José Espinho, o designer que ajudou a mobilar a vida portuguesa

José Espinho. Vida e Obra é a primeira grande exposição dedicada ao nome que, com a Olaio e a Sousa Braga, criou peças essenciais da arquitectura de interiores em Portugal. Inaugura-se no Mude, em Lisboa, esta quinta-feira.

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Um exemplo das linhas neorústicas dos anos 1940 Daniel Rocha
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As cadeiras da pastelaria Mexicana, do arquitecto Jorge Ferreira Chaves, são desenhadas por José Espinho Daniel Rocha
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À esquerda, cadeiras e poltronas da linha Brasil, produzidas pela Olaio a partir de 1962 Daniel Rocha
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José Espinho Daniel Rocha
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A exposição recupera em fotografia exemplares de peças que podem já não existir, recheio de obras entretanto demolidas ou redecoradas Daniel Rocha
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O estirador JE, que finda a exposição Daniel Rocha
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Detalhe da mesa Folhas (1950s/60s), produzida em série pela Olaio Daniel Rocha
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Objectos pessoais de José Espinho Daniel Rocha
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Montagem da exposição José Espinho. Vida e Obra Daniel Rocha
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Junto ao sofá feito por encomenda para o Hotel Tivoli em finais dos anos 1950/início dos anos 1960, um toucador da linha Belém (1956) Daniel Rocha
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Mais um móvel de assento da linha Brasil Daniel Rocha
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Móvel bar de produção em série da Olaio da década de 1940, ainda manufacturado Daniel Rocha

O quarto onde dormiu a classe média portuguesa, aquele estirador em que várias gerações de arquitectos trabalharam, a cadeira em que se empoleiraram alunos e professores das escolas públicas, os coloridos assentos em que se come e bebe pela cidade de Lisboa. E os fantasmas, ou as fotografias do que já não se encontra, do que eram hotéis, cinemas ou casas do século XX português. José Espinho desenhou parte dos hábitos e da estética de décadas da vida portuguesa e tem pela primeira vez honras de grande exposição no Museu do Design e da Moda (Mude), em Lisboa.

É uma das exposições centrais do ano do Mude, que depois das mostras dedicadas a António Garcia (que morreu em Junho), Eduardo Afonso Dias e Miguel Arruda, quer continuar a contar a(s) história(s) do design português. Daquelas décadas em que a colaboração e a inconsciência do design – eles eram ilustradores e não designers gráficos, eram decoradores e não designers de interiores ou de mobiliário – conta parte da evolução do país. E José Espinho é um desses nomes, associado de forma quase indelével à Fábrica de Móveis Olaio da qual foi consultor de Estética Industrial.

Começando na década de 1940 e terminando em meados de 1970 (José Espinho, que nasceu há cem anos, morreu em 1973), vamos do neo-rústico dos móveis pesados e ornamentados às linhas puras do moderno 'à portuguesa'. Hotel Alvor Praia, Estoril-Sol, Tivoli ou Mundial, as cadeiras da pastelaria Mexicana e toda a cervejaria Solmar em Lisboa, interiores do cinema Monumental, parte dos quartos do Hotel Ritz, linhas de grande difusão para uso em casas de particulares, peças de encomenda, beliches, o estirador JE. José Espinho esteve ali.

Pelo meio, a vida privada de Espinho, de quem a filha, Maria José Espinho Galamba, guarda mil histórias. “Audácia e coragem”, vai descrevendo ao PÚBLICO, “um desassombro” numa figura “para além do tempo” na “generosidade” e “modernidade”. Muito, muito humor. E as fotografias que já nos acostumámos a ver deste período do design português, emergente e depois em afirmação, de amizade e convívio entre industriais como José de Sousa Braga e designers e arquitectos como Daciano Costa ou António Garcia, que resultariam em obras de colaboração ampla.

José Espinho pôs nas casas e nos espaços de encontro público “toda uma linguagem moderna, que já se começava a fazer nos países nórdicos e que traz para Portugal”, contextualiza ao PÚBLICO a historiadora de design Graça Pedroso, comissária da exposição – para trabalhar “ao gosto da sociedade portuguesa”. Esteticamente, “começa a deixar o elemento decorativo e começam a aparecer as linhas limpas. Mais puras. O coraçãozinho e os recortados do neo-rústico desaparecem, o torneado canelado desaparece e aparece o torneado limpo” nos pés de cadeiras ou móveis, por exemplo. “E o que ele traz também é conseguir fazer essas peças à máquina. Por ter a Olaio por trás – ainda bem que a Olaio teve Espinho e ainda bem que ele teve a Olaio –, vai fazer a transição do trabalho manual para o industrial” no mobiliário português, continua.

Esse neo-rústico, “muito imbuído no país e nas casas”, diz a especialista na apresentação à imprensa na tarde de quarta-feira, é o que começa a exposição, depois de mostrar objectos da vida privada de Espinho. As primeiras pinturas do jovem nascido em Beringel, no Alentejo, depois melhor aluno da Escola António Arroio, em Lisboa, e cujo início de carreira se faz como ilustrador (ou designer gráfico) trabalhando para a Câmara da capital.

É nessa altura, inícios da década de 1940, que começa também a trabalhar no atelier de Keil do Amaral, numa altura em que a “Olaio percebe que precisa de inovar”, explica Graça Pedroso. No atelier do arquitecto do Parque Eduardo VII, “já começava a fazer algumas peças de design”, e mesmo na autarquia fazia design expositivo. A transição para o mobiliário, a área em que se destacou e onde se concentram os seus maiores contributos, “foi extraordinariamente simples”, atesta a historiadora.

Acompanhando as mudanças de um país sob Salazar, que se modernizava lentamente, assistiu à emergência do gosto pelo “sabor moderno”, como se lê na exposição, que via no estrangeiro nas suas regulares quatro saídas anuais para salões de mobiliário nos anos 1940/50. Viu e alimentou o fulgor que as grandes encomendas deram a empresas como a Olaio ou a Sousa Braga (com a qual também colaborou) no mobiliário de linhas rectas e funcionais, ao boom do turismo na economia portuguesa e à construção de mais hotéis e correspondente aumento da procura de mobiliário nos anos 1960, e ao poder de compra de uma pequena burguesia daí em diante e até à sua morte.

No piso 3 do Mude, e até 17 de Abril de 2016, estão cerca de 90 peças de mobiliário, apenas três do acervo do museu e as restantes cedidas por galerias, particulares e outras instituiçõs, além de documentação iconográfica que mostram uma Lisboa e uma parte do país desaparecida. Hotéis demolidos como o Estoril-Sol, outros que se remodelaram ou se tornaram partes homogeneizadas de cadeias internacionais na Figueira da Foz, ou na Ericeira, cinemas tornados shoppings, sapatarias redecoradas... “Consequência da nossa incipiente cultura arquitectónica”, lamenta a directora do Mude, Bárbara Coutinho, que quer que José Espinho. Vida e Obra seja também “uma chamada de atenção para os lugares que ainda existem” para preservação da “nossa identidade patrimonial”.

José Espinho ia do desenho ao projecto – era “um homem da perspectiva”, como diziam muitos dos seus colaboradores sobre a sua capacidade como desenhador, conta Graça Pedroso. O seu grande contributo para a afirmação do design enquanto disciplina em Portugal? “Ele contribui pura e simplesmente fazendo obra. Não é um académico”, como Daciano ou Sena da Silva, recorda a comissária. “Ele dizia: ‘Eu sou um fazedor de obra’. É o grande contributo que dá para o design em Portugal. É o fazer e  não com o espírito que muitos tiveram de atelier-escola  ir passando a sua informação e conhecimento aos vários colaboradores que teve”.

Em 2013, a Galeria Bessa Pereira, em Lisboa, fez uma exposição dedicada a José Espinho e actualmente encontra-se no Museu de Cerâmica de Sacavém uma mostra sobre a Olaio, que decorre até Dezembro de 2016.