Orange Is The New Black: pode um drama ser uma comédia?

Dois anos depois, a série sensação do Netflix tem as três temporadas disponíveis em Portugal. Orange Is The New Black é a história das mulheres que vivem atrás das grades e que está a abanar a televisão.

Para Taylor Schilling (ao centro) é importante como a série tem despoletado a discussão sobre o sistema prisional nos EUA
Fotogaleria
Para Taylor Schilling (ao centro) é importante como a série tem despoletado a discussão sobre o sistema prisional nos EUA DR
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria

Piper Kerman tem hoje 46 anos e já foi em 2004 que foi presa por ter participado num esquema de tráfico de droga internacional. Era então uma jovem da classe média/alta de Nova Iorque, estava prestes a casar-se e a lançar uma marca de sabonetes artesanais quando o passado a atropelou – o tráfico tinha acontecido dez anos antes mas alguém a havia denunciado agora. A sua experiência atrás das grades deu um livro que em 2013 deu uma série com o mesmo nome, Orange Is The New Black. Kerman é Chapman na produção original do Netflix, uma personagem que é apenas um ponto de partida para a vida das muitas mulheres que hoje vivem em prisões nos Estados Unidos. Com um elenco maioritariamente feminino e o mais heterogéneo possível, a série tem agitado a televisão. Falámos com a protagonista Taylor Schilling (Piper Chapman) e a veterana Kate Mulgrew (Galina 'Red' Reznikov).

Foi preciso esperar dois anos para que Orange Is The New Black (OITNB) chegasse a Portugal. As três temporadas estão disponíveis para ver e a quarta chega no Verão de 2016. A par de House of Cards, este drama com apontamentos de humor negro e tantas vezes difícil de catalogar – até os especialistas parecem não saber bem como definir a série que já se tornou na primeira a ser nomeada para os Emmys tanto como Melhor Comédia (2013 e 2014) como Melhor Drama (2015) –, é desde o início uma das grandes apostas do serviço de streaming. Assim que se estreou no Verão de 2013 foi um sucesso de crítica e audiências. Passada na prisão federal de segurança mínima de Danbury, no estado de Connecticut, na série de Jenji Kohan, criadora de Erva, não existem tabus.

PÚBLICO -
Foto

Para Taylor Schilling, actriz que até aqui era muito pouco conhecida do público, o sucesso da série deve-se ao facto desta mostrar a vida como ela é, mesmo que atrás das grades. Parece um cliché mas a norte-americana acredita que OITNB é diferente de qualquer outra série, principalmente daquelas que se passam em prisões, porque mostra sem grandes artimanhas como qualquer um de nós poderia acabar ali. “Todos nós já tomámos com certeza decisões erradas”, diz Schilling à mesa com jornalistas portugueses e espanhóis. “O que Jenji Kohan e todos os argumentistas tentam fazer com muito esforço é realçar as semelhanças entre nós e as questões que aquelas mulheres na prisão enfrentam. Eu sinto mesmo que podia ser eu”, acrescenta a actriz ao mesmo tempo que é interrompida por Kate Mulgrew: “Desculpa mas és tu. Quero dizer, é uma mulher da classe média/alta, uma rapariga branca, educada. Podia ser”.

Em Orange Is The New Black, Piper Chapman vai parar à prisão dez anos depois de alguém a ter denunciado em tribunal – muito provavelmente a sua ex-namorada Alex Vause, interpretada por Laura Prepon, também ela a cumprir pena naquela prisão. Quando dá entrada no estabelecimento prisional, Chapman teve tempo para se preparar. Logo quando chega à cela, Nicky Nichols (Natasha Lyonne) pergunta-lhe o motivo de estar presa: “Eu li que não é suposto perguntar isso”. “Leste isso? O quê, estudaste para vir para a prisão?”, diz depressa a companheira de cela, uma ex-drogada, deitando por terra a ideia de que uma prisão possa ser preparada.

“O que vemos aqui é a forma como os seres humanos evoluem. Nada é encoberto. A Piper está a aprender lições, e fá-lo não de uma forma branda, não à maneira de Hollywood. É muito real. Às vezes anda para a frente e outras para trás”, conta Schilling, também ela defendendo que não sabe como definir a série. “É confuso”, diz em resposta ao PÚBLICO. “Tem uma definição híbrida”, acrescenta Kate Mulgrew. “Mas não é assim a vida? Não é esta a metáfora perfeita? A mulher gorda tropeça numa casca de banana e cai. Toda a gente ri mas ela morre.”

Kate Mulgrew, que em Orange Is The New Black é a dura Red, mulher de origens russas que controla a cozinha da prisão, acredita que parte do sucesso de OITNB deve-se ao facto desta “não mergulhar na escuridão”. E temas não lhe faltam para isso: “Basta reparar em tudo o que a Piper está a trazer para primeiro plano sobre a prisão”. “A série fala sobre racismo – que é fundamental para esta conversa –, fala sobre liberdade religiosa, sexo, drogas, poder, capitalismo.” Está lá tudo, espelhado num dos elencos mais diversificados da televisão actual, a fim de representar a realidade das prisões, ainda muito segregadas.

PÚBLICO -
Foto

Piper Chapman é apenas uma peça do puzzle que compõe Orange Is The New Black. Ou como lhe chamou Jenji Kohan, é o “cavalo de Tróia”. “Não se vai a um canal e vende-se uma série de histórias fascinantes de mulheres negras e mulheres latinas, mulheres velhas e criminosas. Mas se pegares nesta rapariga branca, nesta espécie de peixe fora de água, e a seguires, podes então expandir o seu mundo e contar todas as outras histórias”, disse Kohan em entrevista à radio NPR.

É por isso que em todos os episódios vamos conhecendo a história daquelas mulheres, não temos flashbacks apenas do passado de Chapman mas também daquelas que a rodeiam. Há a transsexual Sophia Burset (interpretada pela actriz transsexual Laverne Cox); a jovem latina Dayanara Diaz (Dascha Polanco), cuja mãe também está presa; a lésbica feroz Big Boo (Lea DeLaria); ou a negra Suzanne Warren, mais conhecida por Crazy Eyes (papel que já valeu vários prémios a Uzo Aduba), e que vê em Piper a sua mulher na prisão.

“O que me agrada é que esta é uma série que, pela primeira vez, é estritamente sobre mulheres com mulheres. É uma coisa maravilhosa porque Hollywood é um clube de rapazes. Isto é importante”, diz ao PÚBLICO Mulgrew, ao mesmo tempo que Schilling destaca como OITNB “é uma das primeiras séries onde se vê que homens e mulheres estão interessados em ver narrativas femininas do início ao fim”. “Ficou provado que a mulher a contar a sua própria narrativa, como um ser humano, como mãe, namorada, amante, amiga, capta a atenção tanto de mulheres como de homens.”

Kate Mulgrew diz-se ainda numa posição privilegiada para comentar, tendo em conta a sua longa carreira na televisão, mais de 40 anos na indústria: “Já fiz muita coisa, já vi muita coisa e sei que Orange Is The New Black está a quebrar barreiras na sociedade”. “Os tempos mudaram. Costumávamos ver televisão para nos sentirmos melhor, agora vemos televisão para percebermos quem somos. E esta é a nova era da televisão”, diz, afirmando ter percebido desde logo que esta produção seria inovadora.

À veterana actriz, conhecida por ter entrado em séries como Star Trek, agrada-lhe que Orange Is The New Black tenha “um sentido de esperança, de aceitação”. Já Taylor Schilling destaca como a série tem despoletado a discussão sobre o sistema prisional nos Estados Unidos. “Eu acredito que o sistema prisional nos Estados Unidos tem de mudar. Acho que o se passa agora é uma farsa, é uma farsa a forma como estão a lidar, por exemplo, com a prisão em massa”, diz a actriz, contando ter visitado várias prisões e ter falado com várias reclusas enquanto se preparava para o papel. “Todos sabem que a prisão nos Estados Unidos é terrível. Um em cada três homens negros no nosso país vai para a prisão. E isto é insano”, concluiu Kate Mulgrew. 

O PÚBLICO viajou a convite do Netflix