitos outros de quem o escultor é devedor. Mas em nenhum dos casos se trata de um diálogo teórico ou disciplinar, mas dá-se e renova-se a cada nova exposição, em cada nova escultura, em cada nova instalação.

E é no interior desta tradição que se destaca e notabiliza o modo singular e excelente como este artista cria as suas formas e objectos, como lida com os diferentes tipos de espaço expositivo como a galeria branca, castelos antigos ou a natureza, como escolhe os seus títulos unificando a experiência e percepção das suas obras, entre muitos outros aspectos possíveis de assinalar. 

O que não quer dizer estar em causa uma obra construída a partir de influências, no sentido de ser arte de artistas feita da articulação de citações e apropriações, mas um trabalho inscrito na tradição da escultura e a partir desse lugar Chafes tem criado qualquer coisa de único. O que é magnífico neste escultor é que ele não usa a linguagem da escultura que lhe coube em sorte, mas cria a sua própria linguagem de tal forma que podemos entender o seu trabalho como uma língua cujas regras e sentidos é preciso aprender para o poder sentir, ver, entender.

Assinalar a confluência e articulação de tantas vozes e posições escultóricas nas esculturas de Chafes, mostrando como a partir dessa herança o escultor cria um universo, não quer dizer tratar-se de um trabalho formal, mas há uma inquietação fundamental que alimenta cada um dos seus gestos. E essa inquietação dirige-se ao mundo e aos outros, porque estas não são obras para a arte e a sua história, mas são para os homens terrenos, com corpos, cheios de desejos, medos e esperanças, ou seja, para aqueles que habitam o mundo.

Estes são aqueles a quem Chafes se dirige usando a linguagem mais comum de todas que é a dos corpos, da natureza, da matérias e de tudo aquilo que continuamente habita o mundo e o faz ser como é. Essa é a sua matéria de trabalho. Não se trata de através de um impulso mimético representar o mundo, mas usar a escultura como ferramenta de descoberta da energia que habita o coração das coisas que existem.

Crítico de artes plásticas